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CELSO CUNHA NETO – BAHIA FILMES: DO PIONEIRISMO À INDÚSTRIA CRIATIVA

Redação - 06/07/2026 05:00

A recente inauguração da Bahia Filmes, localizada no Edifício Oscar Cordeiro, no bairro do Comércio em Salvador, vai além do simples aspecto cultural. Este é um reposicionamento estratégico do Estado na nova economia. Como a primeira empresa pública estadual de audiovisual no Brasil, estruturada sob o modelo de sociedade de economia mista e com um investimento inicial de R$ 46 milhões, a Bahia Filmes representa a transição definitiva do cinema baiano: de um esforço artesanal e heroico para uma política pública voltada para a indústria e a rentabilidade.

O audiovisual possui um efeito multiplicador único na economia real. Cada real investido em uma produção desencadeia uma cadeia produtiva extensa e complexa que beneficia setores como hotelaria, transporte, gastronomia, marcenaria, design, contabilidade e tecnologia da informação. A nova presidência, liderada pelo cineasta e gestor Pola Ribeiro, busca atrair coproduções nacionais e internacionais, captar recursos de fundos globais e descentralizar essa injeção de capital, levando fomento a 417 municípios baianos.

A esse quadro se junta um ativo altamente lucrativo: o turismo cultural. Relatórios recentes indicam que as produções cinematográficas são atualmente os maiores impulsionadores do turismo de tela. Quando a Bahia exporta seus filmes e séries, atua como uma vitrine global constante de sua arquitetura, paisagens e identidade. O audiovisual atrai um fluxo turístico renovado, com visitantes que viajam para conhecer os cenários que viram nas telas, gerando receitas diretas para o estado.

No entanto, nenhuma indústria surge do nada. Para entender o potencial deste novo ciclo econômico, é necessário considerar os empreendedores que estabeleceram a infraestrutura inicial desse mercado. O cinema baiano foi moldado pela criatividade de pioneiros como Oscar Santana.

Ainda na década de 1960, junto com Roberto Pires, Santana fundou a Iglu Filmes, a primeira produtora organizada fora do eixo Rio-São Paulo. Em um ambiente de grande escassez, eles criaram laboratórios, adaptaram equipamentos e desenvolveram tecnologias próprias, como a lente Igluscope. Essa base técnica e empresarial possibilitou obras que projetaram a Bahia internacionalmente, como A Grande Feira (1961) e Barravento (1962). Posteriormente, com a Sani Filmes, Santana manteve viva a especialização do setor, preservando equipes e o conhecimento técnico ao longo das décadas.

Hoje, aos 91 anos, Oscar Santana é o guardião de um acervo valioso que documenta as origens dessa indústria. E é nesse ponto que a visão econômica deve se unir à responsabilidade institucional. A Bahia ainda necessita de uma cinemateca estadual bem estruturada para receber, restaurar e digitalizar acervos privados desse porte.

Um acervo histórico não preservado é um ativo perdido para o Estado. A memória audiovisual é essencial para pesquisas, documentários, reedições e exposições que geram valor econômico e cultural por si mesmas. Portanto, o sucesso da Bahia Filmes não deve ser avaliado apenas pelos valores movimentados no presente, mas também pela sua capacidade de proteger o patrimônio dos arquitetos invisíveis que construíram as bases da nossa imagem.

Celso Cunha Neto é Arquiteto e Urbanista. Critico de arte é membro da ABCA.

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