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ARMANDO AVENA: UM PLANO PARA A BAHIA

Redação - 23/03/2018 14:45 - Atualizado 09/04/2018

A Bahia precisa de um novo plano de desenvolvimento. O modelo econômico baiano está num ponto de inflexão e as lideranças políticas, empresariais e acadêmicas precisam buscar saídas para evitar a perda relativa de competitividade frente à outros estados da federação.

A Bahia perdeu a posição de 6a economia do país e seu PIB vem crescendo menos ou caindo mais do que a média nacional.  O centro do problema está no setor industrial, com o fim do ciclo do petróleo e a estagnação da indústria petroquímica local. A economia baiana sempre foi movida a ciclos.

Houve o ciclo do cacau, o ciclo do petróleo e depois o ciclo da indústria petroquímica e de bens intermediários. O cacau entrou em uma crise interminável e para que a área de petróleo e petroquímica não tenha o mesmo caminho é preciso agir. Esta coluna foi a primeira a afirmar que o plano de desinvestimento da Petrobras estava à plena carga e atingia diretamente a Bahia. A redução significativa da produção da RLAM – Refinaria Landulpho Alves e o fechamento da Fafen – Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados demonstram que o plano é pra valer e que a Petrobras quer se dedicar ao núcleo duro do seu negócio: explorar petróleo.

O mais grave é que a Fafen foi simplesmente fechada,  sequer foi vendida, e o mesmo vai acontecer com a RLAM, com seu definhamento gradual, se não houver uma negociação para que um novo sócio privado entre no negócio. A indústria petroquímica vem se mantendo graças aos investimentos da Braskem, mas é preciso um plano de ação para revigorar essa cadeia produtiva e ampliar seus desdobramentos, aproveitando a produção da Basf, e tentando viabilizar a produção de bens de 3a e 4a geração.

Vale lembrar que a indústria de calçados e a de informática estão praticamente fechando as portas e que  a indústria automobilística opera em máxima produção e não há previsão de ampliação, o mesmo ocorrendo na área de papel e celulose. O setor de eólicas depende dos leilões, o segmento petroquímico tornou-se vegetativo e a indústria metalúrgica está limitada pela inexistência de matéria prima local. Em poucas palavras: não há perspectiva para os principais ramos da indústria. O desinvestimento no setor passa também pela escassez de infraestrutura, especialmente portuária e ferroviária.

VIA PARA A ESTRADA DO COCO

A Via Metropolitana Camaçari-Lauro de Freitas, que ligará a Rodovia CIA-Aeroporto à Estrada do Coco já está pronta. A via permitirá que os veículos saiam direto de Salvador e não precisem passar pelo gargalo viário de Lauro Freitas, saindo direto na altura de Busca Vida e pagando apenas um pedágio. Mas na volta a coisa pega: serão necessários pagar dois pedágios para quem vem do Litoral Norte em direção à Salvador.

A via terá repercussões. O município de Lauro de Freitas deve se livrar dos engarrafamentos na sua área central, mas, será reduzido o fluxo de pessoas e automóveis na região, responsável pelo boom comercial que se verificou ali. O projeto turístico do município de Camaçari será beneficiado,  já que os turistas e baianos terão acesso direto aos seus 42 km de orla. Mas quem vai ganhar mais são os investidores. As margens da Via Metropolitana tornaram-se  área de expansão urbana e de comércio e serviços e quem comprou terrenos no local já está vendo a valorização aparecer.

A TAXA DE JURO E O INVESTIMENTO

O Banco Central reduziu para 6,5% a taxa de juros, o menor patamar da história recente do país. Com isso, a rentabilidade das aplicações financeiras vai cair mais ainda. A rentabilidade dos fundos de renda fixa, por exemplo, está perdendo para a poupança e, só aqueles fundos com taxa de administração menor que 1%, empatam com a velha caderneta. Só os grandes investidores conseguem rentabilidade maior do que 5% ao ano o que, descontado a inflação, não é lá grande coisa. Melhor rentabilidade só se o aplicador migrar para o risco, no mercado de ações e outros papéis vinculados. Ou então, partir para o mercado produtivo, ou para o mercado imobiliário.

MUNICIPALIZAÇÃO DA ELEIÇÃO

Tradicionalmente, as eleições estaduais na Bahia são federalizadas. Desde 1994, por exemplo, quando as eleições para governador e presidente passaram a ser na mesma data, a força da disputa nacional, influenciou a disputa local. Das 5 eleições que houve desde então, a coligação que fez o presidente, fez também o governador do Estado em quatro pleitos. Em apenas uma ocasião, na primeira eleição de Lula, o vencedor do pleito na Bahia era oposição ao partido que venceu as eleições presidenciais. A façanha foi atribuída ao então Senador Antônio Carlos Magalhães. A situação agora é bem diferente já que sequer se sabe quais os candidatos à presidente serão apoiados pelos postulantes.

O curioso nessa eleição é que o governador Rui Costa municipalizou a disputa, fazendo de Salvador o ringue da luta com o Prefeito ACM Neto. O resultado disso é que Salvador, que representa apenas 20% da população, tem um investimento per capita do governo, bem superior aos de outros municípios. A estratégia de puxar a disputa para o reduto do concorrente é pouco comum, especialmente quando a administração é boa. Além disso, Salvador tem menos de 20% do eleitorado baiano, mas, dizem os marqueteiros, Salvador é caixa de ressonância para o Estado. E já há quem diga que ACM Neto deveria começar a estadualizar a disputa, levantando os problemas do Estado.

INTERVENÇÃO NO MDB

A possibilidade de intervenção no diretório estadual do MDB da Bahia, pelo diretório nacional do partido, chegou a ser discutida em Brasília, mas não vingou. Seria a solução ideal para tirar o deputado Lúcio Vieira Lima do comando do partido  e viabilizar a coligação com outros partidos, mas seria uma jogada de alto risco, pois poderia levar Geddel Vieira Lima a optar por uma delação premiada tendo o Presidente Temer como alvo. Sem coligação, e com muitos deputados deixando a legenda, o MDB será uma espécie de morto-vivo nas eleições de 2018, voltado unicamente para a eleição de Lúcio Vieira Lima.

A MORTE DE MARIELLE

A morte de Marielle Franco foi um triste exemplo da maneira torpe como se faz política no Brasil. Em um país mais civilizado, um evento de tal gravidade, que parece nitidamente ligado ao crime organizado, serviria para unir todas as correntes políticas num ato de execração unânime ao estado de violência que domina o país. Infelizmente, o que se viu foi o uso político do assassinato, por todas as correntes, à esquerda e à direita, cada um querendo tirar proveito do ocorrido. Nem a morte é capaz de unir os brasileiros em prol de um objetivo comum.

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