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OS SONHOS NÃO TÊM DONO – ARMANDO AVENA

Redação - 12/11/2021 08:36 - Atualizado 12/11/2021

Entre os romances que escrevi, um dos que mais gosto é Recôncavo, que se passa na cidade de Cachoeira, com seus mistérios, suas crenças e seus mitos. Nele relato um episódio de telecinesia ou psicocinese, a suposta capacidade da mente humana de agir a distância sobre a matéria. Embora muitas pessoas garantam que já viram objetos movendo-se sozinhos, nunca foi possível demonstrar que o ser humano é capaz de influenciar mentalmente objetos externos ou eventos sem o uso da energia física.

Mesmo os experimentos que supostamente demonstraram essa capacidade ou as explicações de que o fenômeno seria desencadeado por adolescentes na puberdade são considerados pseudociência ou simplesmente fraudes. Um dos casos mais estudados de telecinesia foi o da russa Nina Kulagina, cujo poder de mover objetos é relatado em relatórios da  Universidade de Leningrado, na antiga União Soviética. Mas os cientistas o veem  como mais um episódio de pseudociência, um pouco menos ridículo do que as apresentações de Uri Geller, um superstar da paranormalidade que entortava colheres na TV, mas, ainda assim,  uma fraude, típica do “mundo assombrado pelo demônios”.

Mais controversa é a possibilidade de uma pessoa fazer a outra sonhar o que ela deseja. A literatura já se ocupou do tema e é famosa a história do homem que perdeu toda sua riqueza, menos a casa de seu pai, e que uma noite teve um sonho: alguém  tirava uma moeda da boca e lhe dizia: “vai a Isfahan, na Pérsia, lá está tua fortuna”.  O homem deixou o Cairo e  enfrentou o deserto e os bandoleiros, o mar e os piratas, até que, cansado, chegou a Isfahan e adormeceu no pátio de uma mesquita.

À noite, um bando de ladrões roubou a mesquita e o chefe da guarda quando lá chegou encontrou apenas  o homem adormecido.  Enquanto as varas de bambu vibravam em suas costas, o chefe da guarda indagou: “ O que te trouxe a Pérsia? “ O homem disse a verdade: “sonhei que minha fortuna estava em Isfahan”.  E o policial respondeu: “Homem desatinado, pois eu sonhei três vezes com uma casa no Cairo em cujo jardim havia uma fonte e, debaixo dela, um tesouro. Não dei crédito a tal bobagem, enquanto tu erraste pelo mundo em busca de um sonho. Toma estas moedas e vai-te embora, para que não passes o resto da vida em uma cela da Pérsia “. Desolado, o homem tomou as moedas e voltou a sua casa.

Lá descobriu que debaixo da fonte do seu jardim (que estava no sonho do outro)  havia um magnífico tesouro. A história foi contada por Sherazade ao sultão nas Mil e Uma Noites e  Borges a colocou na sua História Universal da Infâmia. Ao que parece, a mente humana não é capaz de mover objetos, tampouco de exportar sonhos, a não ser na literatura, mas aí tudo é permitido. Aliás, no meu livro, “Os 7 Vocábulos”,  que vai ser lançado no dia 9 de dezembro, uma quinta-feira, na Livraria Leitura do Shopping Salvador, o leitor vai encontrar uma casa que sonha, um cão que conspira e uma luta de morte entre um escritor e um autor. Mas isso eu conto no próximo artigo.

Publicado no jornal A Tarde em 12/11/2021

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