

O número de demissões na Bahia atingiu um recorde este ano. Foram 326.715 trabalhadores desligados entre janeiro e abril de 2026, de acordo com o painel InfoVis, da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI) – a maior quantidade da série histórica, que tem início em 2020. O resultado reforça o avanço dos desligamentos no estado nos últimos anos. O total dos quatro primeiros meses de 2025 representa uma alta de 1,18% em relação ao mesmo período de 2025 e de 40% em relação a 2020.
Segundo Vitor Igdal, presidente da seccional Bahia da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-BA), esse aumento não significa necessariamente a deterioração do emprego, e acontece devido a uma junção de fatores: maior dinamismo do mercado formal, sazonalidade econômica e reestruturações internas das empresas. “Quando o mercado gira mais, também crescem admissões e desligamentos. Na Bahia, os dados do Novo Caged mostram saldo positivo no acumulado de janeiro a abril de 2026, com 37.959 novas vagas, apesar do volume elevado de desligamentos”, diz.
Ele menciona também uma mudança estrutural importante. É a atenção dos trabalhadores ao salário, saúde mental, liderança, flexibilidade e perspectiva de crescimento. “Isso reforça uma pauta central da ABRH Bahia: fortalecer relações humanas, porque retenção deixou de ser apenas remuneração e passou a depender de cultura, pertencimento e liderança.”
O saldo de vagas, como mencionado por Igdal, foi positivo nos primeiros meses deste ano, período em que 364.674 pessoas foram contratadas na Bahia. Há aqui, porém, outro movimento diferente dos anos anteriores: o número de admissões, que vinha apresentando uma alta consistente desde 2020 nesse mesmo período de janeiro a abril, recuou em 2026. Foram 370.361 admissões em 2025, o que equivale a uma queda de 1,5%.
Igdal enxerga esse recuo como um sinal de cautela das empresas. “O empregador está contratando com mais seletividade, buscando produtividade, eficiência e aderência cultural. Juros ainda elevados, pressão de custos, avanço da tecnologia e incertezas econômicas fazem com que muitas organizações adiem expansão de quadro e priorizem reposição ou contratação mais estratégica”, afirma.
O comércio é o ramo que mais vem sofrendo este ano, com uma perda líquida de 3.148 postos no acumulado de 2026 – o único grande grupamento com saldo negativo na Bahia. Isso acontece, de acordo com o presidente da ABRH-BA, porque este é um setor naturalmente mais sensível ao consumo das famílias, ao crédito, à inflação percebida e à sazonalidade. Dessa forma, quando há pressão sobre renda, endividamento ou custo operacional, o comércio ajusta rapidamente suas equipes.
“Além disso, o setor tem alta rotatividade, muitas funções de entrada, jornadas intensas e maior competição por trabalhadores. Isso reforça a necessidade de investir em liderança, clima, treinamento e experiência do colaborador.”A nível nacional, o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostrou que houve em 2025 um recorde de pedidos de demissão. Os dados referentes ao tipo de desligamento não estão disponíveis por estado, mas, na percepção do economista Marcelo Ferreira, a Bahia segue a tendência brasileira. Segundo ele, mesmo que exista a dificuldade de conseguir emprego, há atualmente uma mudança de paradigma: as pessoas estão criando expectativas diferentes em suas relações com o trabalho.
Segundo Ferreira, essas tendências atingem principalmente um público mais qualificado, que busca ambientes de trabalho cada vez mais alinhados com suas perspectivas e com a qualidade de vida que almejam.
“Eu acredito que as pessoas, no geral, têm esse comportamento em busca de melhores salários e benefícios mais robustos, e visam enfrentar um cenário de inflação e manter um poder de compra. A pandemia trouxe muito a experiência do trabalho remoto, do home office, do trabalho híbrido, e algumas empresas querem reverter isso, mas essa se tornou uma tendência muito forte entre uma parcela, pelo menos, da classe trabalhadora”, afirma.
Vitor Igdal concorda. “Na prática, os baianos também estão mais exigentes. As empresas que não cuidarem de cultura, liderança e pertencimento tendem a perder talentos, especialmente entre os mais jovens. Hoje, não existe CNPJ forte sem CPF forte. Fidelizar pessoas exige ambiente saudável, propósito claro, líderes preparados e oportunidades reais de crescimento.”
Crédito: Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil