
No vocabulário corporativo, o termo custo de oportunidade costuma ser aplicado a investimentos que deixaram de ser feitos ou decisões que deixaram de ser tomadas. Partindo deste conceito, é possível falar de um ralo financeiro muito mais silencioso e constante dentro das organizações: a manutenção de sistemas de software obsoletos. O que muitos gestores ainda tratam como um mal necessário ou um simples gasto de manutenção técnica é, na verdade, um dos maiores entraves para a rentabilidade e para a competitividade. No Brasil, onde a transformação digital acelerou de forma desigual, muitas companhias operam hoje como se tentassem vencer uma corrida usando um tênis antigo, gasto, de anos atrás.
De acordo com dados da consultoria Gartner, estima-se que empresas cheguem a gastar entre 60 e 80% de seus orçamentos de tecnologia apenas para operar sistemas antigos que já não entregam agilidade. Para Felipe Lutz, CIO da Outsera, empresa de outsourcing de profissionais de tecnologia de alta performance, esse cenário cria uma espécie de dívida técnica acumulada que impede a empresa de inovar. “Quando a maior parte do capital e do tempo da equipe de TI é consumida por correções de bugs em códigos defasados, sobra pouco ou quase nada para investir em frentes que realmente geram valor”, diz.
O desafio para o C-level brasileiro é identificar o momento exato em que o software deixa de ser um suporte e passa a ser um freio operacional. Existem sinais claros desse ponto de ruptura, começando pela crescente dificuldade de integração. Em um ecossistema de negócios cada vez mais dependente de APIs e conectividade, sistemas antigos funcionam como ilhas isoladas que demandam ajustes técnicos caros e instáveis para “conversar” com ferramentas modernas. Um estudo da IDC reforça essa necessidade de mudança ao apontar que a modernização de sistemas pode aumentar a produtividade das equipes de desenvolvimento em mais de 40%, um ganho que pode ser a diferença entre liderar o mercado ou perder relevância para concorrentes modernos.
Somado ao prejuízo financeiro direto, existe o fator humano. O Brasil enfrenta um gap histórico de profissionais de tecnologia e os melhores talentos do mercado raramente aceitam trabalhar com linguagens de programação em desuso ou estruturas rígidas. “Manter um sistema obsoleto é uma estratégia que favorece a rotatividade de funcionários e encarece o recrutamento, já que a empresa precisa pagar um “bônus” de complexidade para atrair quem aceite manter sistemas antigos vivos. A conta, no fim do dia, inclui não apenas o servidor, mas o tempo perdido de profissionais altamente qualificados que poderiam estar criando novos produtos”, afirma o executivo.
Há também o risco latente de segurança e conformidade, especialmente sob o rigor da LGPD. Sistemas antigos são alvos muito mais fáceis para vulnerabilidades digitais por não suportarem as camadas de proteção e criptografia mais recentes. Segundo o relatório anual da IBM, o custo médio de uma violação de dados pode atingir cifras milionárias, transformando a suposta economia feita ao adiar uma atualização em um passivo catastrófico.
“A modernização de fato é o caminho para estancar essa sangria, permitindo que as empresas troquem arquiteturas pesadas por plataformas flexíveis e escaláveis sem a necessidade de interromper a operação. Em um contexto de mercado onde a agilidade é a verdadeira moeda de troca, a obsolescência não é apenas um problema de TI, mas um risco estratégico que compromete a longevidade do negócio”, conclui Felipe Lutz.