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A LITERATURA E O POLITICAMENTE CORRETO – ARMANDO AVENA

Redação - 03/05/2024 09:44 - Atualizado 03/05/2024

O mundo moderno anda muito estranho. Estranho na política, nas artes, nas opiniões, nas confrarias e na forma de ver o mundo. E, como se não bastasse, as bancadas das livrarias estão tomadas por uma literatura politicamente correta, uma literatura “boa-moça” ou do tipo “querer é poder!”

Aliás, outro dia, conversando com uma jovem, citei o livro Madame Bovary, de Gustave Flaubert, e ela, certa de que estava vaticinando o óbvio, exclamou: “Mas é um livro imoral e misógino!” Sou um homem risonho por natureza, mas o comentário raptou meu sorriso e tive de lembrar-lhe que o romance de Flaubert era um marco do realismo literário e conta a história de uma mulher que para fugir ao tédio do casamento pequeno-burguês busca na literatura e no adultério uma saída para a rotina e o fastio de sua vida.

O destino de Emma Bovary foi trágico, afinal o livro foi publicado em 1856 quando a mulher não podia ter desejos ou direitos, mas o escritor a colocou como protagonista de sua saga. Acusado de imoral, Flaubert foi absolvido da acusação e, inquirido sobre quem era Madame Bovary, respondeu: “Emma Bovary sou eu”. Pois é, o protagonista do livro de Flaubert somos todos nós.

Agora quero dizer à jovem, e ao leitor, que em literatura tudo é permitido e não há nem pode haver “politicamente correto”. Não fosse assim, seriamos privados de “Lolita” de Vladimir Nabokov, de “A Confidencia Africana” de Roger Martin du Gard, de “A Pornografia” de Witold Gombrowicz e de  “As aventuras  de uma negrinha que queria ser Deus” de Bernard Shaw, todos à beira do cancelamento. E de algumas das belas e sensuais obras do nosso Jorge Amado.

Não há nem pode haver cancelamento ou censura, muito menos em arte ou literatura, e o leitor precisa saber que o que foi escrito foi escrito, e em um contexto histórico definido, por isso não pode ser revisto ou reescrito.

A obra, a liberdade e a irreverência é o que de melhor o artista pode deixar para a posteridade. Não me canso de citar William Faulkner, que nas famosas entrevistas da revista The Paris Review, destilou (esse é o termo!) sua famigerada irreverência, ainda que com boa dose de etarismo. Indagado por um incauto repórter, que parecia idolatrá-lo e esperava uma resposta construtiva, sobre “qual a responsabilidade de um escritor?”, Faulkner, bebericando seu Bourbon e lixando-se para sua idolatria e para seu o bom mocismo, retrucou: “A única responsabilidade do escritor é para com sua arte. Será inteiramente desapiedado se for um bom escritor. Tem um sonho. Isso o angustia tanto que ele tem de se livrar dele. Não tem paz até então. O resto vai por água abaixo: honra, orgulho, decência, segurança, felicidade, tudo, para que o livro seja escrito. Se um escritor tiver que roubar a sua mãe, não hesitará; a “Ode a uma urna grega”, de John Keats, vale mais do que qualquer punhado de velhas”.

Publicado no jornal A Tarde em 03/05/2024

Armando Avena é escritor, jornalista e economista. Tem 10 livros publicados e é membro da Academia de Letras da Bahia. Luiza Mahin, os 7 Vocábulos e Maria Madalena: o Evangelho segundo Maria são seus três últimos livros publicados pela Editora Geração.

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