

Documentos da investigação sobre o Banco Master indicam que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro teria recebido informações consideradas confidenciais de integrantes do Banco Central e utilizado esses dados em meio às dificuldades enfrentadas pela instituição.
Os detalhes aparecem em um relatório da Polícia Federal elaborado a partir de informações encontradas no celular de Vorcaro. O material foi divulgado após o Supremo Tribunal Federal (STF) retirar o sigilo de documentos relacionados ao caso.
Segundo a PF, os investigadores encontraram, no aplicativo de notas do aparelho de Vorcaro, registros sobre uma viagem que ele faria a Abu Dhabi para se encontrar com um interlocutor.
Na mesma anotação, o ex-banqueiro teria relatado a situação do Banco Master e os problemas enfrentados pela instituição. Ele também mencionou ter recebido informações confidenciais de pessoas ligadas ao Banco Central.
O documento ainda faz referência a uma pessoa identificada apenas pela letra “G”. Conforme a interpretação apresentada pela Polícia Federal, a pessoa seria Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central.
Na anotação, Vorcaro teria registrado que Galípolo e outros integrantes da diretoria estariam sob forte pressão para tomar alguma decisão diante das cobranças relacionadas à situação do banco.
Segundo o relato encontrado pelos investigadores, a pressão envolveria também a Polícia Federal e o Ministério Público Federal (MPF), que estariam sinalizando a possibilidade de adotar medidas contra o ex-banqueiro.
Em outra anotação, intitulada “De pessoas de dentro do BCB que são meus amigos e ficaram preocupados”, Vorcaro teria afirmado que pessoas próximas a ele participaram de uma reunião e lhe repassaram informações sobre nomes e possíveis medidas.
Ainda de acordo com a PF, ele classificou essas informações como totalmente confiáveis e afirmou que não poderia revelar a identidade dessas pessoas para não prejudicá-las.
A partir dessas anotações, os investigadores passaram a procurar no celular do ex-banqueiro conversas mantidas com servidores do Banco Central.
Entre os interlocutores encontrados estavam Paulo Sérgio Neves de Souza, então chefe adjunto do Departamento de Supervisão Bancária (Desup), e Belline Santana, chefe do mesmo departamento.
A Polícia Federal destacou no relatório que o Desup é uma unidade vinculada técnica e administrativamente à Diretoria de Fiscalização do Banco Central.
Segundo os investigadores, os servidores identificados nas conversas ocupavam posições relacionadas diretamente aos processos que envolviam interesses de Vorcaro e do Banco Master.
As informações levantadas pela PF também se relacionam ao período em que o Banco Master negociava sua venda para o Banco de Brasília (BRB), no início de 2025.
A proposta estabelecia um preço equivalente a 75% do patrimônio líquido consolidado do Master, estimado em aproximadamente R$ 3,5 bilhões, com base nos números de junho de 2024.
O negócio, entretanto, dependia do cumprimento de diversas condições antes de ser concluído.
Entre os requisitos estavam a conclusão da reorganização do banco, a obtenção das autorizações necessárias do Banco Central e a aprovação dos processos de homologação dos aumentos de capital do BRB e do Master, que estavam em análise na época.
A operação também precisava passar pelas aprovações antitruste aplicáveis, incluindo as análises do CADE e do Banco Central, além de outras autorizações de órgãos de controle.
Os documentos agora públicos acrescentam novos elementos à investigação sobre as relações mantidas por Vorcaro com integrantes do Banco Central e sobre sua atuação enquanto o futuro do Banco Master era discutido com autoridades reguladoras.
Foto: Marcello Casal JrAgência Brasil