

Pelo terceiro ano consecutivo, a dor nas costas foi a principal causa de afastamento do trabalho entre os brasileiros. Dados do Ministério da Previdência Social apontam que 237.113 trabalhadores formais receberam, em 2025, o benefício por incapacidade temporária devido a casos de dorsalgia. O número representa aumento em relação aos 205.142 registros contabilizados em 2024.
O cenário faz parte de um quadro mais amplo. Mais de 4,12 milhões de brasileiros precisaram se afastar das atividades profissionais por motivos de saúde em 2025, maior número registrado desde 2021. O total representa crescimento de 15% em comparação com o ano anterior.
Na sequência das dores nas costas aparecem as lesões e os desgastes dos discos intervertebrais, que incluem casos de hérnia de disco. Ao todo, foram registrados 208.727 afastamentos relacionados a essas condições.
Para o médico anestesiologista e especialista em dor crônica Marco Delazzo, os números representam apenas parte do problema, já que muitos trabalhadores convivem com dores sem procurar atendimento especializado.
Segundo o especialista, há pessoas que continuam trabalhando mesmo com dores persistentes, utilizando medicamentos por conta própria e adiando a busca por tratamento. Para ele, o afastamento pode ser o estágio mais avançado de um problema que começou muito antes.
Diagnóstico tardio pode agravar a dor
O médico também chama atenção para o intervalo entre o surgimento dos primeiros sintomas e a procura por atendimento especializado. De acordo com sua experiência clínica, muitos pacientes chegam ao consultório depois de conviver durante anos com a dor.
Segundo Delazzo, a permanência prolongada dos sintomas pode contribuir para a cronificação da dor e tornar o tratamento mais complexo. Ele afirma que alguns casos poderiam ser controlados anteriormente com um diagnóstico adequado e um plano terapêutico direcionado.
Uma pesquisa citada pelo especialista aponta que 68% dos trabalhadores afirmaram sentir dores físicas com frequência em razão do trabalho. O levantamento também indica que 51% não recebem suporte ou benefícios dos empregadores para lidar com desconfortos e dores recorrentes.
Para o médico, os dados mostram uma diferença entre o momento em que o trabalhador começa a sentir os sintomas e quando a empresa percebe o problema. Ele avalia que a dor pode afetar concentração, disposição e produtividade antes de resultar em uma licença.
Mulheres concentram maior número de afastamentos
Entre as mulheres, as dores na coluna foram a principal causa de licença relacionada a problemas de saúde em 2025, com 121.586 registros.
Na avaliação de Marco Delazzo, fatores como a combinação entre trabalho formal, tarefas domésticas e cuidados com os filhos podem aumentar a sobrecarga física e emocional enfrentada por muitas mulheres.
O especialista também afirma que pacientes do sexo feminino podem enfrentar dificuldades para ter suas queixas de dor reconhecidas. Segundo ele, algumas chegam ao atendimento após anos convivendo com sintomas que foram atribuídos ao estresse ou considerados sem gravidade.
Tratamento pode reduzir necessidade de afastamento
O especialista afirma que existem alternativas de tratamento para diferentes tipos de dor crônica e que o diagnóstico precoce pode contribuir para evitar o agravamento dos quadros.
Entre as possibilidades citadas estão bloqueios analgésicos, infiltrações e outros tratamentos intervencionistas, que podem ser utilizados de acordo com a avaliação médica e as características de cada paciente.
Para Delazzo, a falta de acesso ao atendimento especializado no momento adequado é um dos fatores que contribuem para que trabalhadores cheguem ao afastamento após anos convivendo com sintomas.
“A dor crônica não é fatalidade. É um problema de saúde com tratamento eficaz. O que precisamos é que o paciente chegue ao especialista antes de chegar ao INSS”, conclui.
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