

Era carnaval e, quando eles chegaram, a avenida já estava cheia. Um pequeno afoxé passava e veio a vontade de seguir o ritmo cadenciado do ijexá. Mas não, a festa estava apenas começando e era hora de sentar no Bar de Benvenuto, aos pés do Relógio de São Pedro, e beber a primeira cerveja do dia. Alguém sugeriu ir à concentração do Bloco do Jacu, que afinava os instrumentos e a alma num hotel no Corredor da Vitória. Benvenuto, todavia, era o portal do carnaval, por onde passava a cidade inteira – pelo menos aquela que interessava.
Eles ficaram ali, curtiram o som de um trio elétrico, talvez o Tapajós, e depois, quando passou o Jacu, foram atrás. Mas não por muito tempo, adiante dobraram à esquerda, no Beco de Maria Paz, que, muito mais que uma viela de passagem, era um ponto de encontro e, por isso, era preciso achar uma barraca para beber uns tragos antes de ir para o Raso da Catarina.
Na rua Carlos Gomes, pertinho da Avenida Sete, o Raso da Catarina era mais que um bar, era uma instituição, o point da boemia intelectual de Salvador, e reunia artistas, escritores, jornalistas, professores, estudantes e todos que amavam o carnaval. A festa inteira passava pelo Raso da Catarina, no sentido de retorno, voltando da Praça Castro Alves e, de tal modo, que o Bloco do Jacu, que eles seguiram, passaria de volta no Raso com a travesti Valéria na qualidade de rainha e Walter Queiroz a cantar: “Vista sua mortalha de azul-turquesa, que beleza, que beleza.
O Raso da Catarina era um bar de conversa, mas, a cada momento, a música entrava no recinto sem permissão. Como no dia em que uma acalorada discussão sobre política foi interrompida por um som inimaginável: Tum, tum, tum, tum! Era o trio elétrico do Papa-Léguas tocando a 5ª Sinfonia de Beethoven, para deleite da multidão. Ou quando uma ciumenta DR de casal terminou com um beijo, ao som do trio elétrico de Armandinho, Dodô e Osmar tocando o Bolero, de Ravel.
Essa DR provavelmente voltou no dia em que passou um trio elétrico que, junto com a banda, trazia uma dançarina – loura de cabelos crespos e usando só um pequeno short e com o resto do corpo levemente pintado – que enlouqueceu a avenida e tornou-se musa do Gera Samba.
No Raso da Catarina tudo podia acontecer. O trio trocava o axé pela música clássica, o poeta declamava versos, o professor lecionava, o político discursava e todos bradavam contra a ditadura. A amizade florescia e os casais amavam-se, desamavam-se e voltavam a se amar. Ali, parafraseando Drummond, João amava Teresa, que amava Maria, que amava Joaquim, que amava Lili, que iria casar com J. Pinto Fernandes, que não gostava de carnaval.
Foi então que eles perceberam que era preciso passar na barraca de Juvená, encastelada no topo da Ladeira da Montanha, e beber o necessário para assistir, sob a proteção do poeta, ao maravilhoso encontro de trios.
Publicado no jornal A Tarde em 22/01/2026