

A morte de um psicólogo negro, ocorrida dias após a um episódio de constrangimento e deslegitimação vivido em um camarote durante o Carnaval de Salvador, reacendeu um debate urgente sobre racismo estrutural, abuso de poder e adoecimento psíquico da população negra, inclusive entre profissionais da saúde mental.
Segundo informações amplamente divulgadas e relatos de pessoas próximas, o psicólogo esteve presente em um camarote privado da capital baiana, espaço marcado historicamente por hierarquias sociais, raciais e econômicas. Após o episódio — descrito por testemunhas como situação de desrespeito, constrangimento e questionamento de pertencimento — o profissional apresentou sinais de profundo abalo emocional. Dias depois, ele cometeu suicídio.
É importante registrar: não há confirmação oficial de que um único episódio tenha sido o fator determinante. Especialistas reforçam que o suicídio é resultado de processos complexos e acumulativos, e não de um evento isolado. “Ainda assim, o caso expõe como a violência simbólica cotidiana pode ser o gatilho final de uma dor antiga”, afirma o doutor Márcio Barbosa, professor universitário e palestrante sobre políticas afirmativas para pessoas pretas.
Racismo também adoece quem cuida
O caso provoca uma reflexão dura: se um psicólogo — alguém com formação, acesso à informação e instrumentos técnicos para lidar com o sofrimento psíquico — chegou a esse limite, o que dizer de quem enfrenta o racismo diariamente sem qualquer acompanhamento?
Estudos do Ministério da Saúde e de entidades como o Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam que:
*Pessoas negras são maioria entre as vítimas de violência letal no Brasil;
*A população negra tem menos acesso a cuidados em saúde mental;
*O racismo é reconhecido como determinante social de saúde, associado a depressão, ansiedade, ideação suicida e adoecimento crônico.
Na Bahia, estado com maior população negra do país, mais de 90% das vítimas de homicídio são negras, e Salvador, apesar de ser símbolo da cultura afro-brasileira, segue reproduzindo dinâmicas de exclusão, seletividade e silenciamento.
“Não é fragilidade individual, é estrutura”
O publicitário, professor, doutor e palestrante Márcio Barbosa, referência em comunicação, políticas públicas e relações raciais, afirma reiteradamente em seus estudos e palestras que: “O racismo no Brasil não é apenas uma questão moral ou cultural. Ele é um projeto estrutural que produz adoecimento, desigualdade e morte. Quando um corpo negro adoece, a sociedade costuma individualizar a dor, quando na verdade ela é coletiva e política.”
Para Márcio Barbosa, casos como esse demonstram o fracasso de uma sociedade que ainda nega o impacto psicológico do racismo, inclusive em espaços que se vendem como inclusivos, como eventos culturais e camarotes “afro-friendly”.
Políticas públicas: avanços que ainda não bastam
O Brasil possui políticas públicas voltadas à população negra que representam conquistas históricas, mas que ainda enfrentam descontinuidade, subfinanciamento e resistência institucional, entre elas:
Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN)
→ Reconhece o racismo como fator de adoecimento e orienta o SUS a combatê-lo
Estatuto da Igualdade Racial (Lei nº 12.288/2010)
→ Garante direitos nas áreas de saúde, educação, trabalho, cultura e justiça
Políticas de Ações Afirmativas
→ Cotas raciais no ensino superior e concursos públicos
Plano Juventude Negra Viva
→ Enfrentamento da violência letal contra jovens negros
Campanhas de enfrentamento ao racismo institucional
→ Ainda pouco efetivas na prática cotidiana
Apesar desses instrumentos, especialistas alertam: não há política eficaz sem mudança cultural, responsabilização e escuta real.
Salvador: maioria negra, poder branco
O caso do psicólogo escancara uma contradição histórica: como uma cidade majoritariamente preta pode ser tão hostil aos seus próprios corpos negros? Em Salvador, a negritude é celebrada no palco, na música e no turismo, mas frequentemente barrada nos espaços de prestígio, decisão e poder. O episódio vivido pelo psicólogo não é exceção — é sintoma. “Sua morte não pode ser tratada como nota de rodapé ou tragédia individual. Ela exige memória, responsabilidade e mudança”, concluiu.
Quem é Márcio Barbosa
Publicitário, designer e professor adjunto de Comunicação e Linguagem na UFRB, Marcio Barbosa possui sólida atuação como pesquisador e consultor em comunicação, cultura urbana e relações étnico-raciais. É autor de artigos e do livro Marcas da Rua: experiências decoloniais de consumo no hip-hop, obra vencedora do 1º lugar no prêmio da Editora UFMG para as melhores teses de doutorado do país. Com experiência executiva como empresário no setor de comunicação e marketing digital, é idealizador e apresentador do podcast AfroDivergentes e do canal NegoDoutor no YouTube. Atua como palestrante e mentor em afroempreendedorismo, diversidade e inclusão, educação antirracista e desenvolvimento de marcas com propósito, articulando estratégias de comunicação com reflexões sobre os impactos do racismo na saúde mental, no clima organizacional e nas relações de consumo.



