terça, 20 de janeiro de 2026
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O QUE ESPERAR DA INFLAÇÃO DE SERVIÇOS EM 2026? PREÇOS DEVEM DESAFIAR O IPCA

João Paulo - 20/01/2026 08:20 - Atualizado 20/01/2026

O preço dos serviços, que foi um dos principais entraves para a desaceleração da inflação em 2025, deve seguir pressionado ao longo de 2026. De acordo com análise do economista Matheus Dias, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), o setor continuará registrando altas, impulsionado pelo mercado de trabalho aquecido e pelo aumento da renda disponível das famílias brasileiras.

Apesar desse cenário, Dias ressalta que não há expectativa de alívio suficiente nos preços de serviços para permitir uma convergência mais rápida da inflação geral à meta. Isso reduz o espaço para que o Banco Central promova cortes mais intensos na taxa básica de juros, a Selic, no curto prazo.

Segundo o economista, o impacto dos serviços sobre o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) — que mede a inflação oficial do país — tende a ser compensado por outros componentes do índice. Assim, enquanto os preços dos serviços permanecem elevados, outros grupos devem apresentar trajetória de queda, ajudando a conter a inflação agregada.

Mercado de trabalho e renda seguram alta

Para 2026, a principal hipótese é de que os preços de serviços continuem sob pressão. O fator primordial para esse comportamento é o nível de desemprego baixo, que resulta em um número maior de pessoas com renda e, consequentemente, em uma atividade econômica mais intensa.

De acordo com Matheus Dias, essa dinâmica pressiona diretamente o grupo de serviços. “É uma inflação que está relacionada à atividade econômica. Se a gente for destrinchar, a gente vai ver que a alimentação fora do domicílio ficou pressionada ao longo de todo o ano, mesmo com a inflação de alimentos em desaceleração. Isso tem relação com a sofisticação do consumo devido ao aumento da renda”, avalia.

Outros itens que compõem a inflação de serviços e que podem mostrar a dinâmica dos preços ao longo do ano são passagem aérea, turismo e hospedagem. Segundo Dias, a variação registrada em 2025 mostra que, com mais dinheiro no bolso, muitas pessoas procuraram viajar. Isso refletiu em aumento de 7,85% no acumulado do ano em passagem aérea; 9,61% em hospedagem e 7,09% em pacotes turísticos.

Juro alto e a inflação de serviços

Embora os brasileiros estejam com “o bolso mais cheio”, a taxa básica de juro, atualmente em 15%, ainda foi um fator impeditivo para o sonho da casa própria. Segundo Dias, mais pessoas se mantiveram em contratos de aluguel e, com maior procura, a inflação deste item acumulou alta de 6,97% em 2025.

Consertos e manutenção também tiveram alta, possivelmente porque os brasileiros preferiram consertar e manter o que já tinham em vez de trocar os produtos. A inflação acumulada foi de 6,88% em 2025.

Isenção do IR será ‘fagulha’ para elevar preços

Além do emprego, um fator novo em 2026 deve injetar ainda mais fôlego na demanda: o aumento da faixa de isenção do Imposto de Renda (IR), que pode levar a um “choque de consumo”.

A partir deste ano, quem ganha até R$ 5 mil não vai pagar imposto de renda, e quem recebe até R$ 7.350,00 mensais terá descontos escalonados em relação ao imposto que pagava anteriormente. Antes, a isenção era para quem recebia até dois salários mínimos (R$ 3.036). A estimativa é de que 14 milhões de pessoas sejam beneficiadas, gerando um valor disponível que tende a ser direcionado para o consumo de serviços, como restaurantes, cabeleireiros e empregados domésticos, segundo Dias.

Alta expressiva nos transportes por aplicativo

Os dados de 2025 mostram a base elevada de onde o setor parte. O item Transporte por aplicativo foi o grande destaque, com uma alta acumulada de 56,08% no ano. Esse aumento é atribuído à forte demanda, reajustes de taxas pelas empresas e custos de combustíveis.

Segundo Dias, o aumento do transporte por aplicativo também está relacionado ao mercado de trabalho e à renda em alta. Isso porque, com mais oportunidades de emprego estável, quem está na informalidade e pretende sair deste perfil de trabalho pode migrar com mais facilidade, diminuindo a oferta de motoristas disponíveis. Por outro lado, há maior demanda, porque mais pessoas podem pagar pela comodidade de usufruir do transporte por aplicativo. Considerando que em 2026 é esperado que o mercado de trabalho siga em alta, e haverá oportunidades de maior renda, a tendência é que este item siga com os preços elevados.

O que esperar para 2026

Com a inflação de serviços fechando 2025 em alta, o brasileiro pode preparar o bolso para pagar as despesas de início de ano, que devem pesar no orçamento em geral.

O primeiro semestre costuma ter gastos com educação, e o IPCA de serviços mostra que cursos regulares subiram 6,54% em 2025. Serviços médicos e dentários, além de despesas com turismo e férias, também pressionam o início do ano. Eventos específicos, como a Copa do Mundo, podem gerar picos temporários em bares, restaurantes e transportes por aplicativo próximo às datas dos jogos, mas o economista acredita que será um efeito pontual, qie deve se diluir ao longo do ano, sem pesar no IPCA geral.

Embora os serviços continuem em patamares elevados, o cenário para o IPCA geral em 2026 aponta para uma convergência gradual à meta. Em parte, segundo Dias, devido aos preços de bens e produtos. O economista afirma que a importação de produtos, principalmente da China, tem sido um fator determinante para manter os preços de certas mercadorias em patamares mais baixos.

Projeções

A projeção da FGV-Ibre para o fim de 2026 é de um IPCA de 3,9%. No entanto, Matheus Dias alerta que os serviços não devem ajudar nesse processo de queda. “Os serviços não vão ajudar a inflação a cair. Não vai ter alívio suficiente nos serviços para que a gente tenha uma convergência mais rápida para a meta”.

A manutenção dessa pressão pode influenciar o ritmo de queda da Selic. A expectativa é que os cortes na taxa de juros comecem no primeiro trimestre de 2026, com a taxa encerrando o ano entre 12,5% e 13%.

O cenário ainda pode ser alterado por fatores externos e incertezas políticas. Eventos geopolíticos que afetem o preço do petróleo e a volatilidade do câmbio em ano eleitoral são pontos de atenção que podem impactar os preços monitorados e a inflação como um todo, alerta o economista.

 

(Foto: Jakub Żerdzicki /  Unsplash)

 

 

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