

A nova medida aprovada pelo governo federal, que amplia a quantidade mínima de cacau necessária nos produtos comercializados como chocolate, foi defendida por produtores e especialistas do setor durante o lançamento do Salon du Chocolat Brasil 2026, na Bahia.
Para o publicitário baiano Marco Lessa, CEO do Grupo M21 e responsável pela realização do evento no país, a legislação representa um avanço ao valorizar produtos com maior concentração de cacau.
“Essa medida tem um aspecto positivo, porque acaba difundindo a importância e o valor de um percentual elevado de cacau no chocolate. O chocolate de qualidade já vem, há muitos anos, utilizando os percentuais nas embalagens”, afirmou.
Apesar de considerar a mudança positiva, Marco alertou para pontos que ainda exigem atenção, especialmente em relação aos produtos classificados como “sabor chocolate”.
“A medida também tem um aspecto que precisa ser levado em consideração, que é a legalização de um produto chamado ‘sabor chocolate’, com um percentual muito baixo de cacau. É preciso ficar atento, porque a indústria, de um modo geral, vai buscar rentabilidade”, disse.
Segundo ele, muitos produtos vendidos no mercado possuem chocolate apenas na formulação, mas não podem ser considerados chocolate de fato.
“A gente percebe a qualidade de alguns produtos que não são exatamente chocolate, como bombons, wafers e outros que têm chocolate na formulação, mas não são chocolate. Com isso, tentam oferecer um produto de qualidade questionável para o consumidor”, declarou.
Marco destacou ainda que o chamado “chocolate de origem” já trabalha há anos com percentuais mais elevados de cacau como diferencial de mercado.
“O chocolate de verdade, o chocolate de origem, sempre estabeleceu o percentual como diferencial, não só pela amêndoa de qualidade, mas também pela quantidade de cacau no produto. A lei é bem-vinda, mas é necessário olhar com muito cuidado”, completou.
Consumidor deve sentir impacto positivo
O produtor de chocolate Henrique também avaliou a nova regulamentação como uma conquista importante para o setor e, principalmente, para os consumidores.
“Essa é uma luta de mais de 16 anos e que culminou agora. Acho extremamente importante para o consumidor, principalmente, porque ele vai começar a ter acesso a um chocolate com alto teor de cacau verdadeiro”, afirmou.
Segundo ele, muitos produtos comercializados anteriormente utilizavam o termo “sabor chocolate”, mas continham pouco cacau na composição.
“Até então, você tinha lá ‘sabor chocolate’ e o que menos tinha era cacau. Então eu acho essa legislação extremamente importante. Ela tem algumas brechas que eu não consegui modificar nessa luta de 16 anos, mas foi um passo gigantesco”, disse.
Questionado sobre possíveis impactos nos preços, Henrique afirmou que a mudança pode gerar reflexos futuros, mas não de forma imediata.
“Pode ter algum reflexo no custo, mas acredito que não será a curto prazo. Já existe uma guerra comercial estabelecida quando a indústria moageira paga um deságio sobre o produto do cacau”, explicou.
O produtor afirmou ainda que o valor pago ao agricultor segue abaixo da cotação internacional do produto.
“O cacau está cotado hoje em cerca de 4,5 mil dólares, mas o produtor recebe em torno de 3,5 mil dólares por tonelada. Isso já faz com que o produto continue com a mesma margem de lucro para as grandes indústrias chocolateiras”, concluiu.
Foto: Fernando Vivas