

A direita brasileira comemora cada gesto de aproximação entre Donald Trump e Flávio Bolsonaro como se fosse uma vitória eleitoral. A visita de Flávio Bolsonaro foi vista assim. Mas a história política do Brasil sugere que essa aposta pode esconder uma armadilha: quando os EUA parecem interferir nos assuntos nacionais, a reação do eleitor costuma ser de rejeição, não de adesão.
Nos últimos dias, o governo americano anunciou a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas, medida defendida por Flávio Bolsonaro durante encontros em Washington. A decisão provocou forte reação do governo Lula, que a classificou como uma afronta à soberania brasileira.
O debate não gira em torno da gravidade das facções criminosas. Há consenso de que PCC e Comando Vermelho representam ameaças reais à segurança pública. A controvérsia está em outro ponto: quem deve definir a política de combate ao crime no Brasil? Para uma parcela significativa da população, essa é uma atribuição do Estado brasileiro, não da Casa Branca. Se essa decisão evoluir para ações mais diretas que possam, por exemplo, atingir instituições financeiras e prejudicar o sistema Pix, a reação eleitoral tende a ser a favor de Lula. Se a ação de Trump impactar o ambiente econômico, e a investigação comercial resultar em tarifas, a reação do eleitorado será maior ainda.
O governo brasileiro teme que a classificação das facções como organizações terroristas seja utilizada futuramente para justificar sanções, restrições financeiras ou barreiras comerciais. Caso isso ocorra, o debate eleitoral poderá migrar do terreno da segurança pública para o da defesa dos empregos, das exportações e da economia nacional.
Se isso acontecer, o discurso de defesa nacional vai encontrar eco em um sentimento histórico enraizado na sociedade brasileira: a resistência a percepção de subordinação aos Estados Unidos.
Esse sentimento não é exclusivo da esquerda. Ele aparece em diferentes correntes ideológicas sempre que surge a impressão de que interesses externos tentam influenciar decisões nacionais. Foi assim em episódios envolvendo o petróleo, a Amazônia e disputas comerciais internacionais. O nacionalismo brasileiro tem a peculiaridade de unir setores que normalmente se encontram em campos políticos opostos.
Por isso, uma eventual escalada promovida por Trump pode produzir um paradoxo eleitoral. Quanto mais a disputa for apresentada como um confronto entre o governo brasileiro e pressões vindas de Washington, mais Lula terá condições de ocupar o papel de defensor da soberania nacional. E, em política, poucas posições costumam ser tão rentáveis quanto a de líder que se apresenta como protetor do país diante de ameaças externas.
A direita aposta que a aproximação com Trump reforça sua imagem de firmeza contra o crime organizado. Mas existe o risco de que o eleitor enxergue a situação de outra forma: não como cooperação internacional, mas como ingerência estrangeira. Se essa percepção prevalecer, Lula poderá colher dividendos políticos justamente de uma ofensiva concebida para que ocorresse o contrário. O fato é que a ação de Trump, ao invés de ajudar a direita, pode acabar oferecendo a Lula um dos ativos mais poderosos da política nacional: a bandeira da soberania brasileira. (EP -01/06/2026)