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ENTREVISTA COM PAULO STUDART SOBRE AQUISIÇÃO DE GRUPOS MÉDICOS NA BAHIA

Redação - 24/01/2022 07:00 - Atualizado 24/01/2022

Bahia Econômica – Grandes grupos do sul e sudeste estão comprando hospitais e clínica na Bahia. Num movimento de expansão jamais visto. A que o senhor atribui esse movimento?

Paulo Studart – Antes de responder, ressalto que a chegada destes grupos nacionais é importante para o desenvolvimento do segmento da saúde no nosso estado, trazendo melhoria da qualidade operacional, melhores práticas globais, serviços avançados com novas de tecnologia.

Respondendo à sua pergunta, dentre os diversos os fatores que impulsionam esse movimento, destaco dois. O 1º, com a pandemia do covid-19, houve uma queda de valor de avaliação de muitas empresas do ramo, o que as tornou ainda mais atrativas para investidores capitalizados e/ou que não sentiram tanto os efeitos da crise. O 2º, devido ao forte movimento de aquisições por parte de grandes grupos do setor em busca de crescimento e consolidação de mercado, fez com que outros grupos tenham que também agir rapidamente e de forma consistente em compras de empresas e ativos se quiserem garantir força e posição competitiva nesse mercado.

Bahia Econômica – Quais as perspectivas de ampliação desse movimento no estado?

Paulo Studart – Ainda há espaço para ampliação deste movimento. A Bahia é um estado com perspectivas positivas no segmento da saúde. Se analisarmos alguns indicadores, vemos potencial de crescimento.

1-            O nosso estado tem mais de 15 milhões de habitantes, porém apenas 1,6 milhões contam com a cobertura da saúde suplementar, em torno de 11% da população. A média do Brasil é de 24%.

2-            Envelhecimento da População que no ano de 2020 representa 9% de idoso deverá chegar a 27% no ano 2060

3-            A Expectativa de Vida do baiano é de 74 anos e deverá alcançar 78 anos em 2060

Estes indicadores mostram um crescimento projetado do PIB per capita no estado, que levarão ao aumento no consumo de produtos e serviços e à criação de empregos formais no setor. Os serviços médico-hospitalares, têm grande potencial de expansão na Bahia. Apenas um em cada nove baianos tem acesso à rede privada de saúde.

Há muitas oportunidades porque o setor ainda é fragmentado, principalmente no interior do estado, a maioria dos hospitais e clínicas está em mãos de famílias, muitas formadas por médicos, com grande espaço para profissionalização da gestão e para inclusão de tecnologia e práticas empresariais mais modernas, portanto há espaço para consolidação, o que gera ganhos de eficiência.

Bahia Econômica – Esse movimento pode desestruturar a economia de saúde do estado no sentido de criar monopólios, ou deixar a saúde sendo controlada por poucos grupos?

Paulo Studart –  Sim, a depender do ramo de atuação das empresas compradas, poderá desestruturar a economia da saúde da Bahia, para mitigar este risco, questões regulatórias relevantes devem ser observadas. Especialmente em operações envolvendo empresas da saúde que fazem atendimento direto ao público, como hospitais e clínicas especializadas.

Para preservar a concorrência, temos o CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) que precisa desenvolver e aprimorar competências para análise do segmento da saúde, visto que fusões e aquisições neste segmento é bastante recente. O CADE como uma autarquia, deve manter a livre concorrência, coibindo condutas anticompetitivas como cartéis, dumping e/ou outras práticas que possam comprometer o bem-estar econômico deste segmento, impedindo que haja exercício de poder de mercado como, por exemplo, a cobrança de preços abusivos por parte de um grupo com elevada concentração de mercado.

Bahia Econômica – Como ficam as empresas baianas de saúde que prestam serviços a esses grupos?

Paulo Studart – As empresas terão que se adaptar a este novo cenário competitivo para sobreviver. Elas deverão rever seu posicionamento no mercado visando principalmente manter e se possível aumentar sua participação, de forma duradoura.

Algumas empresas baianas terão dificuldades para competir com as grandes redes, por falta de folego financeiro e não poder determinar os preços dos seus serviços, por falta de escala para redução dos custos. A marca, o pioneirismo, tradição e o tamanho, são importantes, porém não são suficientes para sua sobrevivência. O desafio, portanto, é possuir uma gestão adequada, produtos e serviços de qualidade e uma boa estratégia de atuação que permita à empresa baiana competir e aproveitar bem o conhecimento do mercado.

Com o apoio, a união e a liderança das entidades representativas empresariais do segmento da saúde, as empresas baianas deverão buscar o fortalecimento das redes de cooperação e controle. Acreditamos que médicos, fornecedores, colaboradores e empresas da área de saúde terão de trabalhar em conjunto, reduzindo custos, introduzindo tecnologia e racionalizando o uso dos recursos para assim manter sua posição no mercado.

Em alguns estados brasileiros, diante do risco cada vez maior de perder espaço e competividade, hospitais com atuação local e que trabalham de forma isolada, estão buscando alternativas frente ao poderio econômico e o assédio externo das grandes redes integradas de saúde. Em Goiás, por exemplo, cinco hospitais privados de Goiânia, estão colocando em prática uma união que resultará na formação de um grupo denominado G500 (referente ao número de leitos dos cinco hospitais). O objetivo é criar o maior grupo do setor de saúde no Estado do Centro Oeste, com valor de mercado na ordem de R$ 1,2 bilhão.

Bahia Econômica – Existe alguma alteração para a classe médica do estado?

Paulo Studart – No primeiro momento, o médico continuará a ter um papel central, como o principal responsável por atender o paciente e utilizar o seu conhecimento para diagnosticar e tratar doenças, bem como acionar os demais elementos da cadeia. Ao pedir exames, internações, cirurgias ou medicamentos, é o médico movimenta todos os demais elos, a fim de atender às necessidades dos pacientes.

No segundo momento, o médico poderá ter uma redução da liberdade/autonomia, pois a relação passa a ser também entre o “paciente” e os prestadores de serviços à saúde (hospitais, clínicas, laboratórios e as operadoras de saúde). Apesar do poder de acionar os demais elos da cadeia, o médico aumentará a dependência das redes hospitalares e das operadoras de saúde para a prestação de serviços, pois há uma tendência de contratos nacionais entre os hospitais e as operadoras limitando as opções de escolhas dos médicos para seus pacientes.

A relação médico-paciente que é baseada em confiança e alto grau de deferência sofrerá interferências com a implantação de processos de trabalhos nacionais destas redes e das operadoras, afetando o paciente, com a restrição ao acesso às consultas do médico escolhido em detrimento a um balanceamento das agendas dos demais médicos das redes.

Os médicos também terão menos liberdade de estipular o valor das consultas e procedimentos, pois as redes estão introduzindo novos modelos de remuneração, como por exemplo, o empacotamento de procedimentos médicos a um preço fixo, ao invés de simples repasse de custo com margem adicional para o hospital. Apesar da dúvida, tais modelos têm crescido bastante e já representam em torno de metade da receita de alguns grandes grupos hospitalares.

Por outro lado, estas redes proporcionarão a integração entre medicina e tecnologia para garantir a entrega de serviços de saúde aos baianos, trazendo um ganho para os médicos que estejam atuando nestes hospitais. A inovação em medicina passa, necessariamente, pela disseminação do uso de tecnologias cada vez mais avançadas e disruptivas. Por exemplo, todos os nossos grandes hospitais oferecerão a cirurgia robótica, garantindo procedimentos mais seguros e menos invasivos aos pacientes. O uso de inteligência artificial contribuirá para reduzir as falhas humanas, porém a experiência de um cirurgião no comando da estrutura, continuará indispensável, cabendo a ele o poder de decisão. A Bahia aumentará sua competência nesta área. Também para os médicos, será disponibilizado investimento em pesquisa e a possibilidade de publicar artigos científicos.

Bahia Econômica – O governo deveria intervir para criar algum tipo de parâmetro?

Paulo Studart – O governo do estado e a prefeitura tem o papel de incentivar empresas a se fixar na Bahia. Devem trabalhar para garantir um ambiente favorável às empresas, oferecendo segurança jurídica e ajustes tributários para as que estão chegando. Porém, além de atrair novos negócios para o estado, é preciso dar condições para que as empresas baianas permaneçam aqui e não desapareça.

Portanto, as entidades empresariais do segmento, devem buscar alianças entre os setores público e privado, bem como a academia, organizações não governamentais e demais organizações, para que as empresas baianas tenham a capacidade de reunir todos os recursos que promovam sua sobrevivência, com acesso a ciência e tecnologia. Não apenas para o curto prazo, mas para sustentar e prosperar ao longo do tempo.

Bahia Econômica – Como você enxerga o futuro do mercado baiano da saúde?

Paulo Studart – O mercado se tornará tecnologicamente mais desenvolvido e mais competitivo, com o que há de mais novo aplicado na área da saúde, recebendo investimentos em tecnologia e inovação. Porém a tendência de concentração continuará.

No mercado americano, o processo de concentração hospitalar é bastante anterior ao brasileiro, e até o momento não existe consenso sobre os benefícios gerados, alguns economistas da área avaliam que a concentração aumenta poder de barganha dos hospitais para negociar preços mais altos com os planos de saúde, levando a um aumento dos prêmios de seguro. Do outro lado, o setor hospitalar defende que a consolidação é benéfica. Segundo estudo da American Hospital Association, as fusões melhoram a qualidade dos serviços e reduzem os custos. Essa conclusão, no entanto, é contestada por economistas que estudam a questão. Portanto ainda requer uma avaliação mais consistente.

Nesse sentido, torna-se fundamental que os órgãos reguladores estejam atentos ao mercado. É importante também que a rede pública mantenha os investimentos, ampliando, qualificando e introduzindo tecnologia, para proporcionar opções de atendimento à saúde mais acessíveis aos baianos.

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