segunda, 20 de abril de 2026
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NORDESTE REGISTRA AUMENTO DE MAIS DE 30% NO DIESEL APÓS CHOQUE DE PREÇOS

Victoria Isabel - 20/04/2026 08:59

O mercado de combustíveis no Brasil entrou em uma nova fase em abril. Após um ciclo acelerado de alta que levou o diesel a acumular aumentos próximos de 25% ao longo de março, os preços começaram a dar sinais de estabilização — mas em um patamar significativamente mais elevado. Ao mesmo tempo, o etanol passou a ganhar protagonismo como alternativa de alívio em meio à pressão dos combustíveis fósseis, inaugurando uma dinâmica mais complexa no setor, segundo o quinto relatório do IBPT (Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação).

A mudança de comportamento é relevante. Se março foi marcado por uma escalada contínua — saindo de altas próximas de 8% na primeira semana para quase 25% no fechamento do mês — abril passa a refletir uma acomodação, ainda que sem reversão consistente dos preços. O choque inicial foi absorvido, mas não dissipado. O diesel permanece elevado e continua sustentando a pressão sobre fretes, cadeias produtivas e custos operacionais, consolidando-se como o principal vetor inflacionário do período.

Nesse novo contexto, o etanol surge como a principal rota de escape para parte dos consumidores, especialmente nas regiões com maior oferta agrícola. Diferentemente do diesel e da gasolina, o biocombustível apresentou retração em regiões estratégicas, funcionando como um amortecedor parcial da pressão inflacionária e redesenhando, ainda que de forma limitada, o equilíbrio do mercado.

Embora a desaceleração da alta indique uma transição de fase, os dados mostram que o mercado permanece tensionado. A estabilização ocorre em níveis elevados, o que mantém o impacto econômico ativo e prolongado. A pressão deixa de ser episódica e passa a se incorporar à estrutura de custos do país.

Nesse cenário, o etanol ganha relevância não apenas como alternativa, mas como variável estratégica. Em regiões como Sul e Sudeste, o combustível apresentou quedas relevantes, impulsionado pelo avanço da safra e pela maior disponibilidade interna, reforçando seu papel como mecanismo de mitigação — ainda que regionalmente concentrado.

Para o presidente do IBPT, Gilberto Luiz do Amaral, esse movimento evidencia um caminho possível para reduzir a exposição do país às oscilações externas: “Em meio ao cenário de pressão do petróleo, o Etanol Hidratado provou ser o nosso maior ativo estratégico. A queda de mais de 6% no Sul e Sudeste, em pleno ciclo de alta das commodities fósseis, mostra que a transição energética e o incentivo à safra nacional são as únicas ferramentas reais

Ainda assim, a capacidade de compensação do etanol não é homogênea, o que evidencia uma das principais conclusões do levantamento: a crise dos combustíveis no Brasil não é apenas inflacionária, mas estruturalmente desigual.

Fragmentação regional expõe vulnerabilidade logística

Mais do que a alta dos preços, o relatório evidencia um país operando em velocidades distintas. Enquanto o Centro-Sul consegue mitigar parte dos impactos com o uso do etanol, regiões como Norte e Nordeste permanecem mais expostas à volatilidade internacional do petróleo e às limitações logísticas.

No Nordeste, o diesel acumulou altas superiores a 30% no período pós-choque, refletindo a maior dependência de importação e o custo logístico mais elevado. Já no Norte, a dinâmica é semelhante, com menor capacidade de absorção e maior sensibilidade a oscilações externas.

Na avaliação de Amaral, o cenário expõe uma fragilidade estrutural do país apesar da intervenção governamental: “O que observamos em abril é o reflexo direto de uma vulnerabilidade logística. O Brasil não apenas importa combustível, ele importa a volatilidade global. A alta de 30% no Diesel no Nordeste é o sintoma de um mercado que ainda não encontrou mecanismos de proteção eficientes contra choques geopolíticos dessa magnitude.”

A análise é reforçada por Pinto Neto, ao destacar a ausência de mecanismos de equilíbrio regional: “Os dados de abril revelam um Brasil fragmentado. Enquanto o Centro-Sul consegue mitigar a crise com biocombustíveis, o Norte e o Nordeste estão expostos à crueza dos preços internacionais. Sem uma infraestrutura de cabotagem mais robusta ou novas refinarias regionais, essas regiões continuarão pagando a conta mais alta de qualquer instabilidade externa.”

 

foto: Shutterstock

 

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