Os vilões dessas alergias em bebês são as proteínas novas, com as quais eles não estão acostumados. Entre os inimigos, o maior deles é o leite de vaca, responsável pela maioria das reações alérgicas – a tão conhecida APLV, a alergia à proteína do leite de vaca –, seguido pelo ovo, castanhas e soja. Segundo um estudo publicado em 2018 pelo Colégio Americano de Alergia, Asma e Imunologia (Acaai), o leite de vaca é o alérgeno alimentar mais comum em menores de 5 anos.
Não se sabe o que torna esses alimentos mais propícios a causar reações do que os outros. Mas há pistas: “O crescimento recente se deve, entre outras razões, ao fato de que estamos fazendo uma dieta com menos itens naturais e mais itens industrializados. Isso muda a flora intestinal, o que afeta o sistema imunológico”, diz Pastorino.
Neste tipo de alergia, até o parto pode influenciar. Um levantamento da Universidade de Örebro, na Suécia, indicou um risco 21% maior de o bebê desenvolver alergias alimentares ao nascer de cesárea. A explicação estaria na falta de contato com a flora microbiana do canal vaginal da mãe – que acontece em partos normais –, o que levaria a uma maior propensão a esse tipo de alergia.
Parte dessa reação exagerada do corpo a alimentos está relacionada à presença de uma forma ativa da imunoglobulina E, a IgE, um anticorpo que atua na defesa do corpo. Ele provoca a liberação de substâncias que, na tentativa de combater (supostos) inimigos, causam os sintomas alérgicos. Quando é uma reação intermediada pelo anticorpo IgE (ele próprio reage à comida), os sintomas se manifestam logo após a ingestão na forma de inchaços, urticária, vômitos e diarreias. Já em uma alergia alimentar não mediada pela IgE, desencadeada por células, sem o envolvimento de anticorpos, os sintomas aparecem horas ou dias depois. Fatores genéticos estão diretamente envolvidos na produção da IgE.
Mas nem sempre uma resposta negativa à primeira exposição significa que a criança continuará tendo problemas. Às vezes, ocorre a “falsa alergia”, um diagnóstico apressado dos pais. “Se houver uma reação leve, que se limita à vermelhidão ou coceira na pele, o ideal é aguardar uma semana, dar o alimento de novo e observar a evolução. Muitos pais ficam assustados e não repetem a experiência”, revela Pastorino.
No caso de Malu, criança de 5 anos com alergia alimentar múltipla, o principal tratamento foi a dieta de exclusão: suspender qualquer traço de uma comida e, após alguns meses ou anos, reintroduzi-la lentamente até acostumar o sistema imunológico. Aos poucos, o corpo da menina foi tolerando e aceitando novos alimentos. Casos com final feliz também acontecem. Ramiro Senderowicz Flores, hoje com 4 anos, sofreu quando começou com as primeiras frutas e papinhas. “Ele reagia a quase tudo”, lembra a mãe, a jornalista Marianna Senderowicz, 38. Mas, aos poucos, voltou a comer de tudo. “Não dá para desistir”, diz a mãe.
Vale lembrar que, por se manifestarem mais rapidamente, com mais intensidade e risco de choque anafilático, as alergias alimentares exigem intervenção imediata com adrenalina autoinjetável, aplicada em ambiente hospitalar e, se necessário, antialérgico ou outras medicações. É importante procurar o pronto-socorro tão logo os sintomas como vermelhidão, coceira, inchaço na boca, língua e olhos comecem.