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 O MUNDO POR ASSINATURA – ARMANDO AVENA

Redação - 28/07/2023 08:05 - Atualizado 28/07/2023

O sistema capitalista evoluiu ao longo do tempo e, se nos seus primórdios atraia os consumidores dando-lhe liberdade de escolha através da concorrência entre muitos ofertantes, no mundo moderno é o contrário:  ele tenta aprisionar os clientes, obrigando-os a consumir os seus produtos diariamente, mensalmente ou anualmente, independente da escolha momentânea.

Isso disseminou-se em grande escala através do sistema de venda por assinaturas. Aliás, já havia dito ao leitor que nossa vida se tornou uma vida por assinatura. Pagamos mensalmente para assistir filmes, ouvir música, acessar a internet, guardar os dados na nuvem, ler os jornais e revistas e por aí vai. Isso sem falar nos gastos mensais para ter acesso a planos de saúde, clubes de vinho ou de livros, pedágio sem parar, água, telefone, energia e muito mais.

As farmacêuticas e laboratórios nos aprisionam com medicações diárias e exames periódicos e os médicos participam do sistema através de benefícios via prescrições.  As farmácias e o comércio varejista criaram um sistema monumental de cadastros para fidelizar o cliente, estabelecendo vínculos com profissões e conselhos e gerando descontos e promoções que vão trazê-lo de volta à loja. Fidelizar o cliente é a meta.

Os economistas chamam a esse sistema de economia de recorrência, caracterizando que não se trata de uma venda única, mas uma compra recorrente. E em muitos casos a propriedade deixou de ter importância, o que se vende é uma permissão ao acesso. Aliás, já não é tão importante ser dono de um carro ou de uma casa, com todos os problemas de manutenção daí advindos, pois se pode ter um automóvel ou um apartamento através de serviços por assinatura que estão disponíveis no mercado. O consumidor tem o direito de usar o bem enquanto durar a assinatura, mas não tem a posse.

Tudo isso faz parte da economia de recorrência e beneficia as empresas, pois estabelece a garantia de faturamento, estabiliza o fluxo de caixa e acaba com o custo de manter estoques. As maiores empresas do mundo buscam transformar seus produtos em produtos de recorrência estabilizando suas receitas.

Para o consumidor também parece ser mais vantajoso, pois ao optar pelo uso ao invés da posse, e pelo fornecimento recorrente ao invés da compra única, ele economiza tempo, tem sempre o mesmo produto e transfere a manutenção para a empresa. Mas é mera ilusão. Na verdade, o modelo aprisiona o consumidor, pois vincula-o à renovação da assinatura, estabelecendo dificuldades para o seu encerramento e vantagens para sua permanência. E padroniza e homogeneiza seus gostos e preferências, obrigando-o a ter sempre em mão o mesmo produto e o mesmo serviço. É tudo o que o capitalismo sempre quis: transformar o ser humano em uma máquina que consome ininterruptamente e de forma previsível.

Publicado no jornal A Tarde em 28/07/2023

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