COLUNA JORNAL A TARDE – ARMANDO AVENA: 2020: O ANO QUE NÃO VAI TERMINAR

COLUNA JORNAL A TARDE - ARMANDO AVENA: 2020: O ANO QUE NÃO VAI TERMINAR

Os eventos podem redefinir o calendário gregoriano. Assim a queda do muro de Berlim fez o século XX terminar mais cedo, no dizer de Eric Hobsbawn, e o coronavírus vai fazer o ano de 2020 terminar mais tarde, em meados de 2021, quando, espera-se, a maior parte da população esteja vacinada.

Eventos assim mudam pessoas, mudam países. O Brasil, por exemplo, percebeu o quanto um presidente pode ser ruim para uma nação e como os políticos são capazes de colocar seus interesses mesquinhos acima de tudo, até da vacina.

Aliás, enquanto esperam 2021, os brasileiros deveriam estar avaliando o passado e refletindo sobre o futuro. Voltar os olhos para o passado será bom para ver o quanto de esperança esta nação colocou nas mãos dos políticos nos últimos 20 anos e o pouco que recebeu em troca. Esses anos registraram o mais deslavado processo de corrupção de que se tem notícia na história recente do país, e os políticos que diziam ser o “novo” usaram e abusaram da corrupção para se manter no poder. E dói ver muitos políticos e intelectuais justificando o descalabro: “Sempre foi assim no Brasil”, como se o ter sido fosse a senha para o continuar sendo.

Mas 2020 mostrou também o quanto foi equivocada a eleição de um presidente completamente despreparado para o exercício do poder, o quanto foi equivocada a opção automática e impensada pelo “anti”, que fez chegar ao poder um governo que não só convive com a corrupção no seio familiar, como jogou o país em uma aventura radical caracterizada por uma política externa irracional, que fez do Brasil um pária no mundo, por uma política de costumes retrógrada, que quer fazer o país voltar ao século XIX, e por uma política ambiental que está tirando o futuro dos nossos filhos.

E isso sem contar que o atual ocupante do Palácio do Planalto não se comove sequer com a morte de quase 200 mil brasileiros (“e daí?), tripudia com dor das famílias que estão perdendo seus entes queridos (“todos vão morrer um dia!”) e faz da indispensável vacina um instrumento de sua política mesquinha. E, como se não bastasse, em dois anos, o governo mergulhou o país no populismo econômico. Sim, porque na gestão Paulo Guedes nada do que foi prometido foi entregue.

Não se privatizou uma empresa sequer, o déficit fiscal e a dívida pública só fizeram aumentar, a inflação voltou com força, não se fez a reforma tributária ou administrativa e o ministro da Economia só pensa em aumentar impostos. Que nome dar, senão populismo econômico, a quem promete tudo e nada entrega? Afora o auxílio emergencial que, frente a pandemia, seria implantado por qualquer presidente, Bolsonaro tem muito pouco a apresentar na economia. E o pior é que o populismo não é só econômico, é acima de tudo político, pois o presidente que jurou não compactuar com os políticos está de mãos dadas com o Centrão, o grupo de parlamentares cujo lema é o “toma lá, da cá”.

Por isso a população brasileira precisa estar atenta, pois em meados de 2021, mal 2020 tenha acabado após a disseminação da vacina, o país estará novamente envolto na polarização daqueles que tentarão fazer você, leitor, escolher novamente entre o ruim e o pior. Mas o povo brasileiro não vai esquecer a corrupção de antes, nem o descalabro de agora e, lembrando do passado, e das agruras por que passou em 2020, não vai cometer os mesmos erros no futuro.

FELIZ NATAL

Eu sei, Vinicius, “não há muito o que dizer, uma canção sobre um berço, um verso, talvez, de amor, uma prece por quem se vai”.

Sim, para isso fomos feitos, mas, como me lembra Pessoa, “nos lares aconchegados, um sentimento conserva, os sentimentos passados” e é Natal.  Por isso, parodiando Drummond, desejo a você… um Natal cheio de alegria e paz, um janeiro com vacina e um 2021 que pode ser igual a todos os outros anos, mas diferente de 2020.

E é com os versos dos poetas que essa coluna faz um pequeno recesso, prometendo estar de volta na segunda semana de janeiro e desejando a todos um Feliz Natal e um Ano Novo cheio de esperança, mas fiquem em casa e se protejam.

Foto: Divulgação