

Cercada por estigmas e desinformação, a hanseníase – que tem um cenário de alta endemicidade na Bahia – é uma doença infectocontagiosa crônica causada pela bactéria Mycobacterium leprae (Bacilo de Hansen). Conhecida popularmente como lepra, a enfermidade tem cura, possui tratamento eficiente oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e, quando diagnosticada precocemente, não deixa sequelas, como perda de sensibilidade, fraqueza muscular e deformidades em mãos, pés e olhos, podendo levar à cegueira e incapacidade física, o que impacta na qualidade de vida do paciente.
De acordo com o infectologista e consultor do Sabin Diagnóstico e Saúde, Claudilson Bastos, a doença afeta, principalmente, a pele e os nervos periféricos, mas pode se manifestar também nos olhos, nariz, mãos, braços, costas, pés e pernas. Os sintomas costumam surgir de forma gradual e lenta e incluem manchas claras, avermelhadas ou amarronzadas na pele, geralmente acompanhadas de alteração ou perda de sensibilidade ao toque, ao calor ou ao frio. “O paciente pode apresentar ainda sintomas como formigamentos, fisgadas, diminuição da força muscular, redução do suor em algumas áreas do corpo e presença de nódulos”, informa.
Dados do relatório epidemiológico 2025 da Organização Mundial de Saúde, divulgado em setembro, mostra que o Brasil registrou 22.129 novos casos em 2024, uma redução de 2,8% em relação a 2023. Apesar disso, o país permanece como o segundo com maior número absoluto de notificações, atrás apenas da Índia, com 100.957 novos casos.
Na Bahia, as notificações de hanseníase – que tem o dia de combate lembrado no último domingo de janeiro (25/01) – aumentou nos últimos dois anos: foram 1.746 casos, em 2025, contra 1.652, em 2024, um crescimento de 5,38%, de acordo com a Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab). Ainda conforme o órgão, a hanseníase é considerada de alta endemicidade no estado, está presente em todas as regiões e é associada à pobreza e ao acesso precário à moradia, alimentação e educação. Os municípios que mais registraram ocorrências foram Salvador, Juazeiro, Alagoinhas, Feira de Santana, Barreiras, Porto Seguro e Barra. A maior incidência é no público masculino, com 52% das notificações, embora venha aumento a detecção em menores de 15 anos.
Propagação da doença
A transmissão da hanseníase, conforme o infectologista Claudilson Bastos, ocorre por meio de gotículas de saliva e secreções, liberadas na fala, tosse ou espirro de pessoas infectadas que ainda não iniciaram o tratamento. “É importante destacar que a doença não é transmitida por abraços, apertos de mão, compartilhamento de talheres, roupas ou objetos de uso pessoal, mas por via respiratória, a partir de um convívio próximo e prolongado com o indivíduo doente”, esclarece ele, destacando que a enfermidade tem um controle difícil, porque a incubação da Mycobacterium leprae é longa, podendo se manifestar no indivíduo de 7 a 8 anos após o contato com a bactéria.
Ainda conforme o especialista, a principal recomendação para prevenir e evitar o agravamento da doença é procurar os postos de saúde ou hospitais de referência ao perceber qualquer sintoma suspeito, além de investigar contatos próximos de pessoas diagnosticadas com hanseníase, garantindo o acompanhamento adequado.
O diagnóstico é feito por profissionais de saúde, com base na avaliação clínica das lesões de pele e da sensibilidade. O tratamento, realizado com antibióticos, é eficaz e pode durar de seis a 12 meses, a depender da forma da doença, que pode ser classificada como paucibacilar, caracterizada com até cinco lesões de pele, e multibacilar, acima de cinco lesões. Após o início do tratamento, a pessoa deixa de transmitir a hanseníase, não sendo necessário isolamento social ou afastamento do convívio familiar.
Mitos que cercam a hanseníase
Entre os principais mitos que cercam a hanseníase estão a ideia de que a doença é hereditária ou que exige isolamento social. “A hanseníase tem cura, não é hereditária e não exige afastamento da família ou do convívio social após o início do tratamento”, afirma o consultor do Sabin, acrescentando que a informação correta é uma aliada essencial no combate à hanseníase, contribuindo para o diagnóstico precoce e a quebra de preconceitos que cercam a doença.