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SEIS EM CADA DEZ MORADORES DE SALVADOR ACHAM QUE SEGURANÇA É O MAIOR PROBLEMA DA CIDADE

João Paulo - 01/04/2026 08:00

Antes de sair de casa, Lucas Tavares, 29, não esquece a doleira, que era usada apenas no Carnaval e agora é essencial para o dia a dia, principalmente pelo medo de ser assaltado. Assim como o estudante, seis em cada dez moradores de Salvador consideram o aparato de segurança proporcionado pelo Governo do Estado como o maior problema da cidade. A estatística surge da pesquisa Viver em Salvador: Qualidade de Vida 2026, realizada pelo Instituto Cidades Sustentáveis e pela Ipsos-Ipec.

Ainda segundo Lucas, a sensação de insegurança mudou a forma como ele vive no dia a dia: “Hoje, nem no transporte público me sinto tão seguro, então, acabo saindo à noite só quando tenho dinheiro pra ir e voltar de Uber. Isso acaba me limitando a frequentar mais os espaços que ficam perto de casa”.

Como exemplos de mudança de hábito por medo da insegurança, a reportagem ouviu algumas estratégias utilizadas pelos soteropolitanos para tentar se prevenir de assaltos ou de troca de tiros. Entre elas, utilizar um “celular do ladrão”, evitar bares à noite, não usar celular nos transportes públicos, sair para correr sem levar eletrônicos ou mudar algum trajeto para evitar determinados locais.

Um medo totalmente justificado. Segundo o Instituto Fogo Cruzado, a Polícia Militar da Bahia (PM-BA) bateu recorde de participação em tiroteios em Salvador e RMS em 2025. Cerca de 44% das ocorrências de disparos de arma de fogo aconteceram durante ações e operações policiais no ano passado. Foram 662 casos, o maior índice da série histórica.

Ainda de acordo com a pesquisa do Instituto Cidades Sustentáveis/Ipsos-Ipec, 59% dos entrevistados acham que a segurança é o maior problema na capital baiana. Em seguida, aparecem emprego e renda (15% das menções), e saúde (9%). Para 42%, a principal política pública para melhorar a qualidade de vida na cidade é fortalecer a segurança pública nos bairros, com mais policiamento comunitário, boa iluminação e ações para prevenir a violência.

Segundo o professor do Mestrado em Gestão da Segurança Pública, Justiça e Cidadania da Ufba Horacio Nelson Hastenreiter Filho, a indicação da segurança como o maior problema da cidade tem múltiplas causas. “Há uma tendência de atribuir culpa ao governo federal, ainda que a responsabilidade seja dos governos estaduais. As estatísticas também colocam a Bahia em uma posição ruim nos rankings nacionais de criminalidade, o que aumenta a evidência do problema”, explica. “Um outro aspecto importante diz respeito a uma condição ímpar da segurança. O cidadão não precisa ser vítima de um crime de maior ou menor gravidade para estar preocupado com a segurança. A sensação de vulnerabilidade já é impactante para o cidadão”, complementa.

Outra questão a se observar é a inclusão da Bahia em dados nacionais crimes cometidos contra mulheres. O número de tentativas de feminicídio no estado cresceu 42% no primeiro bimestre de 2026. Em adição ao número de feminicídios, janeiro e fevereiro contam com o maior número de ocorrências dos últimos 10 anos, com registro de 57 casos. Os dados foram extraídos do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp). A pesquisa ouviu 300 pessoas com 16 anos ou mais, moradoras de Salvador há pelo menos dois anos e com acesso à internet. O trabalho de campo foi feito de 1 a 27 de dezembro de 2025.

Primeiro bimestre

Sobre a percepção da qualidade de vida em Salvador no último ano, 43% dos entrevistados disseram que melhorou, 34% avaliam que ficou “estável” e 22% acreditam que piorou. Em comparação com a última pesquisa, houve uma diminuição de 2% na avaliação positiva e um aumento de 4% na negativa.

Considerando o primeiro bimestre de 2025 e 2026, os números mostram um desencontro com a percepção dos moradores. O atual ano conta uma queda de 24% nas ocorrências (furto de veículo, roubo de veículo, roubo de carga e roubo a instituição financeira). No ano passado, 3006 casos foram registrados, enquanto 2282 neste ano. Os números foram extraídos do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp).

O decréscimo em Salvador, apenas, também se estende para o número de vítimas, que diminuiu de 2407 para 2030, o que representa uma queda de 15% no mesmo período. A estatística considera as vítimas de estupro, estupro de vulnerável, feminicídio, homicídio doloso, latrocínio, lesão corporal seguida de morte, morte por intervenção policial, tentativa de feminicídio e tentativa de homicídio. O especialista em segurança pública Horacio Filho destaca que a resolução ou a mitigação dos problemas relacionados à segurança precisam de medidas de longo prazo, como investimento na educação, e inclusão social em curto prazo – como o uso da inteligência colaborativa e de chatbots.

Horácio também acrescenta que as estatísticas de criminalidade variam muito de bairro para bairro e nem todos são impactados pelas condições de segurança da mesma forma, o que justificaria a manutenção da sensação de insegurança. Em resposta à sensação de insegurança no estado, a Secretaria da Segurança Pública da Bahia (SSP-BA) ressaltou que cerca de R$ 1,2 bilhão foi investido nos últimos três anos nas Polícias Militar, Civil e Técnica, além do Corpo de Bombeiros Militar da Bahia.

Segundo o órgão, cerca de 9.000 policiais, peritos e bombeiros foram contratados em pouco mais de 3 anos, cerca de 500 operações foram deflagradas no ano passado contra grupos envolvidos com tráficos de drogas e armas, lavagem de dinheiro, mortes violentas e corrupção de menores, além de mais de 33 mil criminosos serem capturados em 2025 e 7.500 armas de fogo serem retiradas das ruas no mesmo período.

“As medidas garantiram ainda o aumento das apreensões de armas e drogas, além de quatro anos consecutivos com a redução das mortes violentas em todo o estado. Na capital baiana, em 2025, a Polícia Civil registrou o menor número de crimes graves contra a vida dos últimos 25 anos. Nos dois primeiros meses de 2026, a Polícia registrou queda de 31,5% das mortes violentas em Salvador”, diz a SSP em nota.

Crédito: Sora Maia

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