JOSÉ MACIEL DOS SANTOS FILHO – FRUTEIRAS DE  CLIMA TEMPERADO: A TROPICALIZAÇÃO  E  O  NORDESTE

JOSÉ MACIEL DOS SANTOS FILHO - FRUTEIRAS DE  CLIMA TEMPERADO: A TROPICALIZAÇÃO  E  O  NORDESTE

Na última coluna , abordamos a chamada tropicalização do trigo ou seja, a pesquisa da EMBRAPA para a obtenção de variedades de trigo e outras tecnologias  que pudessem  adaptar essa cultura ao clima tropical, para viabilizar a rotação de cultivos com a soja ao longo do ano nos estados do Centro Oeste e na Bahia, contribuindo para diminuir a dependência de importações desse cereal estratégico para a segurança alimentar dos brasileiros.

A coluna de hoje nos remete aos esforços da pesquisa da EMBRAPA para “tropicalizar” algumas pautas da fruticultura de clima temperado e subtropical. em andamento em terras do semiárido do Nordeste (BA e PE) , visando diversificar o universo de lavouras dos perímetros irrigados e estabilizar a renda dos irrigantes, já que que as culturas dominantes desses perímetros , a uva e a manga, têm se defrontado com oscilações de preços , o que repercute na instabilidade da renda dos agricultores.

A fruteiras de clima temperado têm destaque na fruticultura brasileira, mas são, em boa medida, importadas, acarretando elevado dispêndio  de divisas. Os aludidos esforços envolvem trabalhos de melhoramento genético para a obtenção de variedades menos exigentes em horas de frio, pois muitas dessas espécies requerem de 400 a 800 horas de frio em seu ciclo anual (temperatura menor que 7 graus centígrados), requisito este dificilmente encontrado nas áreas do Nordeste e menos ainda no semiárido. Essas condições só são atendidas parcialmente, no caso da Bahia, em áreas de clima tropical de altitude, como Maracás (o maior produtor de flores e caqui no Estado), Itiruçu (também produtor de caqui), e municípios da Chapada Diamantina, como Piatã, Mucugê , Ibicoara e outros , com temperaturas mínimas no inverno de algo como 5 a 7 graus Celsius. No semiárido, outros caminhos e estratégias de pesquisa são escolhidos.

Esses pacotes tecnológicos têm possibilitado a obtenção de bons resultados , em termos de adaptação, produtividade por hectare e qualidade em lavouras , como pera, caqui, maçã, amoras e mirtilo, em pesquisas conduzidas pela EMBRAPA em parceria com a CODEVASF, nos campos experimentais da empresa de pesquisa e em campos de perímetros irrigados, no eixo Petrolina-Juazeiro. Na Bahia, já temos pequenas produções comerciais de caqui, morango, amoras e outras lavouras nas regiões de altitude mencionadas acima, mas em áreas do semiárido , só agora é que poderemos começar a constatar com a aplicação dos resultados dessas pesquisas.

Os resultados mais palpáveis já são observados nas culturas da pêra e do caqui. No caso da pêra, o produto produzido no vale do São Francisco já é  consumido no RS,  ES, BA, PE e RN. A fazenda Frutos do Sol , em Petrolina, embarcou recentemente para Farroupilha, RS, uma carga de 8 mil toneladas , e a aceitação do mercado tem sido amplamente satisfatória.  A área é ainda pequena , de cerca de 20  hectares, pois a pesquisa está em fase de validação, mas o interesse dos produtores é crescente. A produtividade , de 60 toneladas por hectare, em duas safras anuais, é quase 4 vezes maior que  a média nacional, que é de 16 toneladas por hectare. Há grande espaço de mercado , já que o  Brasil importa mais de 90 % do que consome.

No caso do caqui, as produções de campos experimentais, alcançaram quase 12 toneladas  por hectare nas primeiras safras e a estimativa é que se possa atingir até 35 toneladas por hectare em dez anos de plantio , muito acima da média do RS, grande produtor nacional, que oscila entre 9 e 19 toneladas por hectare, oscilação essa habitual nas lavouras do Sul . No semiárido, a produtividade é estável , pois com a irrigação não há problema de suprimento de água. Pode-se produzir todos os meses do ano, o que permitirá explorar as melhores ” janelas de mercado”, obtendo-se preços mais remuneradores.

Enfim , viabilizar o plantio de fruteiras de clima temperado em regiões tropicais de baixa altitude não é tarefa trivial. O grupo responsável por essa façanha é coordenado pelo pesquisador Paulo Roberto Lopes, da EMBRAPA SEMIÁRIDO, em parceria com técnicos da

CODEVASF.

(1) Consultor Legislativo e doutor em Economia pela USP. E-mail;

jose. macielsantos@hotmail.c om