DA CELEBRIDADE – POR ARMANDO AVENA

DA CELEBRIDADE - POR ARMANDO AVENA

“Um nome famoso muito cedo é um peso bem pesado”, disse Voltaire, provavelmente mirando-se nele mesmo que se tornou célebre no seu tempo. Se era assim então, imagine agora que as redes sociais palmilham a vida de todas as celebridades. Gabriel García Márquez foi mais longe e disse, em entrevista para o Paris Review, que a fama era destrutiva para um escritor,  porque invadia sua vida particular e de tal modo que se desejasse continuar escrevendo ele teria de estar constantemente a se defender dela. E propõe uma alternativa, uma fama consentida, algo como: “tudo bem, eu só vou ser famoso amanhã”, ou então, “não vou ser famoso agora que estou com meus amigos”. Não sei se é bem assim, afinal é fácil desdenhar da fama quando já se é famoso, mas ela tem seus percalços.

No livro, A Imortalidade, Milan Kundera conta uma história de amor nunca concretizada entre Johann Wolfgang Goethe, que aos 62 anos já era uma celebridade, e Betina Von Arnim, que tinha vinte e poucos anos e, desde da adolescência, não parava de flertar com ele. Goethe e Betina, cuja mãe foi namorada do poeta, se viram poucas vezes, mas, ainda assim, ela não cansava de se declarar e escreveu centenas de cartas enaltecendo esse amor. Mais tarde, ela, que viria a ser escritora, vai tornar-se célebre, muito mais pela publicação dessas cartas e por sua relação com Goethe do que por seus escritos. Kundera sugere que Betina não estava atrás do amor, mas da imortalidade que Gothe lhe daria e lembra que ela teve também adoração por  Beethoven,  uma queda por Franz Liszt e era casada com o poeta Archim von Arnim.  Mas há quem diga que o amor em Betina era sempre maior do que o objeto do amor.

A  fama tem assim o condão de atrair o amor, mas também o interesse. Quando García Márquez vaticinou que a fama invadia a vida dos escritores, ainda não existiam as redes sociais que hoje invadem a vida não só dos artistas, mas de todo mundo. E no mundo moderno a vida pessoal das celebridades desperta muito mais interesse do que sua obra autoral, e de tal maneira que o candidato a famoso já nem precisa produzir alguma coisa para tornar-se célebre. Sua vida, suas roupas, seu temperamento, suas brigas são as  chaves que abrem as portas da fama. Não sei se Gothe achava que um dia a vida dos escritores despertaria mais interesse do que sua obra.

Mas Kundera o retrata em sonho, manipulando um teatro de marionetes, em uma representação do Fausto. O poeta move os bonecos, mas surpreende-se, pois, embora ouça os ruídos das pessoas, em sua frente a plateia está vazia, então, estupefato, percebe, ao voltar os olhos, que todos se encontravam atrás do palco e, só quando o veem, é que começam a aplaudir.  Gothe compreende então que eles não desejavam ver o Fausto, o espetáculo que eles queriam assistir era ele próprio.

Publicado no jornal A Tarde em 20/08/2021