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ARMANDO AVENA – OS MAUS PRESSÁGIOS DE 2024

Redação - 11/01/2024 08:53 - Atualizado 11/01/2024

O ano de 2024 começa sob o signo dos maus presságios. Para começar, o cenário internacional está cheio de sinais de mau agouro. A guerra em Gaza, longe de arrefecer, ameaça escalar para a Cisjordânia e outros países do Oriente Médio. Na guerra na Ucrânia sequer há tentativas de paz em curso. E as duas Coreias iniciaram o ano trocando tiros na fronteira. Qualquer escalada em um desses conflitos, especialmente no Oriente Médio, pode gerar uma crise econômica de grandes proporções, com direito a disparada nos preços do petróleo. O crescimento esperado para a economia mundial em 2024 já é baixo e, de acordo com as Nações Unidas, deve se reduzir de 2,7% em 2023, para 2,4% em 2024, inferior à taxa de crescimento pré-pandemia.

Se o cenário internacional se agravar, a economia vai crescer menos ainda e o Brasil será afetado, especialmente se houver reflexos no mercado de petróleo. Aqui, os presságios são melhores, mas existem condicionantes que podem afetar a economia brasileira. O maior desses condicionantes é a taxa de juros.  As Nações Unidas projetam que o crescimento do PIB brasileiro vai desacelerar de 3,1% em 2023 para 1,6% em 2024, devido aos impactos prolongados das taxas de juros mais altas e da desaceleração da demanda externa. E o resultado pode ser pior, se o Conselho Monetário Nacional (CMN) não acelerar a queda nas taxas de juros.

A taxa Selic fechou 2023 em 11,75% ao ano. Isso significa que a taxa de juros real (descontada a inflação) está em 6,11%,  a 2ª maior do mundo,  atrás apenas do México. A Selic tem de cair mais para que o país possa crescer mais. A próxima reunião do Copom será em 30 e 31 de janeiro e, se se pretende atingir um juro maior, ela tem de cair pelo menos 1%. Os fundamentos da economia já permitem esse movimento. A meta para a inflação em 2024 é de 3% ao ano com uma margem de tolerância de 1,5% para mais ou para menos e o mercado prevê inflação de 3,9%, ou seja abaixo do teto da meta. Se os juros caírem e se mantiverem em um patamar mais baixo, o principal efeito será a redução no custo do crédito. Ou seja, empréstimos e financiamentos ficariam mais baratos, incentivando o consumo e o investimento produtivo. O PIB brasileiro cresceu mais de 3% no ano passado, mas a taxa de investimentos foi muito baixa. Isso ocorre porque os empresários fazem uma conta de padeiro na hora de investir: no numerador colocam a taxa de retorno esperada do investimento e no denominador a menor taxa de juros do mercado. Se a conta der menor que 1 não tem investimento, afinal, para que investir, mobilizar capital e mão-de-obra, se eu posso ganhar o mesmo dinheiro ou mais aplicando na renda fixa? E, vale lembrar, a queda na taxa Selic, reduz o pagamento de juros na rolagem da dívida interna, melhorando o perfil de endividamento do país, abrindo espaço para se chegar ao grau de investimento.

Ainda na economia teremos de enfrentar a questão do déficit zero em 2024, que não está equacionada. E para completar, 2024 é um ano de eleições, no qual tradicionalmente os gastos governamentais se elevam.

 

DEPENDÊNCIA DE PRODUTOS PRIMÁRIOS

Já vi muitos economistas defendendo a especialização de um país ou um estado em commodities.  É uma bobagem, principalmente por conta da dependência aos humores internacionais. A Bahia é um exemplo. Hoje os 10 principais produtos da nossa pauta de exportação são commodities. Em 2022, as exportações bateram recorde, com os preços internacionais altos por causa da guerra na Ucrânia. Este ano, as exportações caíram quase 20% por causa da queda no preço das commodities e da desaceleração da economia global.  Antes havia os carros da Ford, hoje temos apenas calçados e pneus e outros produtos menores. Precisamos da BYD e seus carros elétricos e de verticalizar mais nossa produção.

A SECA E O CANAL DO SERTÃO

Quase 70% do território baiano está no semiárido, área tão grande que cabe dois estados do Ceará. Sujeita a seca, a área registra neste momento 190 municípios com estado de emergência decretado. As soluções de convivência com a seca ajudam, mas não resolvem o problema. Além das ações emergenciais que vêm sendo adotadas, a Bahia precisa de um projeto de porte para minorar o problema na região. Esse projeto já existe e está contemplado no PAC. Trata-se do Canal do Sertão, uma obra que vai trazer água do São Francisco até a Barragem de São José do Jacuípe, em Várzea da Roça, passando por 44 municípios. É urgente o início desse projeto, pois a seca não vai dar trégua ao semiárido da Bahia.

Publicado no jornal A Tarde em 11/01/2024

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