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SOBRE A ÓPERA – ARMANDO AVENA

Redação - 11/08/2023 07:48

Quando digo a meus amigos que gosto de ópera, a reação é de espanto. Já quando digo que gosto de espetáculos de dança, a reação é de surpresa e muita gozação. Gosto de espetáculos de dança desde que vi as belíssimas performances do Ballet do Teatro Castro Alves.

Mas quem me fez gostar do ballet clássico foi Paulo Francis, que só gostava de ópera, mas um dia assistiu o “Lago dos Cisnes” e, ao ver a coreografia e a maravilhosa história contada em movimentos de dança, com a música de Tchaikovsky marcando cada passo, foi tomado de amores pelo ballet. Foi no Manhattan Connection que Francis declarou seu amor pela dança. Influenciado por ele, assisti ao meu primeiro ballet clássico, “Sonho de uma noite de Verão”, inspirado em William Shakespeare, e adorei.

Mas a ópera é especial. É um espetáculo no qual estão presentes todas as artes: o teatro, as artes plásticas, a dança, a música e a literatura. É teatro porque no palco se representa um drama ou uma comédia; é literatura, pois necessita de um texto, chamado libreto; a arte plástica está nos cenários e na coreografia; e tudo vem amalgamado com a música, que cria uma atmosfera única e dá uma força insuspeitável as palavras e aos gestos. Pode-se assistir a ópera sem entender seu conteúdo, mas o ideal é acompanhar o libreto e os grandes teatros trazem nas costas das poltronas a legenda de cada fala em várias línguas.

O meu encantamento com a ópera veio no dia em que assisti a Tosca, a história de amor entre a cantora Floria Tosca e o pintor Mario Cavaradossi. Tosca morria de ciúmes da linda mulher que posava para se tornar Madonna na igreja de Sant’andrea della Valle, onde Mário havia escondido o prisioneiro político Cesare Angelotti, e por isso o Barão de Scarpia, o homem do poder, o capo da polícia, queria prender Caravadossi e ao mesmo tempo aprisionar Tosca nos seus braços. Tudo embalado pela maravilhosa música de Puccini, com direito a “E lucevan le stelle”, a mais bela ária de todos os tempos. A Tosca é uma tragédia, mas o leitor pode se deleitar também com uma comédia, uma ópera-bufa, como “L’elisir d’amore”, de Donizetti, a história de Adina e de Nemorino que, ao ver a mulher que ama ler como Isolda conquistou Tristão com uma poção de amor, acha que pode fazer o mesmo. E é sublime ver um Nemorino apaixonado cantar “ Una furtiva lacrima”.

E não pense o leitor que este é um elogio elitista à uma arte estrangeira que o povo não tem acesso. A ópera é universal e aqui mesmo em Salvador foi composta a primeira ópera negra brasileira, com música de  Lindembergue Cardoso e libreto do  poeta Ildásio Tavares.  “Lídia de Oxum” narra a paixão do abolicionista Lourenço de Aragão, filho de um senhor de engenho, por Lídia, filha de um ex-escravo. Sua estreia lotou o Teatro Castro Alves e emocionou o povo da Bahia.

Publicado no jornal A Tarde em 11/08/2023

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