ENTREVISTA RENATA PROSERPIO – DIRETORA DA ABIH-BA

ENTREVISTA RENATA PROSERPIO - DIRETORA DA ABIH-BA

Por: João Paulo Almeida 

Bahia Econômica- O setor do turismo foi um dos que mais sofreram e sofrem com o isolamento social. Como à senhora vê a possibilidade do isolamento social se estender até agosto?

Renata Proserpio – Do ponto de vista do negócio a prorrogação da pandemia continuará tendo efeitos dramáticos. Mas muitos empresários entendemos as medidas e cuidados que vem sendo adotados pois com a vida humana não se brinca e ainda são maiores as incertezas do que as certezas em relação aos efeitos desse covid sobre a saúde das pessoas. Muitos empresários entendemos ser positiva a ação responsável e unificada entre Prefeitura e Governo do Estado focando a saúde das pessoas. E torcemos para q possamos voltar com segurança o mais rápido possível

BE- E o fato de alguns hotéis anunciarem que só volta ano que vem?

RP – Eu vejo com naturalidade essa decisão. Nós temos em Salvador a terceira maior rede hoteleira do Brasil, com hotéis de diferentes portes e todos estão sofrendo com a pandemia de forma dramática e as características para enfrentar essa crise não são as mesmas em toda a rede, pois são hotéis de diferentes portes que atuam no cenário da capital. O meu o Mar Brasil Hotel nunca fechou as portas. Nós estamos apenas trabalhando para um público completamente diferente daquele que estávamos acostumados. Agora recebemos médicos que não querem voltar para suas casas, recebemos profissionais da indústria farmacêutica que trabalham no polo, pessoas que não aguentam a quarentena e querem se divertir um pouco, e nesse cenário nós temos mais hotéis em Salvador como o Quality que recebe tripulantes de avião também. Nós também vamos ter alguns hotéis abertos em julho, pois aumentaram o número de voos então os empresários já estão preparados para esse momento e pensam em reabrir. Mesmo sabendo que as taxas de ocupação estão muito baixas chegando a 15% de média na capital. O ponto de equilíbrio médio que nós temos é de 30 a 40% em junho devemos ter em média 19% de ocupação, então aqueles hotéis que vão reabrir vão sabendo que terão prejuízo. Mas o prejuízo de fechar as portas é muito maior, pois os custos não somem.

BE – O governo criou um selo sanitário para viabilizar a regularização dos hotéis na capital. Como você avalia esse processo?

RP – Nós estamos investindo muito nesse selo sanitário. A ABIH- BA está fazendo uma parceria com uma certificadora internacional que permitirá uma certificação de alto nível, algumas redes já tem uma certificação própria também e todos nós estamos usando vários desses selos. A prefeitura também procurou a ABIH para isso e nós estamos elaborando um selo de qualidade junto a ABNT. Todos os hotéis estão tomando essas medidas de higiene como “epis”, medidas online, etc. Nós estamos assim fazendo o possível para que dentro da segurança os hotéis continuem a funcionar.

BE- Qual balanço a ABIH espera para setor hoteleiro na Bahia em 2020?

RP – O balanço da hotelaria para 2020 é dramático. Iniciamos os dois primeiros meses com números motivadores, que mostrariam que os hotéis teriam um 2020 muito promissor, tínhamos a expectativa do centro de convenções levantando esse número, o novo aeroporto atraindo novos voos, mas veio à pandemia em meados de marços e segundo a pesquisa mensal realizada pela ABIH-ba os números são dramáticos. Tivemos uma ocupação 15% no mês passado, esse mês de junho deve ser um pouco melhor, mas uma diária média estacionada em 200 que é o mínimo que a hotelaria tem a oferecer para sobreviver, com poucos hotéis abertos. Até o final de 2020 nós ficaremos com essas taxas próximas aos 15% variando até 20% e a diária média nesse patamar também, então isso mostra uma situação dramática para a rede hoteleira.

BE – A possibilidade de algumas empresas migrarem suas cotas de publicidade do réveillon para eventos online devido à pandemia pode atrapalhar o setor hoteleiro na Bahia?

RP – O setor hoteleiro não tem muita ligação com essas cotas. O que pode acontecer de fato é as festas de final de ano na capital ficarem sem o nível de ocupação desejado, ai os hotéis também não conseguirem receber o número de turistas desejado para uma estação como o verão, que é nosso pico aqui na capital. O mesmo eu digo para o carnaval. Se o réveillon não acontecer e o carnaval não acontecer isso sim terá um fator muito ruim para hotelaria na capital. Esses meses são os meses que a hotelaria faz o caixa para resistir o resto do ano. Mesmo ocorrendo esses eventos se a questão da saúde não estiver resolvida nós também poderemos ter um prejuízo nesse momento.

BE- O turismo sempre foi um dos que mais empregam na Bahia e no Brasil. Na sua opinião qual será o principal impacto do isolamento social para geração de empregos e demissões no turismo no período pós pandemia?

RP- O turismo tem uma importância fundamental em toda Bahia na questão de empregos. Um hotel de pequeno porte hoje emprega no mínimo 20 pessoas então nós temos agora um momento muito delicado para qualquer empresário do ramo. Todos os hotéis que fecharam as portas tiveram que de alguma forma corta mão de obra, pois se não tinha como pagar as contas. Esse é o ponto em questão. Salvador tem um papel importante para o turismo e o principal gasto do hotel com certeza é com mão de obra.

BE- Como o senhor avalia as medidas do governo federal como liberação de crédito e isenção de pagamentos como forma de sustentar o turismo nesse período de portas fechadas?

RP- Eu avalio como muito tímidas essas ações do governo federal. Eles apenas prorrogaram por dois meses questão de FGTS e INSS e prorrogação não é cancelamento. Daqui a dois meses os hotéis continuam com dificuldades e ai? Então eu acho que foi muito tímida ação do governo. Outro ponto é a questão do empréstimo. Nós avaliamos que os empréstimos com a Selic muito baixa ainda não dá um patamar de como vai ficar os preços das coisas. É muito incerto e as instituições que fornecem esses empréstimos mantiveram os juros de mercado e isso é uma coisa muito difícil de lidar nesse momento.

Foto: divulgação