quinta, 15 de janeiro de 2026
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TRUMP COMPLETOU UM ANO DE MANDATO COM MUITA POLÊMICA E A CHINA MAIS FORTE MUNDIALMENTE

João Paulo - 15/01/2026 09:40

A eleição de Donald Trump para seu segundo mandato à frente da Casa Branca completou um ano no dia 06 de novembro de 2024 e marcou um novo momento para política e economia mundial.  Uma campanha entoada, mais uma vez, pelos lemas patrióticos “Faça a América Grande de Novo” e “América primeiro”, mas a opinião de cidadãos ao redor de um mundo cada vez mais multipolar sugere que, um ano após a vitória do republicano, os efeitos provocados pela liderança de Trump em Washington têm surtido efeito contrário.

Os números coletados na pesquisa de opinião pública global do Conselho Europeu de Relações Exteriores (ECFR) divulgada hoje mostram que a China reúne mais confiança de que aumentará sua influência internacional que os Estados Unidos. E que, diante das ameaças do presidente americano, as relações internacionais e a ordem global têm se reconfigurado, permitindo a abertura de mais espaço e poder para o Oriente e outros países, além de uma separação mais clara da tradicional aliança transatlântica entre os EUA e a Europa.

O estudo foi realizado em novembro de 2025, um ano após a vitória de Trump, e entrevistou 25.949 pessoas em 21 países, entre 15 europeus (Alemanha, Bulgária, Dinamarca, Espanha, Estônia, França, Hungria, Itália, Polônia, Portugal, Rússia, Suíça, Turquia, Ucrânia e Reino Unido) e seis não europeus (África do Sul, Brasil, China, Coreia do Sul, Estados Unidos e Índia).

Os resultados mostram que as pessoas em todos os países selecionados acreditam que a influência da China vá crescer na próxima década. Pelo menos 50% dos britânicos, os mais céticos, creem no avanço chinês, e somente na Ucrânia e na Coreia do Sul a maioria vê a China como rival ou adversária. Entre os BRICS, a visão de Pequim como aliada ou parceira necessária ultrapassa os 73% (Brasil), chegando a 85% na África do Sul e 86% na Rússia. Já 47% dos indianos pensam da mesma forma.

Em quase todos os lugares onde a pesquisa foi realizada, a maioria das pessoas consideram que as relações de seus países com a China vão se fortalecer ou permanecer fortes, com exceção da Ucrânia, que alimenta um histórico de frustração com Pequim diante da neutralidade que o país asiático assumiu perante o conflito com a Rússia. Para Kiev, a decisão dos chineses de não tomar partido claro na Guerra da Ucrânia e manter parceria comercial com Moscou, contrariando as sanções internacionais, favorece o adversário. Em contrapartida, apenas uma minoria acredita que os EUA ganharão mais influência, enquanto na China, Rússia, Ucrânia e nos próprios EUA, uma em cada quatro pessoas espera que o poder americano diminua.

No caso dos americanos, o analista de dados e pesquisador sênior do ECFR, Pawel Zerka, atribui essa percepção ao eleitorado democrata, que acredita no fracasso de Trump, mas também a republicanos que “estão acostumados com a compreensão de como é construída uma influência global”. Segundo ele, na perspectiva democrática, esse poder estaria relacionado com a manutenção de parceiros confiáveis e a existência de instituições internacionais, neste caso, sob a liderança americana.

“Trump está levando à marginalização dessas instituições multilaterais, destruindo muitas alianças, traindo seus aliados, ameaçando-os, (…) não me surpreenderia se eles [os americanos] concluíssem que as ações dele estão levando a uma América mais fraca globalmente”, disse ao GLOBO.

Ainda assim, muitos acreditam que os EUA vão manter sua influência. Para os autores da pesquisa, isso pode refletir uma “nova concepção de poder global, com os EUA atuando apenas como uma grande potência em um mundo pós-ocidental”.

O estudo destaca ainda que a mudança de poder nos EUA parece estar “minando a afinidade” das pessoas com o país. Houve uma queda notável entre europeus, onde apenas 16% das pessoas consideram hoje os EUA como um aliado, em comparação aos 21% do fim de 2024, e 20% deles veem Washington como rival ou inimigo. Além disso, 23% dos europeus entrevistados consideram que as relações de seus países com os EUA vão enfraquecer nos próximos 5 anos, enquanto 14% pensam o mesmo sobre os laços com Pequim.

Mundo multipolar

O estudo confirma que a opinião pública global não enxerga mais uma ordem baseada numa disputa bipolar ideológica pela influência mundial. A pesquisa ressalta que a consolidação do poder americano como uma potência transacional “normal” e o estabelecimento da China como gigante equivalente fomentam a expectativa de pessoas fora do Ocidente tradicional por mais espaço para seus próprios países crescerem. 
“Para elas, o mundo multipolar parece ser composto por muitas potências, grandes e pequenas, com os EUA e a China como as duas superpotências — mas com outras mais livres para transitar entre os polos como desejarem”, diz Zerka.

A pesquisa revela que a maioria dos brasileiros, sul-africanos, turcos e russos concorda que é “realisticamente possível” manter um bom relacionamento com Washington e Pequim ao mesmo tempo, visão que prevalece na Índia (42%) e na Coreia do Sul (43%). Quando questionados sobre qual dos dois países escolheriam se fossem forçados a fazê-lo, muitos afirmaram que optariam pela China. O levantamento também mostra que, na maioria dos países, as pessoas reduziram suas expectativas em relação a Trump. Menos pessoas avaliam que ele é bom para os americanos, para seus próprios países e para a paz mundial, transformando um cenário de ampla aceitação em um de ampla crítica ao republicano.

Assim como no caso chinês, são poucos os países onde a maioria avalia os EUA como rival ou adversário, apenas na China (70%) e na Rússia (63%). No Brasil, proporções semelhantes veem a China como aliada (27%) da mesma forma que veem os Estados Unidos (26%). — Se há algo que caracteriza a visão pública dos brasileiros sobre assuntos globais em comparação com os outros é que eles são os que mais confiam na capacidade de manter relações tanto com a China quanto com os EUA. (…) O país se sente bem preparado para um mundo de transacionalismo — avaliou Zerka. O especialista relembrou que os dados foram coletados antes dos ataques americanos à Venezuela, mas acredita que a opinião dos brasileiros sobre os EUA após esse evento já tenha mudado ou poderá mudar nos próximos meses.

Europa muda de figura

Conforme o poder global se reconfigura, a percepção sobre a Europa também sofre modificações. Muitos países, com destaque para China (55%) e Brasil (53%), passaram a enxergar mais diferenças entre a política europeia e a americana. A mudança mais drástica foi percebida entre os russos que, além de considerarem menos os EUA como adversários (37%) em relação a 2024 (48%) e 2023 (64%), agora são menos simpáticos à Europa. Já os ucranianos confiam mais na UE e menos nos EUA ao buscar garantias de proteção contra Moscou: 39% consideram a UE como aliada — 4% a mais que em 2024 —, contra 18% que pensam o mesmo sobre os EUA, uma queda de 9% em relação ao ano anterior.

Entre os europeus o cenário é de pessimismo com a apropriação e cristalização de seu próprio poder diante desta nova configuração global. Eles estão entre os que menos confiam na força da UE e a maioria deles não acredita que o bloco seja uma potência capaz de negociar em pé de igualdade com os EUA ou a China. O estudo destaca que “as visões agressivas e desdenhosas de Trump e Putin” podem estar entre os principais fatores que moldam essa percepção, além do medo diante das ameaças russas, de uma guerra europeia e de conflitos nucleares, e da falta de clareza das lideranças que “sabem que a relação transatlântica acabou”, mas seguem relutantes em sair da zona de conforto, onde, segundo Zerka, “talvez tenham ficado tempo demais”.

“A reeleição de Trump é um divisor de águas para os europeus, forçando-os a pensar de forma mais ambiciosa sobre si mesmos, mas eles têm dificuldades. Isso os força a adotar uma posição muito humilhante em relação aos EUA que, sob Trump, são pouco confiáveis. Mas ainda precisamos manter boas relações com Washington, porque precisamos deles”.

Donald Trump e Xi Jinping — Foto: Bloomberg

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