Lisboa, margens do rio Tejo… Camões, ele mesmo vítima de um naufrágio na costa do Comboja… Segundo a lenda, teria se salvado segurando em uma das mãos os originais de Os lusíadas…
“No mar, tanta tormenta e tanto dano,
Tantas vezes a morte apercebida:
Na terra, tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade avorrecida!
Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e se indigne o céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno”
Busco inspiração e coragem na frase de duplo significado e na genialidade de Fernando Pessoa em Palavras de pórtico: “Navegar é preciso, viver não é preciso”… Para os navegadores antigos, “Navegar é necessário, viver não é necessário”, mas, hoje, com o progresso da tecnologia, “Navegar é exato, viver não é exato”….
Também Fernando Pessoa com o poema Mar português:
“Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.”
Ainda em águas lusitanas, um canto triste marca o momento solene da despedida, Meu amor é marinheiro, na voz inconfundível de Amália Rodrigues.
Atravesso o Atlântico (“o mar que nos separa é o mar que nos une”…) e, no Brasil, o primeiro documento da literatura, a Carta de Pero Vaz de Caminha, crônica descrevendo as embarcações primitivas dos índios e a frota de Cabral.
“Stamos em pleno mar“…Castro Alves, além do Navio negreiro, nos brinda na chegada com Versos de um viajante e O gondoleiro do amor.
Na tela, uma bela marinha de Pancetti e a dúvida: é pintura ou poesia?
Drummond, vindo de sua Itabira, se espanta e se encanta com a imensidão do mar e, na sequência, mistura poesia com filosofia: “Não é propriamente o mar que é imenso, mas a nossa insignificância diante dele”.
E navego pela belíssimo poema de Leila Diniz, que depois viria a ser musicado por Milton Nascimento:
“Brigam Espanha e Holanda
Pelos direitos do mar
O mar é das gaivotas
Que nele sabem voar
O mar é das gaivotas
E de quem sabe navegar.
Brigam Espanha e Holanda
Pelos direitos do mar
Brigam Espanha e Holanda
Porque não sabem que o mar
É de quem o sabe amar.”
A suavidade e a simplicidade na música do mestre Dorival Caymmi:
“Minha jangada vai sair pro mar
Vou trabalhar, meu bem querer.
Se Deus quiser, quando eu voltar do mar
Um peixe bom eu vou trazer
Meus companheiros também vão voltar
E a Deus do Céu vamos agradecer”
Sigo a viagem no sonho de Cecília Meireles:
“Pus meu sonho num navio
E o navio em cima do mar:
Depois abri o mar com as mãos,
Para meu sonho naufragar”
E eis que o meu navio atraca na Ilha de Itaparica, dentro da exuberante Baía de Todos os Santos, para reverenciar dois filhos ilustres que tanto se destacaram retratando o mar da Bahia na literatura: Xavier Marques e João Ubaldo Ribeiro, ambos membros da Academia Brasileira de Letras.
Mas não há dúvida, o escritor brasileiro que mais se debruçou sobre o mar da Bahia foi Jorge Amado (Mar morto, Jubiabá, Os velhos marinheiros ou o capitão de longo curso, Terras do sem fim e tantos outros livros de sua autoria).
Do mar para o porto, local de abrigo, águas tranquilas, porta de entrada e ponto de encontro de todas as nações e todos os povos, que se aproximam nas relações de intercâmbio comercial. Berço da malandragem e da boemia, fonte de inspiração de muitos artistas e poetas, onde o mar fecunda a terra, fazendo surgir as concentrações urbanas. Local de trabalho, de suor, de alegrias e tristezas, de encontros e desencontros, de chegadas e partidas.
No mar, o medo e as ameaças da natureza rebelde. No cais do porto, as incertezas da vida… Uma mistura, cheiro forte de suor, gente e mercadorias… Vida… A chuva tenta, em vão, lavar as marcas de um passado sombrio, o canto triste dos negros acorrentados que aqui desembarcaram na escuridão das noites sem lua.
Encerro a viagem relembrando a lenda do surgimento da Baía de Todos os Santos, a Kirimurê dos Tupinambás, hoje Capital da Amazônia Azul, eternizada nos livros: Ventos de verão, crônicas de Myriam Fraga e pinturas de Mendonça Filho, e Salvador da Bahia de Todos os Santos no século XIX, texto de Godofredo Filho e pinturas de Diógenes Rebouças.
“No começo do mundo, uma pomba muito grande e muito branca, partindo de algum ponto do infinito, veio voando, voando, até que, exausta da longa jornada, caiu morta no litoral daquela terra que seria o Brasil. Suas alvas e longas asas, abertas no solo, transformaram-se nas praias da Bahia – e, no lugar onde o coração bateu na terra, abriu-se uma imensa e profunda brecha que as águas do mar preencheram, formando a Baía de Todos os Santos, cujas margens soberbas foram fecundadas pelo sangue da ave legendária, sangue que hoje ainda jorra, já enegrecido pelo tempo, quando as sondas perfuram as entranhas do Recôncavo“.
Sérgio Faria, engenheiro e escritor, presidente da ALAS – Academia de Letras e Artes do Salvador