

A reforma tributária do consumo já começou a sair do papel e, embora a transição completa ainda leve alguns anos, seus efeitos práticos sobre preços, nota fiscal, operação das empresas e percepção do consumidor já entraram no radar do varejo e do mercado digital. Em 2026, o país vive o chamado “ano teste” da CBS e do IBS, com obrigatoriedade de emissão de documentos fiscais eletrônicos com destaque desses tributos. A partir de 2027, começa uma nova etapa: entra em vigor a cobrança da CBS, são extintos PIS e Cofins, o IPI é zerado para quase todos os produtos e passa a valer também o Imposto Seletivo sobre itens definidos em lei.
Na prática, especialistas avaliam que a reforma tende a alterar não apenas a estrutura tributária por trás dos preços, mas também a maneira como o consumidor enxerga quanto paga de imposto ao comprar no supermercado, em marketplaces, aplicativos e lojas físicas. A proposta oficial do novo modelo é justamente simplificar a tributação sobre o consumo, substituir tributos como PIS, Cofins, ICMS e ISS por CBS e IBS, além de ampliar a transparência e reduzir a cumulatividade do sistema.
Esse debate ganha força em um momento em que a inflação ainda pressiona o orçamento das famílias. O IPCA de fevereiro de 2026 ficou em 0,70%, com alta acumulada de 3,81% em 12 meses, enquanto o IPCA-15 de março registrou 0,44%, puxado principalmente pelo grupo Alimentação e bebidas, que avançou 0,88%. Dentro de casa, a alimentação no domicílio acelerou para 1,10%, com aumentos expressivos em itens como feijão-carioca, ovo, leite longa vida e carnes.
Para o advogado tributarista Bruno Medeiros Durão, presidente do escritório Durão, Almeida & Pontes Advogados Associados, a principal mudança para o consumidor pode não ser um efeito linear de alta ou queda imediata nos preços, mas uma nova consciência sobre o peso real da tributação no consumo. “A reforma tributária não significa, automaticamente, que tudo vai ficar mais barato ou mais caro de forma uniforme. O que muda de maneira muito relevante é a lógica do sistema. Com um modelo mais transparente, o consumidor tende a perceber melhor quanto do preço final está relacionado ao tributo, e isso pode mudar a forma de comparar produtos, serviços e até canais de compra”, afirma.
A avaliação de Bruno Durão parte do entendimento de que a reforma tributária não produzirá efeitos uniformes em toda a economia. Isso porque a substituição gradual dos tributos atuais por CBS e IBS exigirá mudanças operacionais relevantes dentro das empresas, desde a revisão de contratos e sistemas de gestão até a reestruturação da política comercial e da formação de preços. Na prática, setores com cadeias mais organizadas e maior capacidade tecnológica podem absorver melhor a transição, enquanto outros tendem a enfrentar mais custos de adaptação, o que pode ser repassado ao consumidor.
O Ministério da Fazenda afirma que a reforma busca alinhar o Brasil às melhores práticas internacionais de IVA, com tributação no destino, não cumulatividade e base mais ampla. Em nota técnica publicada durante a regulamentação, a pasta indicou que a estimativa de alíquota-padrão do novo IVA dual, em exercício de simulação, ficava em torno de 26,5%, contra uma estimativa pré-reforma de 34,4% para a combinação de ICMS e PIS/Cofins em um cenário comparável, mas o próprio governo ressalta que esse número não deve ser lido como alíquota final definida, já que depende de variáveis ainda em aberto até o fim da transição.
Para o sócio e advogado tributarista Adriano de Almeida, um dos pontos mais sensíveis será justamente a passagem de um sistema opaco para outro em que o imposto tende a ficar mais visível para empresas e consumidores. “O brasileiro sempre sentiu o peso do imposto no bolso, mas nem sempre conseguiu identificar com clareza quanto disso estava embutido no preço. A reforma aumenta essa visibilidade e, com ela, vem também uma tendência maior de comparação, questionamento e pressão por coerência de preços entre concorrentes”, avalia.
Adriano ressalta que o comércio eletrônico e o varejo físico devem viver um período de adaptação intensa. “Sites, marketplaces, ERPs, emissores de nota, políticas de desconto e precificação terão de conversar com uma nova lógica tributária. Isso não é um detalhe operacional. É uma mudança que impacta margem, comunicação comercial e experiência do consumidor. Quem estiver mais preparado para traduzir isso com clareza terá vantagem competitiva”, destacou.
Na avaliação dos especialistas, isso tende a elevar a conscientização do consumidor brasileiro sobre tributação, sobretudo num cenário em que preço final, renda disponível e custo de vida continuam no centro das decisões de compra.