

A contribuição de Michal Kalecki para o entendimento do capitalismo continua atual, especialmente em economias marcadas por desigualdades e volatilidade externa. Sua síntese é direta: o nível de atividade depende da demanda efetiva. E a máxima associada ao seu argumento — “os trabalhadores gastam o que ganham, e os capitalistas ganham o que gastam” — explicita um ponto decisivo: crescimento sustentável não se sustenta apenas em expectativas abstratas de “confiança”, mas em gasto concreto, renda circulando e decisão de investimento ancorada em mercado.
Essa lente ajuda a compreender a experiência baiana (e brasileira) no ciclo de 2007 a 2012. Naquele período, mesmo com limitações estruturais, a economia cresceu com maior estabilidade porque houve aumento da massa salarial, expansão do emprego formal, valorização do salário mínimo, políticas de inclusão e ampliação do acesso ao crédito, combinadas com investimento público e alguma capacidade de indução estatal. O efeito macroeconômico foi claro: renda na base ampliou o consumo das famílias e gerou mercados para os chamados bens de salário — alimentos, vestuário, material de construção, serviços locais, transporte, comércio — criando o “sinal” que o empresariado precisa enxergar para investir, ampliar capacidade, contratar e inovar.
A tese é simples e robusta: em economias com elevada propensão a consumir entre os trabalhadores, elevar a renda do trabalho não é “concessão”; é política de dinamização econômica. Quando a massa salarial cresce, cresce também o giro do comércio e dos serviços, melhora o fluxo de caixa de pequenas e médias empresas, aumenta a arrecadação sem elevar alíquotas e reduz a vulnerabilidade social. Essa sustentação de demanda é a ponte entre inclusão e investimento produtivo. Ao contrário, quando salários estagnam, informalidade avança e o Estado contrai gasto de forma pró-cíclica, a demanda arrefece; sem mercado, o investimento privado recua, a produtividade não sobe e o crescimento vira espasmo dependente de choques externos.
Planejar o desenvolvimento da Bahia, portanto, exige recolocar a demanda e o trabalho no centro — não como retórica, mas como engenharia econômica. Isso implica uma agenda combinada: (1) aumento sustentado do emprego formal e da renda do trabalho, com qualificação, estímulo à formalização e políticas ativas para juventude e mulheres; (2) investimento público e coordenação de projetos com alto efeito multiplicador territorial — infraestrutura logística, saneamento, habitação, mobilidade e digitalização — reduzindo custos sistêmicos e ampliando produtividade; (3) política industrial e de serviços por cadeias, para adensar fornecedores locais e transformar consumo em produção, evitando que a expansão da demanda “vaze” para importações; (4) transição energética industrializante, para que renováveis sejam também plataforma de manufatura, manutenção, serviços tecnológicos e novas soluções; (5) fortalecimento do complexo econômico da saúde, articulando compras públicas, universidades e empresas para reduzir dependência externa e criar empregos qualificados.
Nada disso prescinde de responsabilidade fiscal; ao contrário, é o caminho mais consistente para sustentá-la. Crescimento com emprego amplia base tributária, reduz despesas sociais emergenciais e estabiliza finanças públicas. O ponto kaleckiano é que a austeridade cega, ao comprimir demanda, pode piorar o próprio equilíbrio fiscal ao derrubar atividade e arrecadação. A boa política é anticíclica: protege renda e investimento em baixa, e organiza regras e prioridades em alta.
O segredo do crescimento sustentável na Bahia — como já vimos — não está em esperar que o investimento privado apareça “por gravidade”. Ele nasce quando há mercado, previsibilidade e oportunidade de lucro produtivo. E mercado se constrói com inclusão e massa salarial crescente. Quando o trabalhador ganha e consome, a economia gira; quando o empresário vê demanda, investe. Planejar é transformar essa engrenagem em estratégia de Estado: pleno emprego, produtividade e redução estrutural das desigualdades.