

Abrir uma porta, pegar a própria água, permanecer em uma atividade até o fim ou encontrar novas formas de se comunicar. Ações que fazem parte da rotina podem representar importantes conquistas no processo de desenvolvimento da autonomia da pessoa com deficiência. Na Apae de Salvador, esses avanços também passam pelo trabalho dos educadores sociais, profissionais que têm sua atuação reconhecida neste sábado, 19 de setembro, quando é celebrado o Dia do Educador Social.
Por meio de atividades que dialogam com o cotidiano e a realidade de cada pessoa atendida, os educadores trabalham aspectos que vão desde a autonomia e a convivência até o fortalecimento dos vínculos e o desenvolvimento do senso crítico. O processo envolve estímulos constantes e estratégias adaptadas às diferentes necessidades encontradas em sala.
Educador Social de Artes da Apae de Salvador, Juca Bahiense explica que aproximar as atividades de situações concretas é uma das bases desse trabalho. “O educador social trabalha as atividades propostas abordando o cotidiano, a realidade e o contexto social, por meio de provocações e estímulos múltiplos. Partimos do que é concreto e próximo a eles com o intuito de fortalecer vínculos e fomentar o senso crítico”, afirma.
Autonomia construída no cotidiano
Na prática, um dos principais focos de atuação é incentivar cada pessoa a fazer, dentro de suas possibilidades, aquilo que muitas vezes alguém acaba fazendo por ela. Para Juca, desenvolver essa independência exige estímulo contínuo e também a participação das famílias.
“Trabalhamos tudo com o viés da autonomia. É necessário estimulá-la constantemente. Muitas vezes, na intenção de ajudar, as atividades do dia a dia acabam sendo facilitadas e a pessoa deixa de ser incentivada a realizá-la sozinha. Por isso, é importante que o trabalho desenvolvido aqui tenha continuidade também em casa”, explica.
Esse processo pode estar presente em ações aparentemente simples, como assumir pequenas responsabilidades domésticas, aprender a se orientar nos espaços, cuidar dos próprios pertencentes ou desenvolver comportamentos que ampliem a participação na vida social.
O educador conta que uma das experiências que mais o marcaram nos últimos anos foi acompanhar a evolução de uma pessoa atendida que, inicialmente, permanecia por poucos minutos em sala. Aos poucos, ela passou a participar da oficina de Musicalização conduzida pelo profissional.
“Quando cheguei, ele foi sendo inserido na minha oficina. Hoje, dois anos depois, é um dos últimos a sair, relaciona-se muito bem com todos e, apesar de não verbalizar, transmite com muita clareza o que quer dizer. Antes, não conseguia mexer na maçaneta da porta. Hoje, abre e fecha sozinho, pega a própria água e conquistou outras formas de autonomia”, relata Juca.
Para o educador, a história também evidencia que os resultados não são fruto de uma atuação isolada. “Tenho esse caso como balizador do sucesso de um trabalho que é feito em conjunto. Ninguém trabalha sozinho. Existe uma equipe muito coesa, que troca experiências e conhecimentos e está o tempo todo estudando novas formas, melhores e mais afetivas de trabalhar com o nosso público”, destaca.
Vínculo e confiança
A atuação do educador social também envolve desafios que ultrapassam a realização das atividades planejadas. Como as turmas são heterogêneas, uma mesma proposta pode exigir diferentes estratégias de abordagem e comunicação. A mediação de conflitos e a construção de relações de confiança também fazem parte da rotina.
“Os usuários se sentem à vontade para desabafar e nos veem como um ponto de confiança”, conta Juca. Para ele, esse vínculo ajuda o profissional a compreender as particularidades de cada pessoa e encontrar caminhos que favoreçam sua participação nas atividades e no convívio coletivo.
O trabalho desenvolvido na APAE Salvador envolve ainda uma atuação integrada entre profissionais e familiares. A proposta é que habilidades estimuladas durante as atividades possam encontrar espaço também fora da instituição, fortalecendo gradualmente a autonomia em diferentes situações da vida.
“Temos nas famílias um apoio muito importante. Prezamos para que esse trabalho seja contínuo, seja na autonomia, na delegação de responsabilidades em casa, no comportamento na rua ou na orientação espaço-temporal. Essa continuidade faz diferença”, conclui Juca.
Foto Divulgação APAE de Salvador