ENTREVISTA RICARDO ALBAN- PRESIDENTE DA FIEB

ENTREVISTA RICARDO ALBAN- PRESIDENTE DA FIEB

Bahia Econômica – Qual a expectativa para indústria para o próximo
trimestre com a economia reaberta trabalhando de forma escalonada?

Ricardo Alban – Depois de um mês de fechamento do comércio e serviços, a restrição das atividades estava afetando também o setor industrial. A reabertura é a possibilidade, para muitas empresas, principalmente micro, pequenas e médias, de sobreviver. O Brasil vem acumulando uma série de incertezas econômicas, políticas e sociais. Acredito que, mesmo que a vacinação proporcione a superação da crise sanitária, a recuperação da economia este ano será bem limitada.

BE- O governo está prestes a aprovar o plano de redução de salários ejornada de trabalho. A medida vai ajudar o setor no primeiro semestre?

RA – O agravamento da crise sanitária justifica a recriação do programa, que poderá contribuir com a manutenção de postos de trabalho, mas o país precisa investir simultaneamente na redução agressiva do Custo Brasil. A magnitude e o alcance do auxílio emergencial, respeitadas as questões fiscais, obviamente são importantes e ajudamna retomada, mas, tendo em conta que a segunda onda do Covid-19 prejudica a economia como um todo, é fundamental incrementar o esforço da vacinação, inclusive com o apoio das empresas, de modo a sanar o mais rápido possível a crise da pandemia em nosso país.

BE- A Bahia tem batido recordes em desempregos segundo números do IBGE.A indústria sendo um dos segmentos que mais contratam tem algum projetopara voltar a contratar? Qual a expetativa?

RA – A geração de empregos seja do setor industrial ou não está associada à retomada do crescimento econômico. A Bahia tem enfrentado muita dificuldade em atrair investimentos industriais no período recente, com o esgotamento das políticas de incentivo fiscal. Como exceção a esse quadro de dificuldades, podemos citara implantação de parques de geração de energia eólica e solar; a retomada da Fafen pelo grupo Unigel, o reinício das operações da Salgema, em Maceió, permitindo um melhor desempenho da Braskem, a possível realização de investimentos na Refinaria Landulpho Alves por parte do fundo Mubadala, e, por fim,os investimentos em infraestrutura (FIOL, VLT, Ponte, etc.) e no setor da construção podem contribuir positivamente na geração de emprego. Por outro lado, a saída daFordteve umefeito negativo bastante significativo.

BE- Qual a sua expectativa para o índice de confiança da indústria no
primeiro semestre?

RA – A CNI faz o cálculo do Índice de Confiança do Empresário Industrial. Na passagem de fevereiro para março, o índice registrou uma forte queda, inferior somente ao observado em junho de 2018, logo após a paralisação dos caminhoneiros, e em abril de 2020, devido à pandemia. Eudiria que a expectativa do setor industrial é de que as medidas já em tramitação no Congresso Nacional avancem, assim como o entendimento entre as instâncias de poder, para que possamos caminhar. Precisamos, urgentemente, de uma identidade, que chamo de personalidade industrial.

BE- A indústria já tem sofrido com a saída da Ford?

RA – No dia 11/01/2021, a Ford anunciou o fechamento da fábrica de Camaçari, levando também ao possível encerramento das atividades das empresas “sistemistas”, que eram fornecedoras da planta. Ao todo, estima-se que sejam eliminados mais de 7 mil empregos diretos e um múltiplo de mais de 6,5 vezes desse valor em empregos indiretos.Fazendo um breve retrospectivo, aprodução de automóveis foi irregular já em 2020. Em março daquele ano, a Ford suspendeu a produção e deu férias coletivas, como resultado, a produção caiu praticamente a zero nos meses de abril e maio. Aos poucos a atividade foi voltando ao normal, alcançando em agosto de 2020 patamar praticamente igual ao anterior à crise. Na volta do recesso de fim de ano, em janeiro de 2021, a Ford anunciou o fechamento definitivo da fábrica. Como ela operou praticamente em níveis normais no primeiro bimestre de 2020, os dados da PIM-PF do IBGE (recém-publicados) mostram uma queda de 95,7% da produção no segmento de fabricação de veículos automotores, reboques e carrocerias neste primeiro bimestre de 2021, alcançando os menores níveis de produção desde quando a fábrica passou a operar na Bahia. Para a indústria com um todo, os impactos são significativos. Ainda de acordo com a PIM-PF, no primeiro bimestre deste ano, a produção física da Bahia apresenta queda de 18,7%, reflexo em parte do fechamento da Ford, mas causado em sua maior parte por redução da produção de refino, que acumula queda de 18,5% no ano, pois esse segmento representa quase um terço da indústria (o segmento de Produção de Veículos representava cerca de 5,4% do valor da produção industrial). No entanto, os impactos do fechamento da Ford vão além da indústria. Um estudo da FIEB estima que haverá um impacto de queda de cerca de 1,3% para o PIB, ou seja, vai frear o crescimento do PIB da Bahia nesse valor. No mesmo sentido, o fechamento da fábrica implicará na ausência de uma massa salarial da ordem de R$ 500 milhões por ano, o que traz impactos significativos para o comércio e toda a cadeia de serviços da Bahia.

BE- Como a venda da Refinaria Landulpho Alves pode interferir na
indústria da Bahia ?

RA – A Refinaria Landulpho Alves – Mataripe (RLAM) é a maior unidade industrial da Bahia e qualquer movimento dessa gigante trará impactos significativos para toda a economia, em especial para a indústria da Bahia.Estamos falando de um complexo de refino que ocupa uma área de 6,5 km² (equivalente a 1.000 campos de futebol), com 26 Unidades de Processos, 201 tanques de armazenamento e 18 esferas de armazenamento, organizados para a produção de 31 Produtos. A capacidade instalada de refino dessa megaestrutura é de 323 mil barris/dia, sendo a segunda maior refinaria do País, atrás somente da refinaria de Paulínia/SP.Toda essa estrutura responde por quase 30% do valor de transformação industrial da Bahia

Em termos econômicos, o faturamento chega à casa de dois dígitos de bilhões de reais por ano e há geração de impostos da ordem de R$ 5,264 bilhões (2020, cadeia do petróleo), com emprego direto de mais de 1.000 trabalhadores, com alto grau de qualificação e ganhos de salários acima da média da economia.

Acreditamos que os benefícios para a indústria e para a economia da Bahia serão positivos e perceptíveis ao longo do tempo. Como se sabe, a Petrobras ao longo dos últimos anos acumulou grandes dívidas e, como os investimentos para a área do pré-sal são vultosos e exigem da empresa quase toda a capacidade atual de geração de caixa, a área de refino ficou em segundo plano para a companhia. A RLAM, por exemplo, que em 2014 chegou a processar mais de 300 mil barris/dia (93% de sua capacidade) no ano passado processou apenas 248 mil barris/dia (76% de sua capacidade), portanto bem abaixo do desejável. Cada barril processado converte-se em mais impostos e mais renda para o estado.

Para a indústria, espera-se que refinaria otimize a produção em sua planta, retornando aos níveis já alcançados no passado recente. Ademais, há uma grande possibilidade na melhor utilização da logística, seja pelo terminal portuário, seja pelas outras infraestruturas, para alcançar um maior mercado regional que atualmente não é atingindo pela RLAM.Para o polo de Camaçari, o mais importante é o aumento da produção de nafta, que é o principal insumo para a produção da indústria petroquímica. Nesse caso, a maior disponibilidade desse insumo dependerá da negociação entre empresa que comprou a refinaria e as empresas do Polo, considerando que, por diversos motivos, atualmente a nafta petroquímica está sendo substituída pelo gás natural e pela importação direta.

Portanto, temos uma expectativa que esse mega conjunto industrial, de alta complexidade e moderno, continue sendo o grande motor da indústria da Bahia e possa ampliar ainda mais sua capacidade de produção.

Foto: divulgação