

No cenário político contemporâneo, a relevância de um líder muitas vezes é aferida pelo número que repousa abaixo de sua foto de perfil: a métrica dos seguidores. No entanto, estudo do LabCaos sobre a política baiana revela que essa “massa” digital é, em larga medida, um simulacro. Vivemos a era da “Alquimia dos Dados”, onde a transformação de chumbo (contas inativas e bots) em ouro (prestígio eleitoral) ameaça a integridade do debate público e a própria autenticidade da representação política.
Veja o estudo completo aqui:
https://www.instagram.com/p/DUUEnnuiZUu/?img_index=1
A análise de seguidores dos principais atores políticos da Bahia expõe uma dicotomia preocupante. De um lado, temos figuras como o senador Angelo Coronel e o ex-prefeito ACM Neto, que, embora ostentem bases vultosas, lideram o ranking de contas suspeitas — chegando a 46% e 20%, respectivamente. Do outro, observa-se uma base mais orgânica no “trio puro G” (Wagner, Rui e Jerônimo), onde Jaques Wagner se destaca com o maior percentual de seguidores “reais” (45,20%).
Essa disparidade não é meramente estatística; ela é sintomática de uma crise de autenticidade. Quando quase metade da audiência de um representante é composta por perfis inautênticos ou massivos suspeitos, o engajamento torna-se uma ficção. O capital político, outrora construído no “corpo a corpo” e na entrega de políticas públicas, agora enfrenta o risco de ser inflado artificialmente por algoritmos e fazendas de cliques. O “seguidor fake” é o eleitor que não vota, não questiona e não dialoga; ele é apenas ruído em uma democracia que demanda sinais claros.
A teoria política clássica de Noelle-Neumann sobre a “Espiral do Silêncio” ganha novos contornos neste ambiente. Ao observar um político com milhões de seguidores, o eleitor comum tende a aderir a essa “maioria aparente” por um instinto de integração social. No entanto, se essa maioria é forjada, estamos diante de uma manipulação do consenso.
Os dados do estudo indicam que, enquanto João Roma possui uma base majoritariamente composta por perfis de baixa atividade (46,59% de seguidores massivos suspeitos), nomes como Otto Alencar e Jerônimo Rodrigues conseguem manter uma relação mais próxima com o real. Essa diferença impacta diretamente a capacidade de mobilização: seguidores reais geram conversas reais, enquanto seguidores falsos geram apenas a ilusão de poder.
O ministro Rui Costa, por exemplo, surge como um caso emblemático de capital digital real. Com uma base expressiva de 761 mil seguidores, o estudo demonstra que Rui detém a segunda melhor base de seguidores “reais” entre todos os políticos analisados, com 44,11% de perfis autênticos. Somado ao desempenho de Jaques Wagner — que lidera em termos proporcionais de seguidores reais (45,20%) — e de Jerônimo Rodrigues, a chamada “puro G” estabelece uma fronteira clara de autenticidade no Instagram. Perfis com menor índice de suspeição possuem um potencial de engajamento significativamente superior, pois suas mensagens alcançam pessoas de carne e osso, capazes de replicar o discurso no mundo físico.
Sobre o estudo
O estudo do LabCaos – agência especializada em análise de dados e marketing político – ao aplicar 13 variáveis para identificar padrões de comportamento, demonstra que a ciência de dados é hoje a principal ferramenta de vigilância democrática. A transparência digital não deve ser um desejo, mas um imperativo ético.
Análise técnica permite uma conclusão que vai além da denúncia do “fake”: ela aponta para a eficiência da construção de bases orgânicas. Enquanto líderes da oposição enfrentam o desafio de uma audiência diluída por contas suspeitas, o cenário entre os nomes do governo revela uma solidez estatística notável. Essa “limpeza” nos dados não é apenas uma vitória de imagem, mas uma vantagem competitiva real, sobretudo nas redes sociais, ambiência essencial para as estratégias vitoriosas no marketing político.
Yuri Almeida é estrategista político, professor e especialista em campanhas eleitorais