terça, 05 de maio de 2026
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ENDIVIDAMENTO E BETS PRESSIONAM BARES E RESTAURANTES NO BRASIL

Victoria Isabel - 05/05/2026 18:58 - Atualizado 05/05/2026

Com o lançamento do Desenrola Brasil 2.0, o governo federal mira nos efeitos econômicos e sociais da expansão das apostas online no país. A nova versão do programa foi anunciada com foco na renegociação de dívidas de famílias e pequenos negócios e traz, entre suas medidas, o bloqueio de apostas online por um ano para quem aderir à iniciativa.

O movimento ocorre em meio a novos levantamentos que apontam o peso crescente das bets sobre o orçamento das famílias: de janeiro de 2023 a março de 2026, a inadimplência associada às apostas retirou R$ 143 bilhões do comércio varejista, segundo a CNC. Enquanto o gasto dos brasileiros com essas plataformas superou R$ 30 bilhões por mês.

Para o setor de alimentação fora do lar, esse impacto está bem mapeado. Pesquisa da Abrasel realizada em 2024 mostrou que 43,5% dos empresários ouvidos percebem influência das bets na gestão ou no resultado do estabelecimento. Entre os que identificam esse efeito, os principais reflexos aparecem no comportamento dos funcionários, na frequência de consumidores e no desempenho das vendas.

Quando uma fatia crescente do orçamento doméstico passa a ser drenada pelas apostas, a alimentação fora do lar tende a perder espaço. Entre os empresários que perceberam impacto das bets na frequência dos clientes, 62,1% relataram queda. No gasto individual, 62,2% também apontaram redução.

Os dados apontam uma relação entre o avanço das apostas e a retração do consumo no setor. Entre os empresários do setor, 86,2% disseram enxergar relação direta entre os hábitos de aposta dos consumidores e a perda de movimento nos estabelecimentos.

Pressão também chega ao ambiente de trabalho

O impacto das bets, porém, também alcança o cotidiano das equipes. Entre os empresários que identificaram mudanças no comportamento dos funcionários que apostam online, 75,5% citaram aumento do endividamento pessoal e 55,1% registraram aumento dos pedidos de adiantamento salarial.

É nesse ponto que o Desenrola 2.0 ganha relevância adicional para o setor. Ao prever renegociação de dívidas com descontos de 30% a 90%, prazos mais longos para pagamento e bloqueio temporário das apostas para aderentes, o programa pode funcionar como uma tentativa de reorganização financeira para trabalhadores que já dão sinais de renda comprometida.

O novo programa também amplia condições para micro e pequenas empresas, com carência maior para início do pagamento, aumento do prazo máximo de quitação e expansão do limite de crédito. Eixo de atuação fundamental para bares e restaurantes, visto que 39% das empresas do setor possuem pagamentos em atraso, segundo outra pesquisa recente da Abrasel, feita em abril.

Para Paulo Solmucci, presidente-executivo da Abrasel, a questão merece atenção justamente porque reúne duas pressões relevantes sobre o setor. De um lado, o dinheiro comprometido com apostas reduz a frequência e o tíquete médio do consumidor. De outro, a alta da inadimplência se traduz em efeitos concretos sobre os trabalhadores, como maior endividamento e mais pedidos de adiantamento.

“Os novos levantamentos reforçam que esse é um problema que merece muita atenção. O setor sente isso dos dois lados do balcão: o consumidor sai menos e gasta menos, enquanto cresce a pressão financeira sobre os trabalhadores, com aumento do endividamento e dos pedidos de adiantamento. As ações do governo ganham importância justamente por tentar reorganizar esse cenário, num momento em que as bets já impactam consumo, vendas e rotina de trabalho”, comenta.

Foto: Freepik

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