RODRIGO GALLO PROFESSOR RODRIGO DO CURSO DE ADMINISTRAÇÃO DO INSTITUTO MAUÁ DE TECNOLOGIA

RODRIGO GALLO PROFESSOR RODRIGO DO CURSO DE ADMINISTRAÇÃO DO INSTITUTO MAUÁ DE TECNOLOGIA

Bahia Econômica –  Como a situação política atual da Bolívia pode interferir no Brasil ?

Rodrigo Gallo – A queda do presidente Evo Morales pode afetar gravemente o Brasil, primeiro porque são dois parceiros comerciais em áreas diversas, como petróleo e gás, e segundo porque, como potência regional, o Brasil pode ser demandado a se posicionar – e nossa diplomacia tem enfrentado certos problemas para responder aos questionamentos do sistema internacional. Também existem incógnitas. Uma senadora assumiu como presidente, sem necessariamente a legitimidade do Congresso. A questão é: teremos novas eleições? Se sim, quando? O partido de Morales poderá participar? Ele próprio poderá disputar as eleições? São muitas questões que suscitam dúvidas, causadas pelo vácuo de poder. Nem mesmo sabemos se há condições de segurança para a realização das novas eleições. Logo, o cenário é de muita insegurança, e tudo isso pode afetar o Brasil, assim como outros países com quem os bolivianos têm negócios.

BE- Quais as consequências que a saída de Evo Morales pode trazer para o Brasil ?

RG – Creio que, imediatamente falando, o saída de Morales, somada aos confrontos violentos que ocorrem nas principais cidades, pode desencadear uma onda imigratória com destino ao Brasil. Já existe uma população de bolivianos em cidades como São Paulo. Muitos mais podem chegar caso a situação não seja resolvida de forma rápida na Bolívia. Os imigrantes em si não são um problema, o problema é a condição de chegada desses indivíduos, já que nossas políticas públicas de inserção de estrangeiros na sociedade são muito deficientes. É um quadro social complexo.

BE- Economicamente falando, existe algum setor produtivo no Brasil que pode sofrer com a crise ?

RG – Fala-se muito nos setores de petróleo e gás, dois dos mais importantes para a economia entre os dois países. Porém, há outros. Se observarmos que diversos países sul americanos passam por cenários de crise, como Equador, Chile e a própria Bolívia, podemos imaginar que o setor de turismo para o continente deverá sofrer retração. Além disso, há um fluxo comercial entre os dois países. Os conflitos nas ruas fecham o comércio, o que impede as pessoas de consumir – bem como a própria situação econômica da Bolívia. Assim, produtos brasileiros importados para lá são menos vendidos, o que impacta no processo produtivo. No limite, pode haver redução da produção industrial.

BE- O segmento de petróleo e gás brasileiro pode ser afetado com a crise?

RG – Sim, caso a situação se agrave, poderemos ver um quadro complicado para toda a estrutura de petróleo e gás no Brasil. Há um acordo entre a Petrobrás e uma empresa boliviana, a YPFB, que prevê a distribuição de gás natural para o Brasil, por meio de um extenso gasoduto. As importações podem ser impactadas. O Brasil vinha tentando reduzir a dependência do gás boliviano, o que pode minimizar ou adiar o impacto do problema. Mesmo assim, a oferta de gás pode sofrer redução.

BE- Qual a expectativa para a relação econômica entre Brasil e Bolívia com a saída de Evo?

RG – O governo brasileiro, por questões ideológicas, vem reafirmando nosso reconhecimento da senadora Jeanine Anez como presidente da Bolívia. Trata-se, portanto, de uma tentativa de aproximar nossa política mais conservadora, com um governo menos progressista no país vizinho. Isso pode sugerir que nossas relações econômicas podem melhorar. No entanto, a despeito das questões ideológicas, os Estados normalmente são administrados de modo a buscar a satisfação dos objetivos pragmáticos e das necessidades do país. Logo, mesmo que Morales continuasse no poder, hipoteticamente nosso Ministério das Relações Exteriores deveria se preocupar não com o alinhamento ideológico, mas sim com as questões comerciais. Então, acredito que as relações econômicas não sofrerão grandes abalos e nem passarão por um redesenho nesse momento conturbado. Ambos os Estados tentarão, mesmo diante das adversidades relacionadas à situação, manter as relações diplomáticas e econômicas em operação.

BE- O Mercosul pode ser afetado pela crise na Bolívia?

RG – Sim. Todos os Estados do Mercosul negociam com a Bolívia, em especial Brasil e Argentina. Qualquer problema no país vizinho, que eventualmente resulte na queda do fluxo comercial ou na importação de gás natural, pode resultar em problemas econômicos para os países do bloco. Logo, a resolução da crise deflagrada na Bolívia é urgente para todos – principalmente porque a Bolívia é o Estado que mais cresce economicamente na região.

Foto: divulgação