ENTREVISTA: GOVERNADOR RUI COSTA

ENTREVISTA: GOVERNADOR RUI COSTA

ENTREVISTA: RUI COSTA*

P: Os novos ataques do presidente Jair Bolsonaro à imprensa mostram que a fase calma dele acabou?

R: Eu não deposito expectativa num padrão civilizatório do presidente. O padrão dele é estimular a agressão, o ódio e as ofensas a todos.

P: Como o senhor vê a melhora de popularidade do presidente no Nordeste?

R: Aqui na Bahia não há, por enquanto, uma percepção dessa melhora. O eventual sentimento que pode ter ocorrido é em função do socorro em momento de desespero, em que muitas pessoas correm o risco de ficar sem o básico para a alimentação. Mas acho que isso não se sustenta, por conta de absoluta ausência de projeto para o país.

P: O Renda Brasil pode ser uma alavanca para Bolsonaro em 2022?

R: O que se vai fazer em 2022 é a comparação de projeto, de governo, de nação, de país. Nossa situação encaixa bem no debate que eu tenho visto nos Estados Unidos. A afirmação dos democratas para o Estados Unidos vale para o Brasil. O que estará em jogo não é apenas a eleição de nomes, pessoas, é o futuro da democracia. Qual é a nação que nós queremos sob vários aspectos. E nesse debate de conteúdo, de mérito, acho que ele (Bolsonaro) não se sustenta. Não tenho qualquer receio disso (reeleição do presidente).

P: Essa bandeira de ameaça à democracia deveria ser empunhada por diferentes forças em 2022?

R: Todos têm que colocar a sua vaidade pessoal, sua vaidade partidária, um degrau abaixo do interesse da nação, do Brasil. Acho que todos devem se unir. No estilo da eleição americana, temos que demonstrar quanto está sendo ruim, quanto será desastroso para o Brasil se nós não mudarmos o rumo do país.

P: Essa união resultaria numa candidatura única já no primeiro turno?

R: Se a gente começar esse debate por nomes, a gente já começa pela divergência. Não temos que começar pelo mais difícil. Mingau quente, a gente come pelas beiradas. Passadas as eleições deste ano e o pico da pandemia, nós temos que nos debruçar para construir um programa de governo. Não adianta ter nomes e não ter conteúdo. Nós venceremos pelo conteúdo e não pela bravata. Durante o ano de 2021, o conjunto de partidos de diferentes cores, do centro à esquerda, deve se reunir, e quando se aproximar da eleição a gente entra no debate de perfis, de nomes, de condições de vitória, de análise disso. E afunilar se não construir exatamente uma, podemos ter duas candidaturas ou três.

P: Mas isso une quem? Centro? Centro-direita?

R: Eu diria que todo mundo que não tiver corroborando com esse governo, com seus atos de truculência. Vou dar um exemplo do Fórum de Governadores. Temos um fórum que tem funcionado com uma diversidade partidária muito grande e temos conseguido, nas definições principais, ampla maioria. Nesse conceito, é que devemos dialogar com todo mundo. Quais os principais valores? Em primeiro, é respeito à imprensa, respeito à democracia. Um país em que as instituições jurídicas e legais funcionem desemparelhadas de quem estiver sentado na cadeira de presidente. Estrutura jurídica a serviço do presidente é ditadura, não é democracia. O país tem que ter imagem internacional, tem que valorizar a questão do meio ambiente. Do contrário não vamos alavancar  investimentos, não vamos crescer. Há um conjunto de pilares. Se as pessoas concordarem com esses pilares devem estar incluídas na conversa, sem nenhum preconceito. Se esses valores podem ser relativizados, essas forças políticas não participariam desse debate. Não sou defensor também de ficar olhando pelo retrovisor, de ficar lambendo as feridas. Não adianta olhar no passado quem fez isso ou fez aquilo. Estamos querendo construir o futuro  e saber quem vai estar junto defendendo esses pilares centrais da democracia.

P: Agora, dentro do PT há um pensamento diferente.  É difícil para direção do partido se sentar com quem defende reforma da Previdência ou outras reformas econômicas liberais.

R: Tem diferentes opiniões dentro do PT ou dentro da esquerda. Mesmo sobre reforma da Previdência há diferenças grandes. Eu diria que o pilar central a afirmar é a busca da justiça social. Nós, os governadores do Nordeste que são filiados ao PT, defendemos que a reforma  (da Previdência no ano passado) não alcançasse os mais pobres. Mas dizíamos que não se pode reafirmar privilégios ou condições insustentáveis que a sociedade tem que pagar. Por isso, é necessária uma aproximação dos direitos previdenciários públicos dos da maioria da população. Havia um distanciamento gigantesco. Os governos de Lula e Dilma deram passos para a diminuição dessas diferenças. O problema é que no Brasil há algumas décadas quem está no governo passa a defender determinados temas  e quando vai para a oposição deixa de defender. Acontecem coisas inusitadas. Às vezes, o mesmo partido está contra determinado tema no plano federal e está a favor no plano estadual.

P: Aconteceu isso na reforma da Previdência no ano passado.

R: Em vários temas acontece isso e fica algo absurdo.  A questão de privatização entendo que o que interessa, e tenho defendido isso dentro do PT, é a prestação de serviço público para a população.Uma pessoa muito pobre quando vai ao hospital não quer saber a forma como aquele médico foi contratado. Ela quer o serviço gratuito, universal e de absoluta qualidade. Eu tenho hospitais aqui em parceria público privada (PPP), que tem 90% de aprovação. O modelo tradicional de atendimento se mostrou falido.  Haveria diferença essencial dentro do PT se tivesse alguém defendendo que a saúde fosse privada e não pública.  Fazer reforma administrativa neste país é necessário. Não para precarizar relações. O Brasil muitas vezes quer inventar a roda. Em vez de inventar modelos, talvez a melhor solução fosse olhar para o exterior, exemplos bem sucedidos. Esse modelo em que servidor recebe o mesmo valor no final do mês, independentemente do que produz,  não é mais sustentável, tem alta taxa de atestados médicos.

P: O senhor acha que caberia numa mesma chapa em 2022 DEM, PSDB, PT e PSB por exemplo?

R: Nós vamos chamar. Quantos temas nós já chegamos e já discutimos com o (João) Doria (PSDB), com o Eduardo Leite (PSDB), do Rio Grande Sul . Não tenho nenhum problema em sentar com eles e conversar sobre pilares necessários à nação brasileira, o futuro deste país. Democracia, transformação política e social você só faz com diálogo e com entendimento de conteúdo, de projeto. Se não você vai ficar eternamente refém de bancadas do “toma lá da cá”. Como hoje o governo federal, está fazendo. Criticava tanto e está fazendo. Não vejo nenhum problema em sentar com Doria, com Eduardo Leite. No futuro, é possível construir um só nome? Não é possível, então vamos de dois, vamos de três com o compromisso de quem tiver o maior reconhecimento popular e comporá uma coalizão para governar. E se não for possível no primeiro, que se faça (aliança) envolvendo eventualmente no segundo turno. Defendo esse diálogo. Acho que isso é algo didático que a população vai atender e nós vamos mostrar coesão, unidade.

P: O senhor defende aliança nacional, mas em Salvador a candidata do PT que o senhor lançou, a Major Denice, está isolada. São cinco candidatos dentro da base.

R: É natural, a gente não pode sair castrando.Abrimos a possibilidade de todo mundo se colocar e depois vamos sentar em olhar os números. Vamos afunilar. Vamos ter mais de um candidato da base, mas o número de candidatos será reduzido até a convenção (prazo final é 16 de setembro).

P: A declaração de Lula de que o PT pode não ter candidato corrobora seu pensamento?

R: Acho que a declaração do Lula está sintonizada com isso que estou dizendo. Como vai sentar para conversar, se já diz logo de cara que não apoia ninguém. Então é uma excelente sinalização e meus parabéns ao presidente Lula.

P: Se a esquerda optar pelo isolamento, qual o risco que ela corre?

R: Acho que se optarmos pelo isolamento, vamos aprofundar o pior para este país, correndo o risco inclusive da ambiência democrática. Aí não sei dizer o que será futuro do país.

P: A corrupção ainda não é danosa para a imagem do PT?

R: Acho que houve uma massificação como se a corrupção tivesse sido inventada, criada nos governos do PT, a história da humanidade, em várias nações do mundo, foi permeada pela corrupção. Somente quem imagina que a terra é plana vai acreditar que foi o PT quem inventou a corrupção. Isso é massificação que se fez para se ganhar a eleição.

P: O senhor vai conseguir segurar a sua vaidade e não se colocará como pré-candidato a presidente em 2022?

R: Alguém com a minha história de vida não se declara candidato. Quem faz isso perdeu o controle da sua vaidade. Cada um de nós pode dar muita contribuição e, eventualmente, discutir lá na frente quais são os nomes possíveis de conduzir essa aliança. Pretendo manter meus pés no chão.

P: Se o PT decidir ter um candidato, o Fernando Haddad é o nome natural?

R: Que é o nome natural é. Nome natural é o que já tem algum acúmulo. É um grande quadro político. Mas repito que acho essencial neste momento não  fazer o debate de nomes. Se os partidos começarem o debate pelos nomes, não vamos a lugar nenhum.

*Publicada originalmente no jornal O Globo