ARTIGO DE NATAL: O PROFETA DAS MULHERES POR ARMANDO AVENA

ARTIGO DE NATAL: O PROFETA DAS MULHERES POR ARMANDO AVENA

Houve um tempo em que Deus era mulher. Era o início de tudo e o divino era representado pela  Grande Deusa Mãe, identificada com a Terra Mãe, origem da fertilidade. O homem ajoelhava-se frente ao mistério da concepção e, ignorante do seu papel na fecundação, via algo divino na fêmea que enformava no ventre um ser humano em miniatura e deixava sair de suas entranhas um pequeno homem ou uma pequena mulher. Durante milênios as mulheres eram veneradas como deusas, ainda que o poder estivesse nas mãos dos homens, e por volta de 4000 A.C. o culto da Deusa Mãe ainda predominava em Creta, o berço ocidental do divino feminino. No entanto, a divindade feminina e o louvor a fertilidade irá aos poucos desaparecer e o homem, no período que se estende de 4000 A.C. até 50 A.C., vai  gradualmente impor o seu poder que se exacerbará na chamada Idade dos Metais. É então que Deus torna-se homem e transforma-se em Zeus, Júpiter ou Jeová.

A religião masculina domina a Grécia, berço da civilização, mas o paganismo não retira o prestígio e o poder das mulheres. Zeus, o Deus do Trovão, convive em harmonia com deusas poderosas e Palas Atena, Hera, Afrodite e tantas outras se envolvem nas querelas dos homens e ostentam o mesmo poder dos deuses machos. A literatura grega de então louva o herói masculino de armas na mão, mas realça o papel das mulheres. Na Ilíada, o poema épico escrito por Homero no século IX A.C., a mulher é descrita com um olhar majestoso. A guerra de Tróia tem como principal protagonista uma mulher, Helena, esposa do rei Menelau, de Esparta, que apaixona-se pelo o troiano Páris e é por ele raptada. Desafiados, os gregos singram os mares em suas naves côncavas e durante dez anos lutam contra os troianos para assim trazer de volta Helena. Mas essa guerra heroica não é travada apenas pelos homens, pois as deusas descem do Olimpo para ajudar os guerreiros e Atena junta-se a Hera para dar a vitória aos acaios que destroem Tróia e trazem Helena de volta à Grécia. Vencida a guerra, que destino terá Helena, a quem Afrodite fez cair de amores por um troiano? Será condenada como adúltera e morta na terra onde se corrompeu? Não, a violência contra a mulher não tem lugar na literatura grega e na Odisseia encontramos Helena, após a guerra, reinando sobranceira ao lado do seu marido Menelau, Rei de Esparta.

Mas pouco depois de Homero ter escrito a Ilíada, a tradição oral de um povo monoteísta começa a ser disseminada para com o tempo transformar-se na Torá, o livro hebraico, também conhecido como o Pentateuco, que é a base da religião judaica. O Pentateuco composto de 5 livros – Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio – estabelece uma outra tradição, marcada pela misoginia e pela tentativa de submeter e desmerecer a mulher, seja na literatura ou na na vida. E, assim, o Gênesis, que conta a invenção do mundo, vai subverter a ordem natural criada pelo próprio Deus e que fez da mulher a origem da vida. Nessa estranha fábula, Eva, a primeira mulher, é tirada da costela do homem: pela graça de Deus uma única vez saiu vida do ventre do homem e ela se fez mulher. Antes o homem foi criado do barro, mas não seria mais razoável que o Todo-Poderoso tivesse primeiro criado a fêmea, fonte da vida, e que dela nascessem todos os homens? Não, o Deus dos Hebreus transformará o homem em mulher uma única vez para assim engendrá-la. Mas, mesmo saindo das entranhas do homem, ela nascerá livre. E a mulher, que Deus queria submissa  e dócil, vai contrapor-se a Ele e, desobedecendo-O, oferecerá ao homem o fruto proibido do conhecimento. A liberdade e o questionamento é o destino das mulheres, ainda que elas saiam das nossas costelas.

Os primeiros livros do Pentateuco nos apresentam a mulheres libertárias, tão fortes que nem a literatura que tentará subjuga-las será capaz de fazê-lo. Ainda no Gênesis, somos apresentados a Sara, esposa do patriarca Abraão, que foi capaz de rir de Deus ao saber que ela, velha e murcha, e seu marido, tão velho e murcho, teriam um filho.  “Murcha como estou, poderia eu ainda gozar? E meu senhor é tão velho!”, exclama Sara a rir.  Se Eva tomou de Deus o conhecimento, sem o qual sequer estas linhas poderiam ser escritas, Sara tomou Dele o riso, talvez o único antídoto para o vale de lágrimas a que fomos condenados.

E outras mulheres libertárias vão surgir  ainda nos primeiros livros do Antigo Testamento, até que no Levítico e no Deuteronômio, o Deus masculino e Todo-Poderoso vai impor a mulher um horroroso e retrógrado código de disciplina. Nesse estranho código, a mulher que dá à luz  é considerada impura por sete dias e ficará em casa por trinta e três dias, purificando-se do sangue. Isso se for menino o fruto do seu ventre, se menina for  ficará  impura por duas semanas e em prisão domiciliar por sessenta e seis dias. “A liberdade indócil é domada pela desgraça “ assim diz Shakespeare e a desgraça das mulheres virá através da lei deuteronômica, que vai impor a lapidação, condenando a adúltera a ser apedrejada, vai estabelecer o levirato, obrigando  a viúva a casar-se com o irmão do seu marido, e vai permitir o julgamento por ordálio em que o Senhor permite o uso do Seu nome numa oblação de  ciúme para provar o adultério, na qual o marido, tomado de zelos, convoca o rabino e impõe a mulher a farsa do Juízo de Deus. Com tais leis, não é de estranhar que os hebreus, frente à dúvida que assolava os homens ao ver uma mulher grávida, exclamassem: “ “Menina?  Que não o permita o Senhor!” E foi assim que Deus e os homens tentaram subjugar a mulher.

Mas muitos anos depois nas terras da Galileia surge um profeta de nome Jesus que, desafiando a lei arcaica, torna-se um apaixonado defensor das mulheres. Por elas, desafia a multidão e impede a lapidação da adúltera, contraria a lei judaica e deixa-se tocar  pela mulher menstruada e permite que a prostituta lave seus pés. Esse profeta andava pelos campos com as mulheres e convivia com elas, que jamais o abandonaram. Em Getsêmani elas estavam ao seu lado, na crucificação elas lhe darão consolo, quando todos os homens haviam fugido, e no seu retorno  é a elas que ele se apresenta. Jesus é o profeta das mulheres. Mas, em sendo assim, porque elas aparecem desbotadas nos evangelhos, como meras coadjuvantes na saga de quem fez um apostolado em seu favor?  A resposta é simples, a história desse profeta é contada em quatro evangelhos, ditos sinópticos, que traziam latente a mesma misóginia do Antigo Testamento, e que foram escolhidos como únicos e verdadeiros por homens, no concílio de Nicéa, em 325 D.C. Mas havia outros evangelhos, que os homens rejeitaram tanchando-os de apócrifos, e eles contavam uma história diferente na qual as mulheres eram discípulas de Jesus e dividiam com os discípulos homens a atenção do profeta. Mas sendo sinóptico ou apócrifo, o evangelho de Jesus comove a humanidade há mais de 2 mil anos. É um enredo maravilhoso capaz de trazer a salvação para os homens e de encantar aqueles que pensam que apenas a literatura os salvará. E se literatura se apossou dele, e Saramago, Mailler e outros contaram a saga sob o ponto de vista masculino, já era tempo de dar a palavra a mulher e escrever um “Um Evangelho Segundo Maria”.

Armando Avena é escritor e economista. Membro da Academia de Letras da Bahia é doutor em Ciências Sociais e Professor da UFBA. É autor do romance “Maria Madalena – O Evangelho Segundo Maria”, publicado este ano pela editora Geração Editorial.

Publicado no jornal Correio em 24/12/2018

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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