

A região Nordeste está sendo preterida no tocante a instalação de usinas solares centralizadas. Isso porque 507 unidades desse tipo que planejavam ficar na região pediram à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) a revogação de suas outorgas.
De acordo com informações do site Movimento Econômico, a soma das potências instaladas previstas de 506 usinas chega a cerca de 22 gigawatts (GW), excluindo uma das revogadas que não declarou essa informação.
O que equivale a aproximadamente uma vez e meia a potência instalada de uma das maiores hidrelétricas do mundo, a binacional Itaipu que tem 14 GW. A potência instalada indica o quanto poderia ser gerado pelos empreendimentos em condições ideais, caso fossem implantados. O pedido de revogação indica que os empreendedores desistiram da implantação dessas geradoras.
Os cortes de geração – e a imprevisibilidade que isso trouxe às empresas – que penalizaram as renováveis da região são os principais responsáveis por esta situação, segundo quatro executivos que acompanham o setor elétrico. O levantamento da quantidade de usinas foi realizado pela equipe técnica da Aneel a pedido do Movimento Econômico.
Segundo a agência, ocorreu uma “Corrida do Ouro” e muitos empreendedores pediram essa outorga num período que dava desconto nas tarifas das linhas de transmissão “sem a viabilidade econômica comprovada”. Esse desconto foi dado para quem pediu a outorga até 2 de março de 2022. Ainda por nota, a Aneel informou que “posteriormente, muitos empreendedores enfrentaram dificuldades para viabilizar os projetos, em razão de fatores como restrições de escoamento na rede (falta de linhas de transmissão), curtailment (corte de geração) e excesso de oferta de geração em relação à demanda (consumo) atual do país”.
“A outorga é o primeiro passo para um empreendimento de geração nascer”, explica o fundador e CEO da Volt Robotics, Donato da Silva Filho. Com a revogação da outorga, as empresas deixam de ter a obrigação de implantar as usinas, embora já tenham gastos recursos no desenvolvimento dos projetos e levantamento de algumas informações, valores considerados pequenos diante dos grandes investimentos necessários à implantação das geradoras.
Na opinião de Donato, o grande prejudicado com essa grande quantidade de usinas revogadas é o Nordeste que vai perder a implantação de empreendimentos que iriam demandar investimentos, gerar empregos (principalmente na instalação das usinas) e aquecer a economia local – por exemplo, com refeições, alugueis, entre outros serviços adquiridos -, nos locais onde estes projetos seriam instalados. “Alguém sonhou em implantar um projeto e este sonho foi anulado”, comentou Donato.
Com isso, “o Nordeste perde uma grande oportunidade por falta de uma coordenação estrutural. Vai diminuir o ritmo de crescimento das renováveis na região”, afirmou Donato, dizendo que já ocorre uma migração das eólicas para o Sul – que, segundo ele, tem ventos menos favoráveis que os do Nordeste, mas tem rede para escoar a energia – e das solares para Goiás, no Centro-Oeste, embora aquele estado também enfrente cortes de geração.
Ainda de acordo com informações da Aneel, foram revogadas as seguintes outorgas de usinas solares centralizadas por estado: 158 na Bahia, 129 no Piauí, 91 no Rio Grande do Norte, 67 no Ceará, 28 na Paraíba, 22 em Pernambuco, oito em Sergipe e quatro no Maranhão. O único estado da região que não teve revogação de outorgas a pedido das empresas foi Alagoas.
Imprevisibilidade
Donato atribui a desistência das usinas solares não apenas aos cortes de geração de energia renovável, mas também a imprevisibilidade que eles trouxeram. “Hoje, os cortes têm uma classificação. E essa classificação não é auditável pelas empresas. Não é previsível de quanto vai ser o corte, por que razão vai ocorrer, quanto tempo vai durar. E isso traz muitas incertezas, inclusive sobre a receita dos projetos”, resumiu Donato.
No ano passado, o Brasil desperdiçou cerca de 20% da energia que poderia ter sido gerada pelas renováveis devido aos cortes de geração numa estimativa feita pela Volt Robotics. Isso implicou numa receita menor do que a prevista, principalmente nas usinas eólicas e solares instaladas no Nordeste.
“Não há segurança com relação aos valores a serem ressarcidos devido aos cortes de geração”, argumentou Donato, acrescentando que as incertezas trazem riscos “imprecificáveis” às empresas. E isso, explicou, dificulta a aprovação dos investimentos e a captação de recursos.
Atualmente, os representantes das usinas eólica e solares tentam concluir um termo de compromisso, definindo um acordo para o ressarcimento dos cortes de geração, mas ainda não há um entendimento sobre todos os tipos de cortes de geração.
Foto: Marketing BYD Auto do Brasil.