ENTÃO É NATAL – POR ARMANDO AVENA

ENTÃO É NATAL - POR ARMANDO AVENA

Então é Natal, diz-me o calendário. Mas que posso dizer sobre o Natal, uma festa que enobrece o ser humano não só pelo que ela representa, mas porque ele, o homem, por vezes tão cruel e insensível, ter sido capaz de criar uma celebração tão linda que homenageia as crianças, os que têm fé e mesmo aqueles que não a tem.

O Natal é uma festa cristã e comemora o nascimento do menino Jesus, mas é também uma festa ecumênica que, de certa forma, reuniu a crença de todos. Nesse dia,  celebrava-se o solstício de inverno no hemisfério Norte, quando o sol começa a fazer os dias mais longos. Era a antiga festa pagã dos celtas e dos druidas, mas também a comemoração da Saturnália, quando o romanos trocavam presentes; a festa de Mitra, o deus persa da luz, e do Hanukkah, a celebração das luzes entre os judeus.

Um historiador logo virá lembrar-me que em determinado período da história a força política do cristianismo escolheu uma data mais próxima as crenças de todas as religiões para assim arregimentar mais seguidores.  Que seja, mas prefiro ver o Natal como uma festa de todos, não importando no que creiam e acho que o menino Deus que nasceu nesse dia também prefere vê-lo assim. E na minha infância o Natal era para todos, ou pelo menos eu achava que era, ainda que me perguntasse por que Papai Noel não passava pelas casas dos pobres e por que os ricos estavam se lixando para isso. “Mudaria o Natal ou mudei eu?”, perguntaria Machado de Assis que na labuta por um poema natalino, pelejou contra o metro adverso e, ainda assim,  só lhe sobrou um verso: “Mudaria o Natal ou mudei eu?” Acho que nada mudou neste país de meu Deus: os pobres estão cada vez mais pobres e, se for possível abstrair os sinais do tempo, eu não mudei tanto assim.

Mas então, o que posso dizer sobre Natal? Direi como Fernando Pessoa que  o segredo é saber que não há mistério no mundo e que tudo vale a pena? Ou como Drummond que, organizando o Natal, queria que nos amássemos desejando felicidades ininterruptamente, de manhã à noite, de uma rua a outra, de continente a continente, de cortina de ferro à cortina de nylon — sem cortinas?

De nada adiantou  toda a minha literatura e continuei sem saber o que dizer sobre o Natal, uma festa tão linda nesse mundo tão belo que os homens tornam tão feio.  Foi então que Joaquim, que tem cinco anos, entrou na biblioteca e, cansado de ouvir minhas histórias sobre a mitologia grega, cristã e africana, perguntou, quase ordenando: “ Meu avô, vamos escrever nossa própria mitologia?” É, vai me dar um trabalho danado, mas agora sei que falar do Natal  é falar de Joaquim e de todas as crianças do mundo.