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REI DE OYÓ VISITA A BAHIA E CELEBRA LAÇOS HISTÓRICOS ENTRE BRASIL E NIGÉRIA

Matheus Souza - 02/07/2026 12:36

A presença da comitiva oficial do Reino de Oyó na abertura da 4ª Conferência Internacional LASUCAS – Cooperação Sul-Sul: Os Papéis da Nigéria e do Brasil na Promoção da Colaboração entre Economias Emergentes, realizada no dia 29, no Salão Nobre da Reitoria da Universidade Federal da Bahia (UFBA), marcou o início de uma agenda histórica de aproximação entre Nigéria e Brasil. Liderada por Sua Majestade Imperial, o Alaafin de Oyó, Ọba Akeem Abimbola Owoade I, a delegação permanece na Bahia até esse sábado, dia 4 de julho, cumprindo uma programação que reúne atividades acadêmicas, diplomáticas e culturais.

Além da participação de representantes da Associação dos Agudás (Retornados), da cidade de Oxubô e de autoridades tradicionais do Reino de Oyó, a conferência também sediou o lançamento do livro Oyó: A Cidade do Patrimônio Cultural Iorubá, resultado da cooperação técnico-científica entre a UFBA, o Palácio Real de Oyó, a Universidade Ajayi Crowther e a Universidade de Lagos. A publicação integra as ações voltadas ao reconhecimento internacional de Oyó como Patrimônio Mundial.

Um dos momentos mais simbólicos da visita aconteceu nesta quarta, 1º, quando a comitiva foi recebida na Casa de Oxumarê (Ilé Òṣùmàrè Àṣẹ Àràká Ògódò), um dos mais tradicionais terreiros de candomblé da Bahia e protagonista da aproximação institucional entre Salvador e a antiga capital do Império Iorubá, ratificando o papel fundamental que teve em empreender investidas internacionais para patrimonialização de Oyó.

Uma relação iniciada na Bahia

Embora a visita do atual Alaafin represente um novo capítulo dessa cooperação, a história dessa aproximação começou há mais de uma década. Em 2014, durante uma visita a Oyó, integrantes da Casa de Oxumarê constataram a situação de vulnerabilidade enfrentada por importantes patrimônios históricos, religiosos e culturais da antiga capital do império que difundiu a cultura iorubá por grande parte da África Ocidental e, posteriormente, pelas Américas.

A percepção despertou a mobilização do babalorixá da Casa de Oxumarê, que articulou uma ampla rede de cooperação envolvendo os principais terreiros matrizes do candomblé baiano de matriz iorubá — Casa Branca do Engenho Velho, Ilê Axé Opô Afonjá, Terreiro do Gantois e Terreiro Alaketu — além de instituições brasileiras e nigerianas, como o IPHAN, a UNESCO e o governo brasileiro.

A iniciativa resultou na criação de um intercâmbio cultural inédito entre os dois países, aproximando autoridades tradicionais, pesquisadores e órgãos de preservação patrimonial, e proporcionaram a vinda do antigo Alafin de Oyó ao Brasil. Ainda em 2014, a Bahia recebeu uma comitiva liderada pelo então Alaafin de Oyó, Olayiwola Adeyemi III, em uma visita voltada ao compartilhamento das experiências baianas na preservação do patrimônio cultural.

Esse movimento estabeleceu as bases para a construção do processo de reconhecimento do valor excepcional do patrimônio material e imaterial da cidade de Oyó, considerada o principal centro histórico da civilização iorubá. Capital de um dos maiores impérios africanos, Oyó foi responsável pela difusão da língua, das tradições religiosas, dos conhecimentos, das tecnologias e do sistema político iorubá por territórios que hoje correspondem à Nigéria, Benim, Togo e Gana. A partir do século XVI, com a diáspora africana, esse legado atravessou o Atlântico e encontrou na Bahia um de seus principais territórios de preservação.

Patrimônio compartilhado

A visita do Alaafin à Casa de Oxumarê simboliza o reconhecimento desse percurso construído coletivamente entre comunidades tradicionais dos dois lados do Atlântico. Mais do que um encontro diplomático, o momento reafirma os vínculos históricos que unem Bahia e Nigéria por meio da ancestralidade iorubá e fortalece as ações de salvaguarda de um patrimônio cultural compartilhado entre os dois países.

Para o babalorixá da Casa de Oxumarê, Sivanilton Encarnação da Mata (Babá Pecê de Oxumarê), essa relação transcende fronteiras geográficas e representa a continuidade de uma herança civilizatória. “A cultura iorubá chegou à Bahia pelas mãos dos nossos ancestrais e encontrou aqui um território de resistência, preservação e continuidade. Quando iniciamos esse diálogo com Oyó, compreendemos que preservar a antiga capital do Império Iorubá significava também proteger a memória de parte da nossa própria história. A visita do Alaafin reafirma que Bahia e Nigéria compartilham um patrimônio vivo, construído pela ancestralidade, pela espiritualidade e pelo compromisso das comunidades tradicionais em manter esse legado para as futuras gerações.”

A presença do Alaafin de Oyó na Bahia celebra uma parceria construída a partir da iniciativa de instituições culturais e religiosas baianas que reconheceram, ainda em 2014, a urgência de proteger um dos mais importantes berços da civilização iorubá, consolidando a Bahia como protagonista internacional na valorização e preservação desse patrimônio comum entre África e Brasil.

 

Foto: Acervo Casa de Oxumarê

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