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JOSÉ MACIEL – O BRASIL COMO UM DOS SUPRIDORES MUNDIAIS DE ALIMENTOS

SX - 16/06/2023 12:10 - Atualizado 25/06/2023

Como se sabe, a população mundial aumentará dos atuais 8 bilhões de habitantes para cerca de 10 bilhões de pessoas em 2050. Este cenário, somado a outros fatos recentes, a exemplo do conflito Rússia-Ucrânia, tornará a segurança alimentar um objetivo cada vez mais perseguido e valorizado daqui por diante. Os países  procurarão produzir mais alimentos  estratégicos em seus territórios, mas isso tem limites  impostos por restrições de várias naturezas. Por razões conhecidas, o Brasil tem sido citado em vários relatórios de agências internacionais como o país que ocupará um lugar central no abastecimento dessa população adicional. O Departamento de Agricultura norte-americano (USDA), afirma que pelo menos 40% dessa demanda adicional será atendida pelo dinâmico agronegócio brasileiro.

Antes de elencar algumas recomendações para viabilizar a promissora trajetória  brasileira nos próximos 27 anos,  é preciso apontar algumas premissas estratégicas.

Em primeiro lugar, é possível admitir que Rússia e Ucrânia, dois tradicionais produtores e exportadores de grãos, com trigo, milho e girassol, e protagonistas de um conflito que acaba de completar um ano, talvez não sejam mais considerados fornecedores confiáveis  no abastecimento do mercado global de alimentos, forçando os países importadores a buscar outras fontes de suprimento, a exemplo do Brasil, Argentina, Austrália, Canadá, Estados Unidos, e outros países. Mesmo com o fim da guerra, incertezas e desconfianças podem persistir, especialmente por parte dos países europeus importadores, tornando essa busca por outras fontes supridoras uma conduta , em certa medida, permanente, o que favorecerá ainda mais a posição brasileira.

Por outro lado, alguns países com escassos recursos naturais para uso agrícola, como por exemplo a Arábia Saudita, Emirados Árabes e outros tradicionais importadores do Brasil,  talvez prefiram adotar   uma estratégia de produção de produtos finais das cadeias produtivas , que exigem pouca quantidade de terras agrícolas. Por exemplo, é de se supor que a médio prazo a Arábia Saudita talvez escolha se tornar autossuficiente na produção de carne de frango, optando por importar grãos para rações, como soja e milho. Nesse contexto, o Brasil poderia ver diminuída sua exportação de frangos para este país , mas, por outro lado, pode experimentar uma importante trajetória de crescimento da produção e exportação de grãos para rações animais. O raciocínio acima é meramente hipotético e pode não se concretizar.

De todo modo, dada a  capacidade competitiva indiscutível do nosso agronegócio, dando conta do abastecimento interno e do suprimento parcial do consumo de mais de 180  países, que importam nossos produtos, cabe ao Brasil empreender esforços para pelo menos manter suas posições exportadoras nos mercados dinâmicos tradicionais, a exemplo  da União Europeia e dos EUA, e diversificar destinos  e pautas exportadoras , especialmente na China e países asiáticos, sem excluir aqueles para quem possamos ampliar nossas vendas externas e importar fertilizantes intermediários e finais. Nesse último grupo, entram Canadá, Marrocos, Irã e outros países. Além da China , devemos prospectar crescentemente oportunidades de comércio em países, como Japão , Coreia do Sul, Cingapura, Hong Kong, Indonésia, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Malásia, Irã e outras nações, incluindo a preocupação permanente de diversificar o universo de produtos exportados, hoje muito concentrados em grãos e carnes. Frutas, algodão, café, cacau, trigo e outros itens deverão estar também  no nosso radar comercial  exportador. A autossuficiência no abastecimento de trigo entra como elemento importante nas nossas escolhas estratégicas. Só a Bahia tem quase 200 mil hectares de pivôs centrais irrigados, que podem ser destinados parcialmente para essa finalidade, sobretudo no Oeste

Um elemento importante nessa estratégia consiste em executar um trabalho sistemático de “inteligência” comercial e econômica nos  diversos países de nosso interesse. Nesse particular, devemos, por exemplo, colocar o maior número  possível de adidos agrícolas nas nossas embaixadas , identificando oportunidades de  comércio,  investimentos e aspectos de competitividade, inclusive em países que competem conosco em terceiros mercados. Austrália é um exemplo claro de país que compete conosco, principalmente na Ásia. Voltaremos a esse tema oportunamente.

(1)Consultor Legislativo e doutor em Economia pela USP.  E-mail:  [email protected]

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