ADARY OLIVEIRA – AS FIBRAS SINTÉTICAS

ADARY OLIVEIRA - AS FIBRAS SINTÉTICAS

Com o crescimento da população mundial as três principais fibras naturais (seda, algodão e lã), usadas na fabricação de fios têxteis e tecidos, tiveram de ser substituídas por fibras sintéticas, obtidas através da síntese química de novas substâncias. Embora sejam encontradas no mercado pouco mais de uma dezena delas, as principais são o náilon, o poliéster e o acrílico, que passaram a substituir respectivamente a seda, o algodão e a lã.A quantidade de larva ou lagarta da mariposa (Bombyx Mori), popularmente chamada de bicho-da-seda, que teria de ser criada na sua comida favorita amoreira branca, para a fabricação de meias, calcinhas e soutiens, seria uma enormidade. O algodão tem resistido ao avanço do poliéster, principalmente no Brasil, um dos líderes mundiais do cultivo da planta (do gênero Gossypium, família Malvaceae) que tem em São Desidério, na Bahia, especialmente no distrito de Roda Velha, seu maior produtor. Quanto à lã de carneiro, produzida com mais fartura na ovelha (Ovis aries) nos lugares de clima frio, não consegue ser mais econômica do que as grandes fábricas (de mais de 500 mil t/a) de acrilonitrila.

O náilon (nylon) é uma poliamidae foi a primeira fibra a ser sintetizada, em 1938, por Dr. Wallace Hume Carothers, quando trabalhava para a Dupont. O nome nylon teria surgido das duas primeiras letras dos nomes da cidade New York, nos Estados Unidos, e das três primeiras letras da palavra London, cidade da Inglaterra, homenageando assim as duas metrópoles onde foram realizadas as pesquisas. O poliéster é um polímero fabricado a partir do ácido tereftálico purificado (PTA) ou a partir do seu éster dimetílico, o tereftalato de dimetilo (DMT) e mono-etilenoglicol (MEG). O primeiro poliéster era chamado de terylene, em 1941, pela Imperial Chemical Industries (ICI). Logo em seguida, a Dupont lançou o dácron, a segunda fibra de poliéster, em 1951, desenvolvida a partir da compra dos direitos autorais do terylene.Acrilonitrila é um monômero aplicado na indústria têxtil e na produção de plásticos de engenharia, como a ABS. No Polo Industrial de Camaçari foram instaladas as fábricas de caprolactama, para fabricação do náilon 6, de DMT para a manufatura de poliéster e de acrilonitrila. Das três apenas esta última ainda está funcionando e pertence ao Grupo Unigel.

A indústria têxtil é uma das que mais gera empregos e é formada por uma cadeia enorme, saindo dos insumos básicos, passando pela fabricação de fios e tecidos e comandados na ponta pela manufatura de confecções. Puxando as confecções está a alfaiataria, planejada meticulosamente pela chamada indústria da moda. Ela inclui a criação de modelos de roupas personalizadas e em série e dita o que deve ser produzido no início da cadeia produtiva. Dos três fios sintéticos o menos usado no Brasil, por estar situado nos trópicos, é o acrílico. Mesmo assim, quando a Rhodia se viu com altos estoques, nos anos 1980, lançou uma variedade de cores como o rosa-choque, o verde-cheguei e o azul-pavão, que vendeu uma imensidade.

O náilon se tornou muito conhecido com o lançamento das camisas volta-ao-mundo. As cores eram lindas e o tecido não amassava, não precisando passar ferro. Era o ideal para estudantes, como eu, que moravam em pensão. O grande defeito era que essas camisas não ajudavam na transpiração por serem impermeáveis. Em pouco tempo foram derrotadas pelo poliéster e suas fábricas foram repentinamente fechadas. O poliéster, além de combinar perfeitamente com o algodão, é mais macio, se ajusta melhor ao corpo e custa menos. Mas cada um dos fios sintéticos foi descobrindo seus nichos de mercado e sobreviveram aos tempos. A experiência que temos na Bahia, onde por muitos anos se produziu as três principais matérias-primas para a produção dos fios, como escrevi antes, é que, nesse ramo de negócio, o fato de ser dono da matéria-prima não lhe garante o domínio do comércio. A acessibilidade aos mercados se apresenta como mais importante.

A exportação de algodão do Brasil superou a marca de um milhão de toneladas na safra 2018/2019. Pena que tenha sido em pluma, não em fios, tecidos e confecções. Quanto mais no fim da linha de produção o setor emprega mais gente, e é para essa ponta que devemos caminhar.

Adary Oliveira é engenheiro químico e professor (Dr.) – adary347@gmail.com