domingo, 20 de setembro de 2026
Euro Dólar

QUEDA DA SELIC PODE DESTRAVAR COMPRADORES QUE AGUARDAVAM MELHOR MOMENTO PARA INVESTIR EM IMÓVEIS

João - 02/09/2026 07:18 - Atualizado 02/09/2026

Após quarto corte seguido do Copom, taxa básica de juros recua a 14% e abre caminho para financiamentos mais baratos, mas especialistas apontam que o alto padrão já não depende tanto do crédito bancário

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual na reunião de 4 e 5 de agosto, levando a taxa básica de juros de 14,25% para 14%. Foi o quarto corte consecutivo do ciclo iniciado em março, decidido por unanimidade entre os sete diretores do colegiado presidido por Gabriel Galípolo. Segundo o Banco Central, o ambiente externo mais estável e a melhora gradual da inflação corrente abriram espaço para a continuidade do afrouxamento monetário, ainda que em ritmo cauteloso.

A ata da reunião, divulgada dias depois, reforçou que a autoridade monetária não pretende acelerar os cortes e prioriza a convergência da inflação à meta de 3%. O IPCA acumulado em 12 meses fechou julho em 4,44%, dentro da margem de tolerância do Banco Central, mas ainda acima do centro da meta.

O Boletim Focus, pesquisa semanal do Banco Central com instituições financeiras, passou a projetar a Selic em 13,75% ao final de 2026, a primeira revisão para baixo desde março. A expectativa é de mais um corte de 0,25 ponto percentual até dezembro, distribuído entre as reuniões de setembro, outubro, novembro e dezembro. A próxima decisão do Copom está marcada para os dias 15 e 16 de setembro.

Mesmo com o corte mais recente, a taxa básica de juros segue em patamar considerado restritivo pelo próprio Banco Central, o que mantém o financiamento imobiliário caro para boa parte das famílias brasileiras. Com taxas de crédito habitacional na faixa de 14% a 16% ao ano, comprar um imóvel financiado ainda é inviável para grande parcela da renda média do país, empurrando a demanda para o mercado de aluguel em várias capitais.

Enquanto o crédito segue restritivo para a maior parte da população, o segmento de alto padrão tem se mostrado mais resiliente à Selic elevada. Levantamentos do setor mostram que a compra de imóveis de luxo depende menos de financiamento bancário tradicional e mais de capital próprio, herança ou investimento e é também por isso que mercados de alto padrão, como Leblon, no RJ, Itaim Bibi, em São Paulo, além da Barra, em Salvador, podem manter uma demanda mais resiliente mesmo em cenários de juros elevados: uma parcela relevante desse público não depende diretamente do crédito bancário para comprar.

Para especialistas do mercado imobiliário, a expectativa de queda gradual da Selic ao longo dos próximos meses deve representar uma demanda que hoje está em compasso de espera, especialmente entre compradores de médio e alto padrão que aguardam condições de financiamento mais favoráveis para voltar a negociar.

Segundo Luccas Isnard, CEO da Vizu Imobiliária – Boutique, a queda dos juros já começa a influenciar o comportamento desse comprador. “A queda da Selic começa a mudar o comportamento de quem estava aguardando um momento mais favorável para voltar ao mercado. No alto padrão, esse movimento não está necessariamente ligado à necessidade de financiamento, mas principalmente à percepção de oportunidade. O comprador passa a acompanhar os preços, comparar imóveis e entender que, com uma trajetória de juros descendente, pode haver menos espaço para negociação no futuro.”

O movimento também pode favorecer quem já possui capital disponível, especialmente em um mercado no qual imóveis com características específicas têm oferta limitada. “O mercado de alto padrão tem uma dinâmica um pouco diferente porque existe uma parcela significativa de compradores que utiliza capital próprio. Por isso, mesmo em um cenário de juros elevados, esse público continua ativo. A redução da Selic, porém, pode ampliar esse movimento, porque melhora o ambiente econômico como um todo e também faz com que investidores voltem a considerar o imóvel como uma alternativa interessante dentro da composição do patrimônio.” afirmou Isnard.

Por outro lado, quem depende de financiamento tende a se beneficiar de parcelas menores. À medida que a Selic recua, o ambiente tende a favorecer uma redução gradual do custo do crédito, embora o impacto sobre as condições efetivamente oferecidas pelos bancos não seja imediato nem necessariamente proporcional a cada corte.

“Não acredito que o comprador deva simplesmente esperar a Selic chegar a um determinado patamar para tomar uma decisão. No mercado de alto padrão, cada imóvel tem características muito específicas e a oferta de boas oportunidades é limitada. Se o imóvel atende ao que o comprador procura e existe uma condição interessante de negociação, esperar alguns meses por uma queda maior dos juros pode significar encontrar um cenário diferente de preço e disponibilidade. Por isso, mais importante do que tentar acertar o melhor momento do mercado é identificar boas oportunidades.” finalizou o CEO.

O cenário de 2026 segue, portanto, dividido: juros altos hoje, mas em trajetória de queda; crédito ainda caro, mas com sinalização de alívio gradual até o fim do ano, o que deve manter o mercado imobiliário brasileiro em compasso de transição pelos próximos meses.

FOTO: BRUNO LUCAS

Copyright © 2023 Bahia Economica - Todos os direitos reservados.