JOSÉ MACIEL – CIRO GOMES E O AGRONEGÓCIO

JOSÉ MACIEL - CIRO GOMES E O  AGRONEGÓCIO
A exemplo do que fizemos em 2018, à medida que as propostas dos candidatos a presidente da república forem sendo divulgadas, a nossa ideia é trazê-las para este espaço, para fins de análise e discussão. Até onde sabemos, a proposta do pré-candidato Ciro Gomes, exposta , no livro “Projeto Nacional – o dever da esperança”, editado em 2020, é a única disponível até o momento.
No  livro acima citado, as ideias começam a ser formuladas para o agronegócio já no âmbito da política industrial, oportunidade em que Ciro prioriza quatro áreas em nosso ciclo industrial: o complexo do petróleo, gás e bioenergia; o complexo industrial da saúde; o complexo industrial da defesa; e o complexo industrial do agronegócio.
Depois de destacar a importância do segmento para  o superavit da balança comercial e das nossas exportações (atualmente no patamar acima de 120 bilhões de dólares anuais), ele afirma que ” a decisão de desenvolver um complexo industrial numa área na qual temos a base primária mais sólida do mundo é praticamente um imperativo econômico”. Ele prevê o incentivo de indústrias de processamento de cereais e frutas, visando exportá-las não somente em seu estado bruto, ou seja, sob a forma de commodity. Outros eixos são a revitalização da EMBRAPA e  e a criação de uma indústria brasileira  de fertilizantes, defensivos e máquinas  agrícolas. Hoje, investir em fertilizantes é praticamente uma unanimidade nacional , sobretudo após o conflito Rússia-Ucrânia revelar os elevados e preocupantes coeficientes de importação do país, ao redor de 85% das nossas  necessidades anuais. O governo atual inclusive  tratou  de elaborar recentemente um Plano Nacional de Fertilizantes, para reduzir substan​cialmente as compras externas desse insumo  num  horizonte de 30 anos.
Conquanto Ciro defenda uma grande prioridade para o setor industrial, ele não negligencia a nossa vocação para ser um grande produtor mundial  de alimentos.
Nesse sentido, segundo ele, caberia ao Estado assegurar o suporte financeiro, já que  em sua avaliação o setor bancário não cumpre adequadamente esta função. Igualmente importante é o governo  “voltar” a promover os avanços tecnológicos que possibilitaram a ocupação produtiva dos cerrados, especialmente com cultura da soja. O candidato parece desconhecer o fato de que a EMBRAPA já ” tropicalizou ” o trigo com a criação de variedades adaptadas para o cultivo nos cerrados e nas áreas tropicais de altitude do Centro-Oeste e do Nordeste, a exemplo do Oeste baiano e da Chapada Diamantina. E este esforço de tropicalização já se estende para espécies de fruteiras  de clima temperado, com a possibilidade de cultivo de caqui, pera e maçã, dentre outras lavouras, nas áreas irrigadas da Bahia e de outros estados do Nordeste.
Finalmente, o candidato prega o apoio à agricultura familiar ( coisa que ninguém discorda), amparado, porém na falsa premissa de que 70% dos alimentos consumidos pelos brasileiros são provenientes da produção familiar. Já se disse aqui que o renomado professor Rodolfo Hoffmann, da Esalq, discorda categoricamente desta afirmação, e os números , em termos de valor da produção, revelam exatamente o oposto, isto é, entre 70 e 75% do valor bruto da produção agropecuária brasileira são referidos à produção de maior escala. Então, nesse ponto, queremos ressaltar   nosso total apoio às propostas para a agricultura familiar (tanto esta  como  a agricultura de  maior escala são importantes para o país). Nesse particular inclusive, na nossa visão de organização institucional de apoio ao setor, todas as funções relativas ao setor agropecuário, incluindo irrigação  e as ações concernentes  a assentamentos e reforma agrária, ficariam, em nossa avaliação, sob a coordenação do Ministério da Agricultura, e, nos Estados, sob o comando único das secretarias de agricultura.
(1)Consultor Legislativo e doutor em Economia pela USP.  E-mail: jose.macielsantos@hotmaiil.com