ARMANDO AVENA: O RESSURGIMENTO DO CACAU

ARMANDO AVENA: O RESSURGIMENTO DO CACAU

A produção e exportação de cacau, que por muito tem foi a base da economia baiana, está ressurgindo e, por conta de uma pesquisa inovadora, pode tornar-se novamente um dos principais produtos da nossa pauta de exportação. O cacau sempre foi o símbolo da economia baiana e até meados do século passado os investimentos, a ação do governo estadual e até  o pagamento do funcionalismo público dependia da safra de cacau. Mesmo com a implantação da Petrobras e o início do processo de industrialização, a produção cacaueira manteve-se dinâmica e em 1970 foi responsável por 60% das exportações baianas. A produção de cacau quase chegou as 400 mil toneladas anuais, gerando uma receita cambial de quase 1 bilhão de dólares e, por conta disso, o Brasil liderava a produção mundial.

O cacau fazia milionários, era palco da bela literatura de Jorge Amado e tinha no eixo Ilhéus e Itabuna um contraponto à riqueza e a cultura de Salvador. Tudo isso acabou em meados dos anos 90 com a praga da Vassoura de Bruxa, que fez a produção desabar e cair a menos da metade. O cacau, que liderava a pauta de exportações da Bahia, viu a receita cambial com o produto despencar e o Brasil, que representava cerca de 30% da produção mundial, hoje participa com menos de 5%. O desemprego e a falta de perspectiva econômica desencadearam uma crise de grandes proporções  na região Sul do estado, crise que permanece até hoje, e a maior região exportadora de cacau do país tornou-se importadora do produto. A região jamais se recuperou, mas a partir do ano 2000 houve a introdução de mudas resistentes à praga e técnicas de clonagem e a produção de cacau “cabruca” reagiu ligeiramente, num patamar três vezes menor que o verificado no início dos anos 90.

Em 2018, a produção baiana de cacau foi cerca de 125 mil toneladas, gerando uma receita cambial de 200 milhões de dólares, cinco vezes menos do que no auge da colheita. A técnicas para o manejo do cacau e para convivência são fundamentais e devem ser mantidas, mas o que vai tornar a produção novamente competitiva é a pesquisa levada a cabo por um baiano que descobriu com sua equipe o complexo mecanismo de ataque do fungo e drogas que podem eliminar a Vassoura de Bruxa. A equipe do pesquisador Gonçalo Amarante Guimarães, professor titular do Instituto de Biologia da Unicamp, estudou o fungo da Vassoura de Bruxa, descobriu que seu funcionamento é baseado num inibidor da enzima oxidase alternativa e a pesquisa foi publicada em revista internacional. A novidade é que agora a equipe desenvolveu e testou uma molécula fungicida capaz de combater o fungo. A molécula se mostrou eficiente, mas é preciso que empresas interessadas ou mesmo o governo disponibilize recursos para que o experimento saia do método experimental e torne-se um fármaco com produção em escala industrial. O professor Amarante é um entusiasta do projeto, tanto que comprou uma fazenda de cacau no Sul da Bahia, e afirma que é indispensável o plantio sustentável no sistema “cacau-cabruca”, mas que a introdução de fungicidas seria capaz de no curto prazo recuperar a produtividade dos cacaueiros. Se isso acontecer, será o ressurgimento do cacau e do dinamismo econômico da região Sul da Bahia.

                                                     O CACAU E O PIB

Se for encontrado um fungicida para o cacau, a produção poderá voltar rapidamente às 300 mil toneladas ou mais, pois a área plantada ainda é grande. Se isso acontecer, o cacau se tornará em poucos anos o 4º maior produto de exportação da Bahia e 50 mil pessoas ou mais serão reabsorvidas pela cultura que é fortemente absorvedora de mão-de-obra. O impacto no PIB pode chegar a 0.5% ou mais. Será que ninguém nas secretarias de Agricultura e Planejamento percebeu isso?

                                       RECEITAS DO GOVERNO E PREFEITURA

O governo do Estado e a Prefeitura de Salvador não tem do que se queixar, pelo menos do lado da receita. A arrecadação de ICMS no Estado atingiu R$ 5,8 bilhões no 1º trimestre de 2019, um crescimento de quase 10% em relação ao ano passado. As transferências do FPE – Fundo de Participação dos Estados atingiram R$ 2,6 bilhões, um aumento de 9,5% em relação ao mesmo período do ano passado. Já na Prefeitura de Salvador, a arrecadação do Imposto Sobre Serviços cresceu mais de 20% no 1º quadrimestre, e a arrecadação de IPTU elevou-se em 11%. As transferências do FPM – Fundo de Participação dos Municípios cresceram 9%. Em suma: a recuperação da economia, ainda que lenta, está aumentando a arrecadação de impostos. Os dados são do portal de transparência da prefeitura, do IAF e da Receita Federal.

                                             A PONTE E OS CHINESES

Essa coluna sempre ficou com um pé atrás em relação a viabilidade econômica/financeira da ponte Salvador/Itaparica. Mas não há dúvida que a disposição do governo de colocar R$ 1.6 bilhão no projeto deu mais envergadura a engenharia financeira da obra. Mas, ainda assim, ficou pendente a questão da taxa de retorno, já que o pedágio é incapaz de propiciar rentabilidade ao empreendimento. Agora, no retorno da viagem que fez a China, onde se reuniu com investidores,  o governador Rui Costa verbalizou o que essa coluna vem afirmando:

“Nós precisamos entender o seguinte. Existe uma previsão de movimentação de carros na ponte nos primeiros anos de funcionamento. Essa movimentação tem que pagar a conta para o chinês. Caso não pague, eles querem uma garantia de subsídio do estado”, disse o governador. Ou seja: não existe viabilidade econômica para a construção e concessão da ponte Salvador/Itaparica sem que o governo do Estado coloque anualmente subsídios para viabilizar o lucro das empresas chinesas nos primeiros anos de operação. Simples assim.

                                                OS CHINESES VEM AÍ

Mas se o investimento dos chineses na ponte ainda parece um sonho de uma noite de verão, nas outras áreas a intenção de investimento é concreta. Esta semana o governador Rui Costa assinou o termo de unificação dos terminais privado e público do Porto Sul. E empresas chinesas e a Bahia Mineração (Bamin), que vai explorar o minério de ferro de Caitité,  anunciaram a criação de  um consórcio para dar início a construção do  porto no segundo semestre deste ano. Por outro lado, empresas chinesas devem participar do leilão de concessão da Fiol – Ferrovia Oeste-Leste e o governador manteve contatos na China com a Easteel, empresa que manifestou interesse em investir cerca de R$ 7 bilhões para implantar uma usina siderúrgica, uma fábrica de cimento, além de investimentos no porto de Aratu. Também houve contatos  com a empresa chinesa CGN Energy International Holdings que anunciou interesse em investir R$ 1 bilhão em energia solar e eólica. Embora sejam apenas intenções de investimento, demonstram que os chineses estão de olho na Bahia. E estão de olho grande, pois estão comprando terras na Região Oeste e implantando empresas para beneficiamento da soja e outros produtos. A região de Ilhéus e Itabuna também está no radar chinês. A China vê o Brasil como área de expansão econômica e a Bahia é uma principais portas de entrada.