

O bloqueio repentino do sistema Lote Mobile pela I.B. System paralisou a gestão de milhares de imóveis; caso foi levado à justiça e à ANPD sob acusação de coação comercial e violação da LGPD
Uma disputa comercial que escalou para o campo da segurança digital está a causar alarme no setor imobiliário baiano. A empresa I.B. System Desenvolvimento de Software está no centro de uma denúncia grave: o uso de bloqueio de sistemas como ferramenta de pressão, o que especialistas já chamam de “sequestro de dados”.
A denúncia foi formalizada pela Lotiar Urbanismo, que se viu impedida de acessar às informações de mais de 4 mil clientes após a I.B. System cortar o acesso ao software Lote Mobile. Segundo a acusação, o bloqueio ocorreu de forma arbitrária, sem aviso prévio e, o mais alarmante, mesmo com as mensalidades do software rigorosamente em dia.
O uso de dados como “reféns”
O imbróglio teria começado após a Lotiar rescindir um contrato com outra empresa do mesmo grupo econômico da fornecedora (a IB Gestão de Recebíveis). Como retaliação, a I.B. System teria “baixado as portas” do sistema de gestão principal, impedindo a incorporadora de trabalhar.
Na petição inicial do processo judicial, a Lotiar descreve a manobra como um mecanismo de coação para forçar o pagamento de valores discutíveis em contratos distintos. É o uso de dados pessoais de terceiros como “moeda de troca” em brigas comerciais.
Ofensiva na ANPD
A gravidade do caso levou a situação para além dos tribunais comuns. Um protocolo foi aberto junto à Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD), apontando que a conduta da empresa de software fere de morte a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
Ao bloquear o acesso da Lotiar aos dados, a I.B. System impede que a empresa cumpra deveres básicos, como prestar contas aos adquirentes de lotes ou emitir documentos de quitação. “Estamos diante de um cenário onde a operadora do software se sente dona dos dados, ignorando que o livre acesso é um direito garantido por lei”, afirma a denúncia.
Impacto real e asfixia financeira
Os números apresentados à justiça mostram o impacto humano da decisão técnica: em menos de dez dias de bloqueio, centenas de clientes ficaram sem atendimento. A Lotiar alega estar a sofrer uma “asfixia financeira”, já que não consegue processar recebíveis nem gerir a posição financeira das suas unidades.
A ação judicial pede o restabelecimento imediato do sistema sob pena de multa diária, além de indenização por danos morais e materiais. O caso agora serve de aviso para outras empresas: num mundo dependente de nuvem e softwares externos, o controle sobre os próprios dados tornou-se uma questão de sobrevivência e de legalidade.



