

Quando você coloca fertilizante na terra para produzir soja, abre uma garrafa plástica de água, passa desinfetante no hospital ou usa a embalagem que protege o seu celular, está em contato direto com o trabalho da indústria química. Invisível para a maioria das pessoas, esse setor é um dos alicerces silenciosos da economia brasileira — e os dados do início de 2026 trazem uma notícia animadora: depois de um longo período de dificuldades, a química nacional está reagindo, e reagindo com força bem acima da média da economia.
A economia brasileira cresceu — mas com cautela
O Monitor do PIB-FGV, divulgado em 19 de maio de 2026, mostra que a economia brasileira avançou 0,9% no primeiro trimestre de 2026 em relação ao quarto trimestre de 2025, com crescimento interanual de 1,5%. Na comparação acumulada em doze meses, o ritmo foi de 1,9%. São números positivos, mas que revelam uma recuperação ainda moderada: nos três trimestres anteriores, o PIB havia ficado próximo da estabilidade, com variações dessazonalizadas de 0,0%, 0,2% e 0,0%.
O que sustentou o resultado foi uma expansão disseminada entre os três grandes setores — agropecuária, indústria e serviços — além de um bom desempenho do consumo das famílias, que cresceu 1,4% no trimestre, o maior ritmo desde julho de 2025. Os investimentos (Formação Bruta de Capital Fixo) também encerraram o trimestre no campo positivo, com alta de 0,9%, puxados pela construção civil. As exportações avançaram 6,5%, lideradas pelo petróleo. Por outro lado, março trouxe um sinal de alerta: na comparação mensal dessazonalizada, a atividade econômica recuou 0,6%, sugerindo que a aceleração do início do ano pode estar perdendo fôlego, em parte por causa das turbulências geopolíticas no Oriente Médio.
Em valores correntes, o PIB brasileiro acumulado até o fim do primeiro trimestre de 2026 foi estimado em R$ 3,443 trilhões, com taxa de investimento de 19,1% — um patamar razoável, mas ainda distante dos níveis necessários para sustentar um ciclo robusto de crescimento de longo prazo.
A indústria manufatureira ainda busca seu ritmo
Dentro desse quadro macroeconômico de recuperação gradual, a indústria de transformação — o coração do setor manufactureiro brasileiro — segue em terreno difícil. A base de comparação dos últimos doze meses ainda é desfavorável para boa parte dos segmentos industriais, e a queda das importações de bens intermediários (-4,4 pontos percentuais de contribuição negativa ao total das importações no trimestre) reflete, em parte, a fragilidade das cadeias produtivas industriais.
O setor manufatureiro brasileiro acumula anos de perda de participação no PIB e enfrenta pressões combinadas de câmbio, custo de energia, concorrência internacional e desinvestimento crônico. É nesse cenário de recuperação econômica ainda tímida e indústria manufatureira pressionada que o desempenho do setor químico se destaca de forma particularmente expressiva.
A química vai na contramão: alta de quase 23% em três meses
O Relatório de Acompanhamento Conjuntural (RAC) da Abiquim, referente a abril de 2026, mostra que a produção da indústria química cresceu 22,8% no acumulado dos três primeiros meses do ano, na comparação com o fim de 2025. As vendas no mercado interno acompanharam esse ritmo e subiram 22,7% no mesmo período. Para colocar em perspectiva: enquanto o PIB total cresceu 0,9% no trimestre, a química avançou mais de vinte vezes esse ritmo em termos de produção física. A diferença não é apenas de magnitude — é de direção.
Para o presidente-executivo da Abiquim, André Passos Cordeiro, o desempenho do trimestre representa uma recomposição importante após a forte deterioração observada no segundo semestre de 2025. “O primeiro trimestre de 2026 trouxe um fôlego importante para a indústria química brasileira, mas ainda estamos longe de um cenário estruturalmente equilibrado e competitivo”, afirma.
Essa recuperação tem um vetor claro: a reconquista do mercado doméstico. As importações de produtos químicos recuaram 19,1% no trimestre, e a fatia da produção nacional no abastecimento interno saltou de 42% em dezembro de 2025 para 56% em março de 2026. Em outras palavras, a indústria brasileira voltou a abastecer o próprio país com mais intensidade, reduzindo a dependência de fornecedores externos.
O que são esses produtos, afinal?
A indústria química abrange uma cadeia enorme de produtos com presença cotidiana na vida de todos os brasileiros. Quando falamos de “resinas termoplásticas”, estamos falando do material que compõe potes de iogurte, tubulações de água e peças de automóveis. Os “intermediários para fertilizantes” são o que alimenta a agricultura brasileira — sem eles, o agronegócio, maior exportador do país, simplesmente para. O “cloro e álcalis” é o que torna a água potável e desinfeta hospitais. Os “solventes industriais” estão dentro de tintas, vernizes e produtos de limpeza.
Todos esses segmentos registraram avanço na produção nos primeiros meses de 2026. Os destaques foram os intermediários para plásticos, com alta de 26% em março ante fevereiro, e os intermediários para fertilizantes, com crescimento de 10,6% no mesmo período. As resinas termoplásticas — presentes em embalagens, construção e automóveis — avançaram 4%, chegando a 70% de utilização da capacidade instalada.
As fábricas voltaram a girar
Um dos indicadores mais reveladores do relatório é o nível de utilização da capacidade instalada — o quanto das fábricas existentes está efetivamente em funcionamento. Em dezembro de 2025, apenas 49% da capacidade do setor estava sendo usada. Em março de 2026, esse número saltou para 63%, um avanço de 14 pontos percentuais em apenas três meses.
Para entender o que isso significa na prática: imagine uma fábrica de resinas plásticas com dez linhas de produção. Em dezembro, apenas cinco estavam ligadas. Em março, mais de seis já operavam a pleno. Essa retomada aconteceu em todos os grupos de produtos monitorados, com destaque para cloro e álcalis (de 46% para 56%) e fertilizantes (de 45% para 66%).
O contraste com o PIB geral é aqui ainda mais evidente: enquanto a taxa de investimento da economia como um todo ficou em 19,1% no trimestre — um nível modesto para os padrões de países que crescem de forma sustentada —, a química demonstrou capacidade de recuperação expressiva mesmo sem precisar de nova capacidade instalada, apenas reativando o que já existia.
Por que a química importa para o Brasil todo
O setor químico é uma das engrenagens mais importantes da economia nacional, e seus efeitos se espalham por toda a cadeia produtiva. O segmento emprega trabalhadores com alto grau de qualificação e especialização, pagando salários que são o dobro da média da indústria de transformação como um todo. Não é mão de obra barata: é conhecimento técnico aplicado à produção de alto valor.
Além disso, a química é insumo para praticamente todas as outras indústrias. A construção civil — que puxou os investimentos no primeiro trimestre segundo o Monitor do PIB — precisa de tintas, impermeabilizantes e tubulações. A indústria alimentícia depende de embalagens. O agronegócio não sobrevive sem fertilizantes e defensivos. A saúde pública depende de álcool, cloro e princípios ativos farmacêuticos. Quando a química vai bem, quase todo o resto tem condições de ir junto.
A defesa comercial como aliada da recuperação
Parte da melhora recente tem a ver com uma mudança importante no lado das importações. Com menos produto estrangeiro no mercado, a indústria doméstica ganhou espaço. Esse movimento não foi acidente. Medidas de defesa comercial adotadas pelo governo brasileiro — como a Lista de Desequilíbrios Comerciais Conjunturais (DCC) e instrumentos antidumping — funcionaram como escudos contra a entrada de produtos a preços artificialmente baixos, muitas vezes subsidiados por outros países. O resultado foi a recuperação da participação doméstica vista em março de 2026. A avaliação é compartilhada pela Abiquim.
“O desempenho do setor químico é fruto das medidas acertadas do governo federal desde 2025, sem gerar impacto inflacionário. Não podemos reduzir os instrumentos de defesa comercial justamente no momento em que eles começam a produzir resultados concretos para a indústria nacional”, afirma André Passos Cordeiro.
Curiosamente, o Monitor do PIB mostra que as importações totais da economia brasileira também recuaram 1,3% no primeiro trimestre — pelo segundo trimestre consecutivo — com destaque negativo exatamente para os bens intermediários (-4,4 p.p.). Isso confirma uma tendência mais ampla de substituição e recomposição da produção doméstica em curso na economia, da qual o setor químico é um dos protagonistas mais visíveis.
Um alerta que não pode ser ignorado
Apesar da boa notícia no curto prazo, os dados estruturais do setor químico pedem cautela. Na comparação do primeiro trimestre de 2026 com o mesmo período de 2025, produção e vendas ainda recuaram 4,1%. Nos últimos doze meses até março de 2026, a produção caiu 7% e as vendas internas encolheram 8,2%. A recuperação trimestral é real, mas ainda não reverteu a tendência de médio prazo.
Há também um dado histórico que precisa ser dito sem rodeios: em 1990, apenas 7% do consumo nacional de produtos químicos era atendido por importações. Em 2025, esse número chegou a 49%. Quase metade do que o Brasil consome de química hoje vem de fora. A demanda interna cresceu nas últimas décadas, mas quem abasteceu esse crescimento foi principalmente China, Estados Unidos e Europa — não a indústria brasileira. O déficit comercial do setor químico atingiu US$ 54,9 bilhões em 2025, um dos maiores de todos os segmentos da economia.
Esse quadro dialoga diretamente com o que o Monitor do PIB evidencia na trajetória do crescimento brasileiro: um país que cresce de forma modesta, com investimento ainda insuficiente e que precisa ampliar sua base produtiva industrial para sustentar expansão mais robusta no futuro.
O que precisa mudar para consolidar a retomada
O relatório aponta um conjunto de condições necessárias para que o setor cresça de forma sustentável. Energia elétrica e gás natural competitivos são fundamentais para consolidar a recuperação da indústria química.
“Sem resolver o custo das matérias-primas e da energia, será muito difícil transformar essa reação conjuntural em um ciclo sustentável de crescimento e investimento industrial”, afirma o presidente-executivo da Abiquim.
A logística também pesa. E há uma agenda de futuro que não pode ser ignorada: a chamada “química verde” — produção de plásticos biodegradáveis, insumos de baixo carbono e economia circular — é uma oportunidade enorme para o Brasil, dada a abundância de matérias-primas renováveis como cana-de-açúcar e milho.
A recuperação do primeiro trimestre de 2026 mostra que o setor tem vitalidade. O desafio agora é transformar um bom trimestre em uma trajetória consistente de crescimento — algo que o PIB brasileiro como um todo ainda busca consolidar.
O início de 2026 traz esperança para um setor que é, ao mesmo tempo, pouco visível ao cidadão comum e absolutamente essencial para o funcionamento do país. Num cenário em que a economia brasileira cresceu de forma modesta e a indústria manufatureira ainda enfrenta ventos contrários, a indústria química emergiu como um dos pontos de luz do trimestre. Fazer com que ela seja competitiva, inovadora e produzida no Brasil não é apenas uma questão setorial — é um componente central de qualquer estratégia séria de desenvolvimento econômico.
“Fortalecer a indústria química é fortalecer a capacidade do Brasil de produzir, inovar e competir globalmente”, conclui André Passos Cordeiro.
Foto: Reprodução / TV Bahia