JOSÉ MACIEL- CACAU NO SEMIÁRIDO

JOSÉ MACIEL- CACAU NO SEMIÁRIDO
Nos últimos anos, observa-se uma tendência favorável à recuperação da produção de cacau na Bahia, produção essa que foi profundamente abalada pela incidência da vassoura-de-bruxa a partir de 1989, com reduções dramáticas na produção e produtividade das lavouras por hectare. Parece que o ponto de inflexão dessa queda deu-se em 2003, sobretudo com a criação de clones tolerantes à doença, e, desde então, a cultura cacaueira vem  experimentando um processo de recuperação.
Nos  últimos anos, também é possível constatar a existência de estudos que indicam a possibilidade de incrementos consideráveis na produtividade para patamares entre 100 e 200 arrobas por Hectares, marcas essas inalcançáveis no  período pré-vassoura-de-bruxa. Alguns analistas e técnicos da Ceplac e do Ministério da Agricultura ligados ao cacau duvidam dessa possibilidade , admitindo apenas sua obtenção em plantios de pequeno porte. Não obstante, parece  perfeitamente possível alcançar tais marcas em plantações de porte médio, de algo em torno de 20 hectares ou mesmo mais, sob regime de irrigação.
Outro fato relevante se refere à introdução de experiências de plantios em novas áreas não tradicionais, a  exemplo de áreas secas de Jequié, Iaçu e Itaberaba, no Paraguaçu, municípios do Oeste baiano e algumas zonas do vale do São Francisco, como Bom Jesus da Lapa (Projeto Formoso) e Juazeiro-Petrolina, todas sob regime de irrigação. Os cacaueiros necessitam de um regime de chuvas mensais ao redor de 100mm , requisito esse inexistente no vale do São Francisco. Portanto , nessas novas áreas impõe-se a necessidade de irrigação suplementar. A seu favor, tais áreas secas têm umidade relativa do ar mais baixa , ao redor de 40-50%, condição que conspira contra a incidência de doenças , a exemplo da citada vassoura-de-bruxa.
Esse potencial de novas áreas com aptidão para o cacau , inclusive como zonas de “escape”  da “vassoura”, tem atraído a atenção de pesquisadores e estudiosos da USP, a exemplo de estudo conduzido pelos pesquisadores  Gabriela Begiato, Eduardo Spers, , Luciano Castro  e Marcos Fava Neves. O título do aludido trabalho é:  Análise do Sistema Agroindustrial  e Atratividade do Vale do São Francisco para a Cacauicultura Irrigada.
A análise de viabilidade econômica desses estudiosos trabalhou com dados e indicadores de plantios de diversos tamanhos , como 1, 4  e até 100 hectares, dados esses colhidos  nas experiências de plantios de cacau consorciado com bananeiras, sendo estas usadas para a obtenção de receita até a entrada do cacau em produção plena. Tais experiências para fins deste estudo se localizam em Bom Jesus da Lapa, maior produtor municipal de banana do Brasil, mais precisamente  no Projeto Formoso. A vantagem aqui reside na elevada produtividade dos cacauais irrigados por hectare e no clima seco, desfavorável para a incidência da vassoura-de-bruxa e outras doenças, além da possibilidade da produção de cacau na entressafra dos mercados externos e internos. A conclusão principal é que foram constatadas taxas de retorno bastante atrativas, de até 16%.  Do ponto de vista de estratégia para a produção estadual, acreditamos que pelo menos duas frentes de atuação possam ser seguidas. A primeira consiste em intensificar as experiências nos projetos de irrigação da CODEVASF, incluindo, claro, o mencionado Projeto Formoso, colocando o cacau como mais uma opção na pauta da produção de frutas na região; a segunda reside   no apoio às iniciativas em curso em áreas do Paraguaçu, promovidas pelas prefeituras , com destaque para os municípios de Iaçu e Itaberaba. Claro que as áreas tradicionais devem também merecer o apoio do poder público.
  1. Consultor Legislativo e doutor em Economia pela USP. E-mail:  jose.macielsantos@hotmail.com