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CIENTISTA BAIANA PREMIADA INTERNACIONALMENTE TRANSFORMA VIVÊNCIA COM CÂNCER DE MAMA EM PESQUISA PARA AJUDAR OUTRAS MULHERES

João - 06/10/2026 12:37

O tratamento do câncer de mama salva vidas, mas seus efeitos podem permanecer mesmo depois da remissão. Alterações hormonais, ressecamento vaginal, dor durante as relações, redução da libido, sintomas urinários e outras disfunções relacionadas ao assoalho pélvico podem afetar a qualidade de vida das mulheres durante e após o tratamento.

É nesse contexto que a cientista baiana Patrícia Lordêlo, fisioterapeuta pélvica, professora e pesquisadora especializada em Saúde da Mulher, vem ampliando a discussão sobre saúde pélvica no câncer de mama. A partir da própria experiência com a doença, Patrícia transformou a vivência pessoal em estímulo para aprofundar pesquisas e contribuir para que essas questões sejam incorporadas ao cuidado integral das pacientes.

Pesquisa com LED azul

De acordo com a pesquisadora, durante a quimioterapia e a hormonioterapia, alterações na mucosa vaginal podem provocar sintomas semelhantes aos da menopausa. Em alguns casos, o uso prolongado de bloqueadores hormonais pode levar à atrofia vaginal e até à estenose (estreitamento), dificultando exames ginecológicos e afetando a vida sexual.

Desde 2019, Patrícia Lordêlo e sua equipe estudam alternativas não hormonais para essas disfunções. Entre elas está o LED azul intravaginal, dispositivo idealizado e desenvolvido pelo grupo. “Estudos já realizados com mulheres que passaram pelo tratamento do câncer de mama apontaram melhora da lubrificação e do conforto vaginal. A próxima etapa da pesquisa deverá investigar o uso da tecnologia durante o próprio tratamento contra o câncer, inclusive com possibilidade de aplicação no domicílio”, relata a fisioterapeuta pélvica.

Em 2022, o grupo de pesquisa liderado por Patrícia recebeu, em Viena, o prêmio de melhor tratamento conservador no ICS Annual Meeting, congresso da Sociedade Internacional de Continência, pelo estudo sobre o uso de LED no tratamento da Síndrome Geniturinária da Menopausa em sobreviventes do câncer de mama.

Um problema ainda pouco discutido

Uma revisão científica publicada em 2026, que reuniu 36 estudos e 9.749 sobreviventes do câncer de mama, estimou em 70% a prevalência de disfunção sexual entre essas mulheres. Embora o dado não represente todas as disfunções pélvicas, evidencia a dimensão de um problema que ainda recebe pouca atenção.

“A fisioterapia pélvica pode integrar o cuidado multidisciplinar e contribuir para a reabilitação dessas pacientes, especialmente diante de sintomas que impactam diretamente a intimidade, a autoestima e a qualidade de vida”, afirma Patrícia Lordêlo.

Da experiência pessoal à ciência

Essa trajetória será apresentada em Inteira: Uma história real de corpo, intimidade, ciência, espiritualidade e reconstrução. Trata-se de uma autobiografia de Patrícia que será lançada em Salvador durante o Outubro Rosa. A renda da publicação será integralmente destinada a novas pesquisas na área.

“Quando vivi o câncer de mama, passei a compreender também, na própria pele, questões que já faziam parte da minha trajetória profissional. Percebi o quanto a saúde pélvica e a sexualidade ainda são pouco discutidas durante e depois do tratamento. Transformar essa experiência em pesquisa e conhecimento é uma forma de ressignificar o que vivi e contribuir para que outras mulheres tenham acesso a um cuidado mais completo”, ressalta Patrícia Lordêlo.

Sobre o livro

Com prefácio assinado pela multiartista Regina Casé, que esteve próxima de Patrícia durante seu próprio tratamento, o livro será lançado no dia 18 de outubro, às 10h, no Gabinete Português de Leitura de Salvador. A escolha do local também se relaciona à ligação de Patrícia com Portugal, onde divide seu tempo entre consultas, estudos e docência. A obra estará disponível nas versões impressa e digital.

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