terça, 14 de julho de 2026
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MUITO ALÉM DAS QUATRO LINHAS: A HISTÓRIA DO CONFLITO ENTRE ARGENTINA E INGLATERRA PELAS MALVINAS

Igor Lima - 14/07/2026 09:25 - Atualizado 14/07/2026

O duelo entre Argentina e Inglaterra pelas semifinais da Copa do Mundo de 2026 carrega uma rivalidade histórica que ultrapassa o futebol. A disputa entre os dois países envolve também uma questão territorial relacionada às Ilhas Malvinas, tema que provoca tensão há décadas.

A polêmica voltou a ganhar destaque após a classificação argentina para a semifinal. Durante a comemoração da vitória sobre a Suíça nas quartas de final, os jogadores da Argentina entoaram uma música que faz referência ao conflito: “Pelas Malvinas, pelo Diego [Maradona] e pela última do Leo [Messi]”.

Entenda a origem da disputa entre argentinos e ingleses pelo arquipélago e por que o assunto continua gerando repercussão internacional até os dias atuais.

Com temperaturas baixas, grande quantidade de recursos naturais e situada no Atlântico Sul, a aproximadamente 600 quilômetros do litoral argentino, as Ilhas Malvinas possuem uma localização considerada estratégica.

O arquipélago tem mais de 3 mil habitantes, entre descendentes dos primeiros colonizadores que chegaram após a ocupação britânica em 1833, imigrantes e militares que vivem em uma base localizada no Monte Agradable (Mount Pleasant, como é chamado pelos britânicos).

De acordo com o Ministério das Relações Exteriores da Argentina, a história das Ilhas Malvinas começou em 1520, quando integrantes da expedição liderada pelo navegador português Fernando de Magalhães, a serviço da Espanha, teriam avistado o arquipélago durante uma viagem de exploração.

A Argentina sustenta que o arquipélago já aparecia em mapas europeus sob domínio espanhol, com base em documentos históricos como as Bulas Papais e o Tratado de Tordesilhas, firmado em 1494 entre Portugal e Espanha.

O Reino Unido, por outro lado, defende que as Ilhas Malvinas foram descobertas pelo navegador inglês John Davies em 1592, argumento utilizado para justificar sua reivindicação sobre o território.

Apesar das divergências entre os dois países, há um ponto de concordância na história: o arquipélago recebeu uma de suas primeiras denominações em 1600, quando o navegador holandês Sebald van de Weert passou pela região e chamou as ilhas de “Sebaldinas”.

Em 1692, o capitão inglês John Strong chegou ao arquipélago e batizou o canal que separa as duas principais ilhas da região como Falkland Sound (Estreito de Falkland), em referência ao Visconde de Falkland.

A presença britânica aumentou a disputa pelo território, e a Espanha passou a reivindicar a posse das ilhas, utilizando como argumento o Tratado de Tordesilhas e outros acordos firmados com o Reino Unido, como o Tratado de Utrecht, de 1713, e a Convenção de Nootka Sound, de 1790.

Apesar das reivindicações dos dois países, a primeira tentativa de colonização das Malvinas foi realizada pelos franceses. Em 1764, eles fundaram o primeiro assentamento permanente, chamado Puerto Luis, conforme registros históricos de Cisneros e Escudé.

Os colonizadores franceses eram originários de Saint-Malo e, por isso, passaram a chamar o arquipélago de Les Malouines. O nome acabou dando origem à denominação espanhola Las Malvinas, utilizada pela Argentina até os dias atuais.

A Espanha chegou a negociar com a França a transferência de Puerto Luis e passou a administrar as Ilhas Malvinas. Porém, em 1811, diante do avanço dos movimentos de independência na América Latina, os espanhóis deixaram o arquipélago.

Após a saída da Espanha, o governo das Províncias Unidas do Rio da Prata, antecessor da Argentina, passou a reivindicar os direitos territoriais herdados dos espanhóis, incluindo a posse das ilhas. Em 1820, o país declarou sua soberania sobre o território.

A disputa ganhou um novo capítulo em 1833, quando o Reino Unido expulsou o governador e a guarnição argentina que estavam instalados no arquipélago e assumiu o controle da região. Desde então, as Ilhas Malvinas permanecem sob administração britânica e fazem parte dos atuais 14 Territórios Ultramarinos Britânicos.

Desde a ocupação britânica em 1833, a Argentina mantém a reivindicação pela soberania das Ilhas Malvinas. A questão ganhou ainda mais destaque após a Segunda Guerra Mundial, principalmente com o processo de descolonização promovido pela Organização das Nações Unidas (ONU) a partir de 1960.

Com o avanço das discussões internacionais sobre territórios coloniais, o governo argentino passou a defender que as ilhas deveriam ser devolvidas ao seu controle, enquanto o Reino Unido manteve sua posição de administrar o arquipélago.

A disputa permanece sem uma solução definitiva e continua sendo um dos principais conflitos diplomáticos entre os dois países, envolvendo questões históricas, territoriais e estratégicas no Atlântico Sul.

Em 1965, a Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou a Resolução 2.065, que reconheceu oficialmente a existência de uma disputa de soberania envolvendo as Ilhas Malvinas. O documento também relacionou o caso à Resolução 1.514, que trata do processo de descolonização, e pediu que Argentina e Reino Unido buscassem uma solução por meio de negociações.

Segundo o especialista em história da Guerra das Malvinas e diretor do Observatório de Segurança e Defesa da Universidade Cema, Alejandro Corbacho, os dois países interpretam a decisão da ONU de formas diferentes.

Para os britânicos, a resolução deve ser analisada pelo princípio da autodeterminação dos povos, enquanto a Argentina defende que o caso envolve a preservação da integridade territorial, argumento baseado na mesma Carta das Nações Unidas.

A disputa pela soberania das Ilhas Malvinas chegou ao seu ponto mais grave em 1982, quando Argentina e Reino Unido entraram em guerra pelo controle do arquipélago.

O conflito teve início em 2 de abril daquele ano, quando tropas argentinas desembarcaram nas ilhas, ocuparam a capital, Puerto Argentino — chamada de Port Stanley pelos britânicos — e derrotaram a pequena guarnição britânica que estava no local.

A ação militar marcou o começo de uma guerra que durou cerca de dois meses e envolveu confrontos terrestres, marítimos e aéreos entre os dois países. O episódio ficou conhecido como Guerra das Malvinas e se tornou um dos momentos mais marcantes da disputa territorial entre Argentina e Reino Unido.

Após o início do conflito, os Estados Unidos declararam apoio ao Reino Unido, seu aliado na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Outros países, como Alemanha, Itália, França, Japão e Canadá, também demonstraram alinhamento com os britânicos.

Sob o comando da então primeira-ministra Margaret Thatcher, o Reino Unido organizou uma grande operação militar e enviou uma frota para o Atlântico Sul, incluindo dois porta-aviões, com o objetivo de recuperar o controle das Ilhas Malvinas.

O confronto se estendeu por 74 dias, marcado por intensos combates em terra, especialmente nas regiões de Pradera del Ganso — conhecida como Goose Green pelos britânicos — e Puerto Argentino, além de batalhas aéreas e navais que provocaram centenas de mortes e grandes perdas para os dois lados.

Durante o conflito, um dos episódios mais marcantes ocorreu quando um submarino britânico afundou o cruzador argentino ARA Belgrano. A aviação argentina também conseguiu atingir navios britânicos, como o HMS Sheffield e o HMS Antelope, entre outras embarcações.

A guerra terminou em 14 de junho de 1982, quando as forças argentinas em Puerto Argentino se renderam às tropas do Reino Unido, encerrando o confronto pelo controle das Ilhas Malvinas.

O conflito deixou centenas de mortos, com cerca de 650 militares argentinos e 255 britânicos mortos durante os combates.

Em 2024, o então chanceler do Reino Unido, James Cameron, realizou uma visita às Ilhas Malvinas, reforçando a presença britânica no arquipélago.

A viagem ocorreu em meio à histórica disputa de soberania entre Reino Unido e Argentina, que continua sem uma solução definitiva mesmo após décadas de negociações e tensões diplomáticas.

O presidente da Argentina, Javier Milei, chegou a abordar a questão das Ilhas Malvinas com James Cameron durante uma reunião entre os dois.

Apesar das reivindicações argentinas, o Ministério das Relações Exteriores do Reino Unido destacou o referendo realizado em 2013, no qual os moradores do arquipélago votaram amplamente pela permanência das Ilhas Falkland como território ultramarino autônomo britânico.

O resultado da consulta popular é utilizado pelo governo britânico como argumento para defender o princípio de autodeterminação dos habitantes das ilhas.

Foto: Getty Images

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