segunda, 12 de outubro de 2026
Euro Dólar

MARCELO FILHO – A CRISE DE ENERGIA QUE PODE CUSTAR UM BOLSA FAMÍLIA AOS COFRES PÚBLICOS

Redação - 12/10/2026 05:00

Como a alta do preço internacional do diesel tem tirado recursos do orçamento federal e uma reflexão sobre a durabilidade da crise e as escolhas que precisarão ser feitas pelo próximo presidente.

Ninguém consome petróleo

Vamos começar pelo básico. Petróleo bruto não serve para encher o tanque. O que a gente consome é o que sai dele: diesel, gasolina, querosene de aviação, gás de cozinha, asfalto. São os produtos que chamamos de derivados. A refinaria é a fábrica que faz essa transformação. Ao aquecer o petróleo bruto numa torre, as partes mais leves sobem e viram gás e gasolina. As intermediárias viram querosene e diesel. As mais pesadas ficam embaixo e viram óleo combustível e asfalto. É assim que o petróleo vira o combustível que abastece seu carro.

Essa microaula de química foi só pra te dizer que ter petróleo não basta. O Brasil exporta petróleo bruto e importa diesel, porque a gente não tem capacidade de refino suficiente para abastecimento interno.

Onde fica o refino do mundo

O mundo consegue refinar cerca de 104 milhões de barris de petróleo por dia. Mais de um terço dessa capacidade está em dois países, China e Estados Unidos. A Rússia vem em terceiro. O Brasil é o nono.

 

Repare nas barras laranja. Em 2026, duas guerras no mundo tiraram do mercado uma parte dessa capacidade produtiva.

A primeira é a do Irã. Em 28 de fevereiro, Estados Unidos e Israel atacaram o país. O Irã respondeu atacando navios no Estreito de Ormuz, a única saída do Golfo Pérsico, e a passagem ficou, na prática, fechada. Por que isso é importante? Atrás do estreito ficam refinarias da Arábia Saudita, do Irã e alguns outros países do Oriente Médio que respondem por cerca de 10% da capacidade mundial de refino. Elas continuam de pé, mas não conseguem transportar o que produzem.

A segunda é a da Rússia. Pois é, esse conflito ainda está acontecendo e em agosto, a Ucrânia atacou refinarias russas pelo menos 21 vezes, o maior número em um único mês desde o início da invasão. Moscou proibiu a exportação de diesel em julho a fim de garantir o abastecimento interno do país.

O impacto na oferta? Os dois gráficos abaixo talvez respondam essa pergunta.

 

A Rússia quase sumiu do mercado, os países do Oriente médio reduziram muito suas exportações. Os EUA tiveram que aumentar muito suas vendas para os outros países com o objetivo de não permitir que o mercado global ficasse desabastecido.

O preço do Diesel

Bem, não ficou difícil chegar à conclusão que o preço do diesel disparou, né? Em 6 de outubro, um barril de Brent custava US$ 125 no mercado à vista. Um barril de diesel em Nova York custava US$ 198.

A distância entre as duas linhas é a margem do refino. Antes da guerra, ela era de US$ 41 por barril. Em 1º de setembro, chegou a US$ 102. No dia 16 de setembro, o diesel bateu US$ 225 por barril, o maior valor da série.

Os outros países podem aumentar a produção de diesel?

A resposta curta é não. Os dois maiores refinadores do mundo estão ocupados com os próprios problemas. Vamos começar pelos Estados Unidos.

O país não tem investido em capacidade nova de refino. A última refinaria grande dos Estados Unidos ficou pronta em 1977, em Garyville, na Louisiana. Durante décadas, a capacidade cresceu só com a ampliação das refinarias que já existiam. Desde 2020, contudo, a situação se inverteu e o país passou a perder capacidade.

Com menos refinarias, o jeito é usar mais as que sobraram. E é exatamente isso que o país tem feito.

Repare na linha laranja. De junho ao início de setembro, as refinarias americanas usaram 95% ou mais da capacidade por 15 semanas seguidas. É a sequência mais longa desde 1998. Acreditar que pode existir um esforço adicional dos americanos para produzir mais combustível parece uma ilusão. O país já está rodando no máximo da sua capacidade e fazendo de tudo para evitar um desabastecimento global.

E aqui, vale um aviso. Rodar tão perto da sua capacidade máxima por tanto tempo é um risco operacional importante. Uma refinaria trabalha com calor e pressão e precisa parar para manutenção. Muitas adiaram as paradas do segundo trimestre para aproveitar a margem alta, mas isso tem um custo no médio prazo e a chance de uma interrupção do refino por problemas técnicos nos EUA nunca foi tão alta.

Pra piorar a situação, o presidente Donald Trump ameaçou proibir a exportação de diesel para baixar o preço interno. É claro que nada concreto foi definido ainda e após negociações com o G7, o chefe de Estado americano parece ter abandonado a ideia. É importante deixar claro, contudo, que uma medida como essa seria desastrosa para o mercado de diesel dado que os EUA é o único país com alguma capacidade de repor parcialmente a oferta que foi perdida pela guerra.

Agora vamos analisar a situação da China. O país tem o maior parque de refino do mundo e, aparentemente tem espaço para aumentar sua utilização (vale lembrar que os dados vindos da China são sempre um pouco menos transparentes do que gostaríamos). O problema é que os chineses só têm um objetivo em mente: garantir o suprimento interno num preço razoável.

A estratégia energética dos chineses é um pouco complexa, por isso, peço um pouco de paciência, mas a primeira coisa que você tem que saber é que apesar de ter refino, os chineses não têm petróleo.

O fechamento do Estreito de Ormuz trouxe um choque de oferta também ao petróleo. O preço da commodity subiu muito e isso é ruim pra China, que importa boa parte do que consome.

A resposta então foi pragmática. Os chineses reduziram de maneira significativa as importações de petróleo com o objetivo de evitar que o preço da commodity subisse tanto (menos demanda traz um preço menor). O problema disso é que as refinarias do país não teriam tanto insumo e teriam que reduzir a produção de derivados. Foi aí que a China olhou pra dentro.

O país topou reduzir a produção de derivados e proibiu a exportação de diesel. Essa decisão foi acompanhada pela utilização de reservas de emergência que foram acumuladas nos últimos anos. Dessa forma, a China atingiu todos os seus objetivos internos: controlou o preço do petróleo e garantiu o abastecimento interno a um preço razoável. Quem saiu prejudicado foi o mercado internacional, que ficou sem o combustível que vinha das refinarias chinesas.

Então pra resumir, porque eu sei que o assunto é complexo, a China deixou de comprar petróleo caro, que ela não tem, e fechou a saída do diesel, para não faltar lá dentro. Está claro né?

O que tudo isso significa é que não tem uma saída fácil pra crise pelo lado da oferta. Os Estados Unidos já estão fazendo tudo o que podem e a China simplesmente não está preocupada com o mundo. Enquanto a guerra persistir, as restrições na oferta de diesel devem seguir se agravando.

O que o Brasil tem feito

Agora chegamos em um dos pontos centrais do texto. Por que parece que essa crise não chegou no nosso país? Na verdade, quem está pagando a conta é o governo brasileiro. O poder público tem utilizado recursos do Tesouro para manter o preço do diesel constante. Deixa eu te explicar um pouco de como funciona esse mecanismo.

O governo paga R$ 2,12 por litro de diesel a quem produz ou importa o combustível. O valor cresceu na medida que a crise se agravava: era de R$ 0,32 em março, passou a R$ 1,12 em maio e chegou a R$ 2,12 em setembro. A subvenção é renovada de 30 em 30 dias e em 9 de outubro, o governo criou um adicional de R$ 1,40 por litro só para o diesel importado, que passa a receber R$ 3,52.

Há outras ajudas além dessa, mas você pegou o espírito. O governo usa o dinheiro de impostos para incentivar que os produtores e importadores de diesel mantenham o preço do combustível controlado internamente.

E a estratégia tem funcionado. O gráfico abaixo compara o preço do Diesel na bomba de Brasil e Estados Unidos. A diferença é clara.

O problema é o custo fiscal. Manter a subvenção do diesel em R$ 2,12 custa R$ 10,5 bilhões a cada 30 dias, segundo o Ministério do Planejamento. O adicional para o diesel importado custa mais R$ 1,6 bilhão. As medidas da gasolina e do etanol custam R$ 3,6 bilhões mensalmente. São R$ 15,7 bilhões por mês que saem dos cofres públicos. Se a crise durar mais um ano (e vale lembrar que ela tem se agravado), o impacto no orçamento federal seria de mais de 180 bilhões de reais. Para fins de comparação, isso é mais que o gastamos com o Bolsa Família.

 

A escolha do próximo presidente

O segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro é em 25 de outubro. As medidas de apoio ao preço dos combustíveis vencem dois dias depois. Quem ganhar vai ter que escolher entre dois caminhos ruins.

O primeiro é manter o incentivo e continuar prejudicando os cofres públicos. Num país que já vive uma crise fiscal, essa decisão pode trazer impactos econômicos não desejados.

O segundo é retirar o incentivo e aceitar um diesel mais caro. Esse segundo caminho tem um risco conhecido. Em 2018, uma greve de caminhoneiros provocada pela alta do diesel paralisou o país por cerca de dez dias.

Ainda tem outro risco que pode aparecer no horizonte: o de desabastecimento.

Como mostra o gráfico acima, a importação de diesel russo foi severamente reduzida ao longo desse ano depois que o país proibiu as exportações. Hoje, quase três quartos do nosso combustível importado vem dos EUA, que ameaçam impor restrições para proteger o abastecimento local. Tudo isso pra te dizer que o risco de desabastecimento existe sim e que a situação ainda pode ficar muito pior.

Entre desabastecimento, greve de caminhoneiros e custo fiscal, não há uma escolha fácil para o próximo presidente do país. E não dá pra esperar que essa crise se resolva sozinha.

 

Escrito por Marcelo Filho

Copyright © 2023 Bahia Economica - Todos os direitos reservados.